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Criao, Editorao, Fotolitos e Capa: Macquete Grfica Produes (0XX11) 6694-6477 Reviso: Ana Maria Barbosa

Catalogao na Fonte do Departamento Nacional do Livro C982a Cury, Augusto Jorge. Anlise da inteligncia de Cristo : o Mestre dos Mestres / Augusto Jorge Cury --
So Paulo: Academia de Inteligncia, 1999. 232 p. ; 21 cm.
ISBN: 85-87643-01-0

Inclui bibliografia. 1. Jesus Cristo -- Personalidade e misso. 2. Inteligncia. I. Ttulo. CDD-232.903

Editora Academia de Inteligncia Fone/fax: (0XX17) 3342-4844 E-mail: academiaint@mdbrasil.com.br

#Dedi

co esta obra a todos aqueles que procuram no ser vtimas do rolo compressor da histria, que buscam dar um sentido mais nobre  sua vida e a investir em sabedoria
na sinuosa, turbulenta e bela existncia humana.

#PREFCIO 9
CAPTULO 1 CARACTERSTICAS INTRIGANTES DA PERSONALIDADE DE CRISTO 11 CAPTULO 2 A TIMIDEZ E OMISSO DA CINCIA EM INVESTIGAR A INTELIGNCIA DE CRISTO 43 CAPTULO
3 CRISTO, SE VIVESSE HOJE, ABALARIA OS FUNDAMENTOS DA PSIQUIATRIA E DA PSICOLOGIA 71 CAPTULO 4 CRISTO PERTURBARIA O SISTEMA POLTICO 81 CAPTULO 5 O DISCURSO DE
CRISTO DEIXARIA A MEDICINA ATUAL ATNITA E TOCARIA NA MAIOR CRISE EXISTENCIAL DO HOMEM 93 CAPTULO 6 UM AUDACIOSO PROJETO: O PBLICO E O AMBIENTE 117 CAPTULO 7
DESPERTANDO A SEDE DE APRENDER E DESOBSTRUINDO A INTELIGNCIA 127 CAPTULO 8 INVESTINDO EM SABEDORIA DIANTE DOS INVERNOS DA VIDA 141 CAPTULO 9 UM CONTADOR DE HISTRIA
QUE SABIA LIDAR COM OS PAPIS DA MEMRIA E ESTIMULAR A ARTE DE PENSAR 155 CAPTULO 10 SUPERANDO A SOLIDO: FAZENDO AMIGOS 173 CAPTULO 11 PRESERVANDO A UNIDADE E
ENSINANDO A ARTE DE AMAR 191 CAPTULO 12 INTRODUZINDO AS FUNES MAIS IMPORTANTES DA INTELIGNCIA

#215 NOTAS BIBLIOGRFICAS 229

#Aps ter desenvolvido durante dezessete anos uma nova teoria sobre o funcionamento da mente e
sobre a construo da inteligncia, envolvi-me em uma das mais desafiadoras pesquisas psicolgicas: estudar a intrigante inteligncia daquele que dividiu a histria:
Cristo. Ele produziu comportamentos e proferiu discursos que revolucionaram a humanidade. Por ser psiquiatra, de origem multirracial (talo-judia, espanhola e rabe),
por ter sido um ateu ctico e por ser um pesquisador que sempre se interessou em estudar os enigmas da mente, investigar a personalidade de Cristo foi e ainda 
para mim um projeto estimulante. Muitas perguntas povoaram meus pensamentos durante os anos em que me envolvi nesse projeto: Cristo poderia ter sido fruto da imaginao
humana? Se ele no tivesse feito nenhum milagre, teria dividido a histria? Como abria as janelas da mente dos seus discpulos e os estimulava a desenvolver as funes
mais importantes da inteligncia? Como gerenciava seus pensamentos e suas reaes emocionais nas situaes estressantes? Algum discursou na histria pensamentos
semelhantes aos dele? Quais as dimenses e implicaes dos pensamentos dele? Muitas dessas perguntas ainda no foram respondidas adequadamente. Respond-las  fundamental
para a cincia, a educao, a psicologia, as sociedades, a teologia e para todos aqueles que procuram conhecer profundamente o personagem mais complexo e misterioso
que transitou pela sinuosa histria da humanidade. Estudar a mente de Jesus Cristo  mais complexo do que estudar a mente de qualquer pensador da psicologia e da
filosofia. Investigar se a sua inteligncia poderia ou no ser fruto da criatividade intelectual humana  uma tese estimulante e que possui muitas implicaes. Temos
feito sucessivas edies deste livro. As reaes dos leitores tm sido animadoras. Eles comentam que nunca tinham imaginado que a personalidade de Cristo fosse to
refinada, que ele fosse insupervel na arte de pensar e que seus pensamentos fossem revestidos de sabedoria. Muitas escolas tm recomendado aos professores sua leitura
e o tm adotado em diversas disciplinas, com o objetivo de que seus alunos expandam as funes mais importantes da inteligncia. Psiclogos o tm utilizado e estimulado
seus pacientes a l-lo, com o objetivo de ajud-los a prevenir a depresso, a ansiedade e o stress. Empresrios tm adquirido centenas de exemplares para distribuir
aos seus melhores amigos e clientes. Professores universitrios o tm recomendado em faculdades. Leitores tm confessado que sua vida ganhou um novo significado
aps a leitura de "Anlise...". Alm disso, apesar desse livro tratar de psicologia e no de religio, pessoas de diversas religies tm sido ajudadas por ele e
o utilizado sistematicamente. Todas essas reaes no so mritos meus, mas do personagem central aqui estudado. Investigar a inteligncia de Cristo realmente abre
as janelas de nossas mentes, expande o prazer de viver e estimula a sabedoria.

Augusto Jorge Cury

#Brilhando na arte de pensar
A arte de pensar  a manifestao mais sublime da inteligncia. Todos pensamos, mas nem todos desenvolvemos qualitativamente a arte de pensar. Por isso, freqentemente
no expandimos as funes mais importantes da inteligncia, tais como aprender a se interiorizar, a destilar sabedoria diante das dores, a trabalhar as perdas e
frustraes com dignidade, a agregar idias, a pensar com liberdade e conscincia crtica, a romper as ditaduras intelectuais, a gerenciar com maturidade os pensamentos
e emoes nos focos de tenso, a expandir a arte da contemplao do belo, a se doar sem a contrapartida do retorno, a se colocar no lugar do outro e considerar suas
dores e necessidades psicossociais. Muitos homens, ao longo da histria, brilharam em suas inteligncias e desenvolveram algumas reas importantes do pensamento.
Scrates foi um questionador do mundo. Plato foi um investigador das relaes sociopolticas. Hipcrates foi o pai da medicina. Confcio foi um filsofo da brandura.
Squia-Mni, o fundador do budismo, foi um pensador da busca interior. Moiss foi o grande mediador do processo de liberdade do povo de Israel, conduzindo-o at
a terra de Cana. Maom, em sua peregrinao proftica, foi o unificador do povo rabe, um povo que estava dividido e sem identidade. H muitos outros homens que
brilharam na inteligncia, tais como Toms de Aquino, Agostinho, Hume, Bacon, Spinoza, Kant, Descartes, Galileu, Voltaire, Rosseau, Shakespeare, Hegel, Marx, Newton,
Max Well, Gandhi, Freud, Habermas, Heidegger, Curt Lewin, Einstein, Viktor Frankl etc. A temporalidade da vida humana  muito curta. Em poucos anos encerramos o
espetculo da existncia. Infelizmente, poucos investem em sabedoria nesse breve espetculo, por isso no se interiorizam, no se repensam. Se compararmos a lista
dos homens que brilharam em suas inteligncias e investiram em sabedoria ao contigente de nossa espcie, ela se torna muito pequena. Independente de qualquer julgamento
que possamos fazer desses homens, o fato  que eles expandiram o mundo das idias no campo cientfico, cultural, filosfico e espiritual. Alguns no se preocuparam
com a notoriedade social, preferiram o anonimato, no se importaram em divulgar suas idias e escrever seus nomes nos anais da histria. Porm, suas idias no puderam
ser sepultadas. Elas germinaram como sementes na mente dos homens e enriqueceram a histria da humanidade. Estudar a inteligncia deles pode nos ajudar muito a expandir
nossas prprias inteligncias. Houve um homem que viveu h muitos sculos e que no apenas brilhou em sua inteligncia, mas teve uma personalidade intrigante, misteriosa
e fascinante. Ele conquistou uma fama indescritvel. O mundo comemora seu nascimento. Todavia, em detrimento de sua enorme fama, algumas reas fundamentais da sua
inteligncia so pouco conhecidas. Ele destilava sabedoria diante das suas dores e era ntimo da arte de pensar. Esse homem foi Jesus Cristo. A histria de Cristo
teve particularidades em toda a sua trajetria: do seu nascimento  sua morte. Ele abalou os alicerces da histria humana por intermdio da sua prpria histria.
Seu viver e seus pensamentos atravessaram geraes, varreram os sculos, embora ele nunca tenha procurado status social e poltico. Ele no cresceu debaixo da cultura
clssica da sua poca. Quando abriu a boca, produziu pensamentos de inconfundvel complexidade. Tinha pouco mais de trinta anos de idade, mas perturbou profundamente
a inteligncia dos homens mais cultos de sua poca. Os escribas e fariseus, que eram intrpretes e mestres da lei, que possuam uma cultura milenar rica, ficaram
chocados com seus pensamentos. Sua vida sempre foi rida, sem nenhum privilgio econmico e social. Conheceu intimamente as dores da existncia. Contudo, ao invs
de se preocupar com as suas prprias dores e querer que o mundo gravitasse em torno das suas necessidades, ele se preocupava com as dores e necessidades alheias.

#O sistema poltico e religioso no foi tolerante com ele, mas ele foi tolerante e dcil com todos, mesmo com seus mais ardentes opositores. Cristo vivenciou sofrimentos
e perseguies desde a sua infncia. Foi incompreendido, rejeitado, zombado, cuspido no rosto. Foi ferido fsica e psicologicamente. Porm, apesar de tantas misrias
e sofrimentos, no desenvolveu uma emoo agressiva e ansiosa; pelo contrrio, ele exalava tranqilidade diante das mais tensas situaes e ainda tinha flego para
discursar sobre o amor no seu mais potico sentido. Muitos autores, ao longo dos sculos, abordaram Cristo de diferentes aspectos espirituais: sua divindade, seu
propsito transcendental, seus atos sobrenaturais, seu reino celestial, sua ressurreio, a escatologia (doutrina das ltimas coisas) etc. Quem quiser estudar esses
aspectos de Cristo ter de procurar os textos desses autores, pois a Anlise da inteligncia de Cristo investiga Cristo em outra perspectiva, sob um outro ngulo.
Este livro realiza uma investigao talvez nunca realizada pela cincia da interpretao ou nunca produzida pela psicologia. Investiga a sua singular personalidade.
Analisa o funcionamento da sua surpreendente inteligncia. Estuda sua arte de pensar, os meandros da sua construo de pensamentos nos seus focos de tenso. A personalidade
 constituda de muitos elementos. Em sntese, ela se constitui da construo de pensamentos, da transformao da energia emocional, do processo de formao da conscincia
existencial (quem sou, como estou, onde estou), da histria inconsciente arquivada na memria, da carga gentica. Aqui convencionarei que a inteligncia  a manifestao
da personalidade diante dos estmulos do mundo psquico bem como dos ambientes e das circunstncias em que uma pessoa vive. Todo ser humano possui uma inteligncia,
mas nem todos desenvolvem suas funes mais importantes. Durante quase duas dcadas em que tenho pesquisado o funcionamento da mente, a construo da inteligncia
e o processo de interpretao, posso afirmar com segurana que Cristo possui uma personalidade bastante complexa, muito difcil de ser investigada, interpretada
e compreendida. Esta  uma das causas que inibiu a cincia de procurar investigar e compreender, ainda que minimamente, a sua inteligncia. Analisar a inteligncia
de Cristo  um dos maiores desafios da cincia. Aps ter desenvolvido os alicerces bsicos de uma nova teoria sobre o funcionamento da mente, comecei a me envolver
neste enorme e estimulante projeto, que  investigar a personalidade de Cristo. Foram anos de estudo, em que procurei, dentro das minhas limitaes, fugir das respostas
achistas e do explicacionismo cientfico superficial. Interpretar a histria  uma das tarefas intelectuais mais complexas.  reconstruir a histria, e no resgat-la
de maneira pura. Reconstruir os fatos, ambientes e circunstncias do passado  um grande desafio. Se o leitor tentar resgatar as experincias mais marcantes da sua
histria, verificar que esse resgate freqentemente reduz a dimenso das dores e dos prazeres vividos no passado. Estudaremos este assunto. Todo resgate do passado
est sujeito a limitaes e imperfeies. Este livro, que  um exerccio de interpretao psicolgica da histria, no foge  regra. Se interpretar a histria 
uma tarefa intelectual complexa e sinuosa, agora imagine como deve ser difcil investigar a inteligncia de Cristo, os nveis de sua coerncia intelectual, sua capacidade
de gerenciar a construo de pensamentos, de transcender as ditaduras da inteligncia, de superar as dores fsicas e emocionais e de abrir as janelas da mente das
pessoas que o envolviam. Cristo possua uma personalidade difcil de ser estudada. Suas reaes intelectuais e emocionais eram to surpreendentes e incomuns que
ultrapassam os limites da previsibilidade psicolgica. Apesar das dificuldades,  possvel viajarmos por algumas avenidas fundamentais do pensamento de Cristo e
compreendermos algumas reas importantes da sua inteligncia.

#Um enigma para a cincia em diversas reas
Quem foi Jesus Cristo? Este livro, que pretende realizar uma anlise psicolgica da inteligncia de Cristo, no pode responder plenamente quem ele foi. Tal pergunta
entra na esfera da f, uma esfera que ultrapassa os limites da investigao cientfica, que transcende a cincia da interpretao. A cincia se cala quando a f
se inicia. A f transcende a lgica,  uma convico em que h ausncia de dvida. A cincia sobrevive da dvida. Quanto maior for a dvida, maior poder ser a dimenso
da resposta. Sem a arte da dvida, a cincia no tem como sobreviver e expandir a sua produo de conhecimento. Cristo discorria sobre a f. Falava da necessidade
de crer sem duvidar, de uma crena plena, completa, sem insegurana. Falava da f como um misterioso processo de interiorizao, como uma trajetria de vida clandestina.
Discorria sobre a f como um viver que transcende o mundo material, que extrapola o sistema sensorial e que cria razes no mago do esprito humano. A cincia no
tem como investigar o que  essa f, pois ela tem razes no cerne da experincia pessoal, portanto no se torna um objeto de estudo investigvel. Todavia, apesar
de Cristo falar da f como um processo de existncia transcendental, ele no anulava a arte de pensar; pelo contrrio, era um mestre excepcional nessa arte. Cristo
no discorria sobre uma f sem inteligncia. Para ele, primeiro deveria se exercer a capacidade de pensar e refletir antes de crer, depois vinha o crer sem duvidar.
Se estudarmos os quatro evangelhos e investigarmos a maneira como Cristo reagia e expressava seus pensamentos, constataremos que pensar com liberdade e conscincia
era uma obraprima para ele. Um dos maiores problemas enfrentados por Cristo era o crcere intelectual em que as pessoas viviam, ou seja, a rigidez intelectual com
que elas pensavam e compreendiam a si mesmas e ao mundo que as envolviam. Por isso, apesar de falar da f como ausncia da dvida, ele tambm era um mestre sofisticado
no uso da arte da dvida. Ele a usava para abrir as janelas da inteligncia das pessoas que o circundavam1. Como Cristo usava a arte da dvida? Se observarmos os
textos dos quatro evangelhos veremos que ele era um excelente perguntador, um ousado questionador. Usava a arte da pergunta para conduzir as pessoas a se interiorizar
e a se questionar. Tambm era um exmio contador de parbolas que perturbava os pensamentos de todos os seus ouvintes. Quem  Cristo? Ele  o filho de Deus? Ele
tem natureza divina? Ele  o autor da existncia? Como ele se antecipava ao tempo e previa fatos ainda no acontecidos, tais como a traio de Judas e a negao
de Pedro? Como realizava os atos sobrenaturais que deixavam as pessoas extasiadas? Como multiplicou alguns pes e peixes e saciou a fome de milhares de pessoas?
Ele multiplicou a matria, molculas ou usou qualquer outro fenmeno? A cincia no pode dar essas respostas sobre Cristo e nem outras tantas, pois essas perguntas
entram na esfera da f. Como disse, quando comea a f, que  ntima e pessoal de cada ser humano, e que, portanto, deve ser respeitada, a cincia se cala. Cristo
continuar, em muitas reas, um grande enigma para a cincia. Se a cincia se atrever a entrar numa esfera que exclui fenmenos passveis de investigao, ela facilmente
entrar nos terrenos de um discurso "achista", explicacionista. Porm, uma coisa no anula a outra, a cincia no anula o esprito humano, a experincia ntima.
Talvez, um dia, a cincia, diante dos seus limites, venha a completar-se com fenmenos que ultrapassam os limites da lgica clssica. Todavia, esse  um assunto
muito complexo e que facilmente imerge no cientificismo, o que compromete a argumentao coerente. Esses textos no tratam desse assunto, mas das reas investigveis
de Cristo. No  possvel comentar a inteligncia de Cristo em alguns captulos. Sua arte de pensar  sofisticada demais para ser abordada em apenas um livro. Outras
obras sero necessrias para abord-la.

#Ao investigarmos a sua inteligncia, talvez possamos responder algumas dessas importantes perguntas: Cristo sempre expressava com elegncia e coerncia a sua inteligncia
nas vrias situaes tensas e angustiantes que vivia? Teria ele dividido a histria da humanidade se no tivesse realizado nenhum ato sobrenatural? Por que suas
palavras permanecem vivas at hoje, mexendo com centenas de milhes de pessoas de todas as lnguas e todos os nveis sociais, econmicos e culturais? Por que homens
que nunca o viram e nunca o tocaram disseram espantosamente, ao longo da histria, que no apenas creram nele, mas que tambm o amaram, dentre os quais se incluem
diversos pensadores, filsofos, cientistas? Realizaremos, nesses textos, uma viagem intelectual interessante ao investigarmos a vida de Cristo. E, ao contrrio do
que se possa pensar, ele gostava de ser investigado. Cristo apreciava ser analisado e indagado com inteligncia. Ele era crtico das pessoas que o investigavam superficialmente.
Em uma oportunidade, at mesmo provocou os escribas e fariseus a estudarem mais profundamente a respeito da identidade e da origem do "Cristo"2.

As quatro biografias de Cristo: ele foi um personagem real ou imaginrio?
Cristo tem quatro biografias que so chamadas de evangelhos: o evangelho de Mateus, de Marcos, de Lucas e de Joo. Marcos e Lucas no pertenciam aos doze discpulos.
Eles escreveram sobre Cristo baseados num processo de investigao de pessoas que conviveram intimamente com ele. As biografias de Cristo no so biografias no sentido
clssico, como as que conhecemos hoje. Porm, como os evangelhos retratam a sua histria, podemos dizer que eles representam a sua biografia. Todo cientista  um
indagador inveterado, um aventureiro nas trajetrias do desconhecido e um questionador de tudo que v e ouve. Investigar com critrio aquilo que se v e ouve  respeitar
a si mesmo e a sua prpria inteligncia. Se algum no respeita a sua prpria inteligncia no pode respeitar aquilo em que acredita. No deveramos aceitar nada
sem antes realizar uma anlise crtica dos fenmenos que observamos. Durante muitos anos, procurei estudar as biografias de Cristo. Por diversas vezes, me perguntava
se Cristo realmente tinha existido. Questionava se ele no tinha sido uma inveno literria, fruto da imaginao humana. Esta  uma questo fundamental, e no devemos
ter medo de investig-la. Antes de estudarmos este ponto, deixe-me falar-lhes um pouco sobre o atesmo. Aqueles que se dizem ateus tm como assuntos preferidos falar
sobre Deus ou da idia da negao de Sua existncia. Todo ser humano, no importa quem seja, ateu ou no, gosta de ter Deus na pauta das suas mais importantes idias.
A maioria dos ateus realmente no acreditava em Deus? No. A maioria dos ateus fundamentou seu atesmo no em um corpo de idias profundo sobre a existncia ou no
de Deus. Seu atesmo era resultado da indignao contra as injustias, incoerncias e discriminaes sociopolticas cometidas pela religiosidade reinante em determinada
poca. Quando todos pensavam que Voltaire, o afiado pensador do Iluminismo francs, fosse um ateu, ele proclamava no final de sua vida: "Morro adorando a Deus, amando
os meus amigos, no detestando meus inimigos, mas detestando a superstio"*. A maioria dos ateus possua e possui um atesmo social, um "scio-atesmo", alicerado
na anti-religiosidade, e no numa produo de conhecimento inteligente, descontaminada de distores intelectuais, de paixes atestas e tendencialismos psicossociais
sobre a existncia ou no de Deus.

#Provavelmente, fui mais ateu que muitos daqueles que se consideravam grandes ateus, tais como Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Jean-Paul Sartre. Por isso, pesquisava
a inteligncia de Cristo indagando continuamente se ele era fruto da imaginao humana, da criatividade literria, ou se realmente tinha existido. Como pesquisador
da inteligncia, fui investigar dentro do campo da minha especialidade, ou seja, dentro do campo da construo dos pensamentos descritos nas quatro biografias de
Cristo. Pesquisei a lgica, limites e alcance de sua inteligncia. H at hoje mais de 5 mil manuscritos do Novo Testamento, o que o torna o mais bem documentado
dos escritos antigos. Muitas cpias pertencem a uma data prxima dos originais. H aproximadamente 75 fragmentos datados desde 135 d.C. at o sculo VIII. Todos
esses dados, acrescidos ao trabalho intelectual produzido pelos estudiosos da paleografia, arqueologia e crtica textual, nos asseguram de que possumos um texto
fidedigno do Novo Testamento, que contm as quatro biografias de Cristo, os quatro evangelhos. Os fundamentos arqueolgicos e paleogrficos podem ser teis para
nos dar um texto fidedigno, mas no analisam o prprio texto; logo, so insuficientes para resolver a dvida se Cristo foi real ou fruto da criatividade intelectual
humana, so restritos para fornecer dados para uma anlise psicolgica ampla sobre os pensamentos de Cristo e sobre as intenes dos autores originais dos evangelhos.
Para analisar esses textos  necessrio imergir no prprio texto e interpret-lo multifocalmente e isento, tanto quanto possvel, de paixes e tendncias. Foi o
que procurei fazer. Penetrei nas quatro biografias de Cristo e procurei pesquisar at aquilo que estava nas entrelinhas desses textos, tanto os mais diversos nveis
de coerncia intelectual contidos neles como as intenes conscientes e inconscientes dos autores dos quatro evangelhos. Usei vrias verses para isso. Procurei
tambm pesquisar cada idia, cada reao, cada momento de silncio e cada pensamento que Cristo produzia nas vrias situaes que vivia, principalmente em seus focos
de tenso. Eu precisava saber se estava analisando a inteligncia de uma pessoa real ou imaginria. O resultado dessa investigao  muito importante. Minhas pesquisas
poderiam me conduzir a trs caminhos: a permanecer na dvida, a me convencer de que Cristo foi o fruto mais espetacular da imaginao humana, ou me convencer de
que realmente ele tinha existido, de que de fato foi uma pessoa real que andou e respirou nesta terra. Cheguei a uma concluso que passarei a demonstrar e defender
como se fosse uma tese nos prximos textos.

As intenes conscientes e inconscientes dos autores dos evangelhos
Se estudarmos as intenes conscientes e inconscientes dos autores dos evangelhos, constataremos que eles no tinham a inteno de fundar uma filosofia de vida,
de promover um heri poltico, de construir um lder religioso nem um homem diante do qual o mundo deveria se curvar. Eles queriam apenas descrever uma pessoa incomum
que mudou completamente a vida deles. Queriam registrar fatos, mesmo que incompreensveis e estranhos aos leitores, que Cristo viveu, discursou e expressou. Se estudarmos
os meandros dos pensamentos descritos nos evangelhos, constataremos que h diversos fatores que evidenciam que Cristo tinha uma personalidade inusitada, distinta,
mpar, imprevisvel. Dois dos autores dos evangelhos eram discpulos ntimos de Cristo (Mateus e Joo). O evangelho de Marcos foi escrito baseado provavelmente nos
relatos de Pedro: Marcos era to ntimo de Pedro que foi considerado como um filho para ele3. Ento, conclumos que trs desses autores tiveram uma relao estreita
com o personagem Cristo. Cristo era real ou fruto da imaginao desses autores? Vamos s evidncias.

#Se os evangelhos fossem fruto da imaginao literria desses autores, eles no falariam mal de si mesmos, no comentariam a atitude frgil e vexatria que tiveram
ao se dispersar quando Cristo foi preso. Quando Cristo se entregou aos seus opositores e deixou sua eloqncia e seus atos sobrenaturais de lado, os discpulos ficaram
frgeis e confusos. Naquele momento, tiveram vergonha dele e sentiram medo. Naquela situao estressante, as janelas de suas mentes foram fechadas e eles o abandonaram.
Pedro jurou que no negaria a Cristo. Amava tanto esse mestre que disse que se possvel morreria com ele. Porm, Pedro, numa situao delicada, o negou. E no apenas
uma vez, mas trs vezes, e ainda diante de pessoas sem qualquer poder poltico. Quem contou aos autores dos quatro evangelhos que Pedro negou a Cristo por trs vezes
para alguns servos? Quem contou a sua atitude vexatria se ningum do seu crculo de amigos sabia que ele o havia negado? Pedro, ele mesmo, teve a coragem de cont-lo.
Que autor falaria mal de si mesmo? Pedro no apenas contou os fatos, mas exps os detalhes da sua negao. Para Lucas, ele contou alguns detalhes significativos
que estudaremos. Com quem Pedro, que, quando jovem, era um rude e inculto pescador, aprendeu a ser to sincero, to honesto consigo mesmo, a ponto de falar de suas
prprias misrias? Ele deve ter aprendido com algum que, no mnimo, admirava muito. Algum que tivesse caractersticas to complexas na sua inteligncia que fosse
capaz de ensinar a Pedro a se interiorizar e a reciclar profundamente os seus valores existenciais. O Cristo descrito nos evangelhos tinha tais caractersticas.
Cristo, mesmo diante de situaes tensas, em que uma pequena simulao o livraria de grandes sofrimentos, optava por ser honesto consigo mesmo. Pedro aprendeu com
Cristo a difcil arte de ser fiel  sua prpria conscincia, a assumir seus erros e suas fragilidades. O que indica que esse Cristo no era um personagem literrio,
mas uma pessoa real. Se os autores dos evangelhos quisessem produzir conscientemente um heri religioso, eles, como seus discpulos, no desnudariam a vergonha que
tiveram dele momentos antes de ele morrer, pois isso deporia contra a adeso a esse suposto heri, ainda mais se fosse imaginrio. Esse fato representa um fenmeno
inconsciente que acusa a inteno de os discpulos descreverem um homem incomum que realmente viveu nesta terra. Quando Cristo foi aprisionado, injuriado e espancado,
o jovem Joo o abandonou, fugiu desesperadamente, juntamente com os demais discpulos. Alm disso, Joo, o prprio autor do quarto evangelho, descreveu com uma coragem
mpar a sua fragilidade e impotncia diante da dramtica dor fsica e psicolgica do seu mestre na cruz.4 Quando Joo escreveu o seu evangelho? Quando estava velho,
cerca de 90 d.C., mais de meio sculo depois que esse fato ocorreu. Todos os apstolos provavelmente j tinham morrido. Nessa poca, alguns estavam abandonando as
linhas bsicas do ensinamento de Cristo, ento Joo, na sua velhice, descreveu tudo aquilo que tinha visto e ouvido. O que se espera de uma pessoa muito idosa, que
est no fim da sua vida? Que ela no tenha mais nenhuma necessidade de simular, omitir ou mentir sobre os fatos que viu e viveu. O velho Joo no se escondeu atrs
de suas palavras. Ele no apenas discorreu sobre uma pessoa, Cristo, que marcou profundamente sua histria de vida, mas em sua descrio tambm no se esqueceu de
abordar a sua prpria fragilidade. Isto  incomum na literatura. S tem lgica um autor expor suas mazelas desse modo se ele desejar retratar a biografia real de
um personagem que est acima delas. O homem tende a esconder suas fragilidades e seus erros, mas os bigrafos de Cristo aprenderam a ser fiis a sua conscincia.
Aprenderam com Cristo a arte de destilar a sabedoria dos erros. Ao estudar as biografias de Cristo, constatamos que a inteno consciente e inconsciente dos seus
autores era apenas expressar com fidelidade aquilo que viveram, mesmo que isso fosse totalmente estranho aos conceitos humanos.

#Se Cristo fosse fruto da imaginao dos seus bigrafos, eles no apenas teriam riscado os dramticos momentos de hesitao que tiveram, mas tambm teriam riscado
dos seus escritos a dramtica angstia que o prprio Cristo passou na noite em que foi trado, no Getsmani. Um dia talvez escreva sobre esse momento mpar e os
fenmenos psicolgicos envolvidos nesse ambiente. Aqui minha abordagem ser sinttica. Naquela noite, Cristo expressou a dimenso do clice que iria beber, a dor
fsica e psicolgica que iria suportar. Se os autores dos evangelhos tivessem programado a criao de um personagem, teriam escondido a dor, o sofrimento de Cristo
e o contedo das suas palavras. Teriam apenas comentado os seus momentos de glria, os seus milagres, a sua popularidade. A descrio da dor de Cristo  uma evidncia
de que ele no era uma criao literria. No viveu um teatro; o que ele viveu foi relatado. Eles tambm no teriam silenciado a Cristo quando ele estava diante
do julgamento dos principais sacerdotes e polticos. Pelo contrrio, teriam colocado respostas brilhantes em sua boca. Cristo falou palavras sbias e eloqentes
que deixavam at as pessoas mais rgidas pasmadas. Porm, quando Pilatos, intrigado, o interrogava, ele se calou. No momento em que Cristo mais precisava de argumentos,
ele preferiu se calar. Com a sua inteligncia, poderia se safar do julgamento. Todavia, sabia que aquele julgamento era parcial e injusto. Ele emudeceu, e em nenhum
momento procurou se defender daquilo que havia feito e falado em pblico. Cristo apenas se entregou aos seus opositores e deixou que eles julgassem as suas palavras
e comportamentos. Ele foi julgado, humilhado e morreu de forma injusta, e os seus bigrafos descreveram isto.

Cristo no poderia ter sido fruto da criatividade intelectual de algum autor
Por um lado, h muitos fatos psicolgicos que demostraram claramente que os autores dos evangelhos no tinham a inteno consciente e inconsciente de criar literariamente
um personagem como Cristo foi; por outro lado, precisamos investigar se a mente humana tem capacidade de criar uma personalidade como a dele. Vejamos. Cristo no
se comportava nem como heri nem como anti-heri. Sua inteligncia era mpar. Seus comportamentos fugiam aos padres do intelecto humano. Quando todos esperavam
que falasse, ele silenciava. Quando todos esperavam que tirasse proveito dos atos sobrenaturais que praticava, pedia para que as pessoas ajudadas por ele no contassem
a ningum o que havia feito. Ele evitava qualquer tipo de ostentao. Que autor poderia imaginar um personagem to intrigante como esse? Na noite em que foi trado,
facilitou sua priso, pois levou consigo apenas trs dos seus discpulos. No quis que a multido que sempre o acompanhava estivesse presente naquele momento. Mesmo
com a presena de alguns discpulos j houve alguma agressividade naquela situao, pois Pedro feriu um dos soldados. No queria derramar sangue ou causar qualquer
tipo de violncia. Ele estava preocupado tanto com a segurana das pessoas que o seguiam como com a dos seus opositores, daqueles que o prenderam5.  incomum e muito
estranho uma pessoa se preocupar com o bem-estar dos seus opositores! Ele previu a sua morte por algumas vezes e facilitou sua priso. O mundo dobrou-se aos seus
ps no pela inteligncia dos autores dos quatro evangelhos, pois neles no h inteno de produzir um texto com grande estilo literrio. O mundo o reconheceu porque
seus pensamentos e atitudes eram to eloqentes que falavam por si s, no precisavam de arranjos literrios dos seus bigrafos.

#O que chama a ateno nas biografias de Cristo so seus comportamentos incomuns, seus gestos que extrapolam os conceitos, sua capacidade de considerar a dor de
cada ser humano mesmo diante da sua prpria dor. Estudaremos que suas idias eram to surpreendentes que no tm precedente histrico. At os seus momentos de silncio
tinham grande significado. Creio que diversas passagens, expressas em suas quatro biografias, possuem tantos segredos intelectuais que muitas no foram compreendidas
nem pelos seus prprios autores na poca em que as escreveram. As reaes de Cristo realmente contrapem-se aos nossos conceitos, esteretipos e paradigmas (modelos
de compreenso e padres de reao). Vejamos sua entrada triunfal em Jerusalm. Aps ter percorrido por um longo perodo toda a regio da Galilia, inmeras pessoas
o seguiam. Agora, havia chegado o momento de entrar pela segunda e ltima vez em Jerusalm, o grande centro religioso e poltico de Israel. Naquele momento, Cristo
estava no auge da sua popularidade. As pessoas estavam eufricas e o proclamavam como rei de Israel6. Alguns discpulos, que quela altura ainda no estavam cientes
do seu desejo, at disputavam quem seria maior se ele conquistasse o trono poltico7. Os discpulos e as multides estavam extasiadas. Entretanto, mais uma vez ele
teve uma atitude imprevisvel que chocou a todos. Quando todos esperavam que ele entrasse triunfalmente em Jerusalm, com uma grande comitiva e pompa, tomou uma
atitude clara e eloqente que demonstrava que rejeitava qualquer tipo de poder poltico, pompa e esttica exterior. Ele mandou alguns dos seus discpulos pegar um
pequeno animal, um jumentinho, e teve a coragem de montar naquele desajeitado animal. E foi assim que aquele homem superadmirado entrou em Jerusalm. Nada  mais
satrico e desproporcional do que o balano de um homem transportado por um jumento... O animal  forte, mas  pequeno. Quem o monta no sabe onde colocar os ps,
se os levanta ou os arrasta pelo cho. Que cena impressionante! As pessoas, mais uma vez, ficaram chocadas com o comportamento de Cristo. Mais uma vez ficaram sem
entend-lo. Os seus discpulos, que estavam to eufricos com tanto apoio popular, receberam um "balde de gua fria". Porm, as pessoas, confusas e ao mesmo tempo
admiradas, colocavam suas vestes sobre o cho para ele passar e o exaltavam como o rei de Israel. Elas queriam proclam-lo um grande rei e ele demonstrava que no
queria nenhum poder poltico. Queriam exalt-lo, mas ele expressava que para atingir seus objetivos, o caminho era a humildade, era preciso aprender a se interiorizar.
Cristo propunha uma revoluo que se iniciava no interior do homem, no secreto do seu ser, e no no exterior, na esttica poltica.  impressionante, mas ele no
se mostrava nem um pouco preocupado, como geralmente ficamos, com aparncia, poder, status social, opinio pblica. Imaginem o presidente dos EUA, no dia da sua
posse, solicitando aos seus assessores que arrumem um pequeno animal, como um jumento, para ele entrar na Casa Branca. Certamente esse presidente seria encorajado
a ir imediatamente a um psiquiatra. A criatividade intelectual no consegue criar uma personalidade que possui uma inteligncia requintada e, ao mesmo tempo, to
despojada e humilde. Uma pessoa, no auge da sua popularidade, explode de orgulho e modifica o padro das suas reaes. Algumas, ainda que humildes e humanistas,
ao subir num pequeno degrau da fama olham o mundo de cima para baixo e se colocam, ainda que inconscientemente, acima dos seus pares. Cristo estava no pice do seu
sucesso social, todavia, ao invs de se colocar acima dos outros, ele desceu todos os degraus da simplicidade e do despojamento, e deixou todos perplexos com sua
atitude. Se caminhasse a p seria mais digno e menos chocante. Porm ele preferiu subir num pequeno animal para estilhaar os paradigmas das pessoas que o contemplavam
e abrir as janelas das suas mentes para outras possibilidades.

#Qualquer presidente do mais miservel dos pases entraria com mais pompa e esttica na sede do seu governo. As caractersticas da personalidade de Cristo realmente
ultrapassavam os limites da criatividade intelectual humana. Ele surpreendia at os bigrafos que conviveram com ele. A personalidade de Cristo foge aos parmetros
da imaginao. Sua inteligncia flutuava entre os extremos. Em alguns momentos expressava uma grande eloqncia, coerncia intelectual e segurana e, em outros,
dava um salto qualitativo e expressava o mximo da singeleza, resignao e humildade. Cristo possua uma personalidade to requintada que se expressava como uma
melodia que rimava entre os extremos das notas musicais. Conheo muitas pessoas, entre elas psiquiatras, psiclogos, intelectuais, cientistas, escritores, empresrios.
Entretanto, nunca encontrei ningum cuja personalidade possusse caractersticas to surpreendentes como a dele. Quem  que no auge do seu sucesso conserva suas
razes mais ntimas? Essa perda de razes diante do sucesso nem sempre ocorre pela determinao do "eu", mas por processos intelectuais que fogem ao controle do
eu. Muitas pessoas, depois de alcanar qualquer tipo de sucesso, perdem, ainda que inconsciente e involuntariamente, no apenas as suas razes histricas, mas tambm
sua capacidade de contemplao do belo diante dos pequenos eventos da rotina diria. Por isso, com o decorrer do tempo diversas pessoas que conquistam a notoriedade
se entediam com a fama e acabam procurando uma vida mais reservada. Ser que alguns personagens da literatura mundial aproximaram-se da personalidade de Cristo?
Desde que Gutenberg inventou as tcnicas grficas modernas, tem havido dezenas de milhares de autores que criaram milhes de personagens na literatura. Ser que
algum desses personagens teve uma personalidade com as caractersticas de Cristo? Est a um bom desafio de investigao! Realmente creio que no. As caractersticas
de Cristo fogem ao padro do espetculo da inteligncia e criatividade humanas. No passado, Cristo era para mim fruto da cultura e da religiosidade humana. Porm,
aps anos de investigao, convenci-me de que no estou estudando a inteligncia de uma pessoa fictcia, imaginria, mas de algum real, que andou e respirou nesta
terra.  possvel rejeit-lo, todavia se investigarmos as suas biografias no h como negar a sua existncia e reconhecer a sua perturbadora personalidade. A personalidade
de Cristo  "inconstrutvel" pela imaginao humana.

As diferenas nas biografias de Cristo sustentam a histria de um personagem real
Durante alguns anos eu pensava que as pequenas diferenas existentes nas passagens comuns dos quatro evangelhos diminuam a credibilidade deles. Com o decorrer da
minha anlise, compreendi que essas diferenas tambm eram importantes para atestar a existncia de Cristo. Compreendi que as suas biografias no procuravam ser
cpias umas das outras. Eram resultado da investigao de diferentes autores em diferentes pocas sobre algum que possua uma histria real. Todos os evangelhos
relatam Pedro negando a Cristo. Porm, quando Pedro o negou pela terceira vez, somente Lucas em seu evangelho comenta que Cristo, naquele momento, voltou-se para
Pedro e o olhou fixamente8. As diferenas de relatos nos quatro evangelhos, ao contrrio do que muitos podem pensar, no depem contra a histria de Cristo, mas
financiam a sua credibilidade. Vejamos esta tese.

#Lucas era mdico e, como tal, aprendeu a investigar os fatos detalhadamente. Ele tinha um "olho clnico" acurado, devia detectar fatos que ningum observava ou
dava importncia. Quando, muitos anos aps a morte de Cristo, interrogou Pedro e colheu os detalhes daquela cena, captou um gesto de Cristo que passou despercebido
pelos outros autores dos evangelhos. Captou que Cristo, mesmo sendo espancado e injuriado, ainda assim esqueceu-se da sua prpria dor e se preocupou com Pedro. Pedro
comentou com Lucas que no instante em que ele o negava pela terceira vez, Cristo virou-se para ele e o fitou profundamente. O olhar de Cristo esconde nas entrelinhas
complexos fenmenos intelectuais e uma delicadeza emocional. Mesmo no extremo da sua dor ele se preocupava com a angstia dos outros, sendo capaz de romper o instinto
de preservao da vida e acolher e encorajar as pessoas, ainda que fosse com um olhar... Quem  capaz de se preocupar com a dor dos outros no pice da sua prpria
dor? Se muitas vezes queremos que o mundo gravite em torno de nossas necessidades quando estamos emocionalmente tranqilos, imagine quando estamos sofrendo, ameaados,
desesperados. Pedro talvez s tenha tido uma compreenso plena da dimenso deste olhar aps trinta anos da morte de Cristo, ou seja, depois que Lucas, com seu olho
clnico, investigou a histria do prprio Pedro e captou aquela cena e a descreveu no ano 60 d.C., que foi a data provvel em que ele produziu o seu evangelho. O
evangelho de Lucas  um documento histrico bem pesquisado e detalhista. Ele consultou testemunhas oculares, selecionou as informaes e as organizou de maneira
adequada. Como mdico, tinha interesse incomum por retratar assuntos da medicina9. Deu muita ateno para os acontecimentos referentes ao nascimento de Cristo. Investigou
Isabel e Maria, por isso foi o nico que descreveu seus cnticos, bem como os pensamentos ntimos de Maria. Lucas demonstrou um interesse particular pela histria
das pessoas, por isso retratou Zaqueu, o bom samaritano, o ex-leproso agradecido, o publicano arrependido e nos conta a parbola do filho prdigo. Lucas era um investigador
minucioso, que captou particularidades de Cristo. Percebeu que at seu olhar tinha grande significado intelectual. Como disse, os demais autores dos evangelhos no
captaram esse olhar de Cristo, por isso no o registraram. Essas diferenas em suas biografias atestam que elas eram fruto de um processo de investigao realizado
por diferentes autores que enfocaram diversos aspectos histricos. Os evangelhos so quatro biografias "incompletas" produzidas, em tempos diferentes, por pessoas
que foram cativadas pela histria de Cristo. Essas biografias tm coerncia, sofisticao intelectual, pensamentos ousados, idias complexas. So sintticas, econmicas,
no primam pela ostentao e elogio particular. Cristo, em alguns momentos, revelava claramente seus pensamentos, mas em seguida se ocultava nas entrelinhas das
suas reaes e das suas parbolas, o que o torna difcil de ser compreendido. Ele se revelava e se ocultava continuamente. Por que tinha tal comportamento? Sua histria
nos revela que no era somente porque no procurava o brilho social, mas porque tinha um grande propsito: queria produzir uma revoluo no interior do homem, uma
revoluo transformadora, difcil de ser analisada. Queria produzir uma transformao nas entranhas do esprito e da mente humana, capaz de gerar tolerncia, humildade,
justia, solidariedade, contemplao do belo, cooperao mtua, considerao pela angstia do outro. Seu comportamento de se revelar e se ocultar continuamente tambm
objetivava provocar a inteligncia das pessoas com as quais convivia. Como estudaremos, ele desejava continuamente romper a ditadura do preconceito e o crcere intelectual
dessas pessoas. Ningum foi to longe em querer implodir os alicerces da rigidez intelectual e procurar transformar a humanidade.

#As caractersticas mpares da personalidade daquele que dividiu a histria da humanidade
Anlise da inteligncia de Cristo no obedecer a uma ordem cronolgica da vida de Cristo, mas estudar as caractersticas da sua inteligncia em situaes especficas
e em pocas distintas da sua histria. Este livro no defende uma religio. Sua meta  fazer uma investigao psicolgica da personalidade de Cristo. Porm, os sofisticados
princpios intelectuais da inteligncia dele podero contribuir para abrir as janelas da inteligncia das pessoas de qualquer religio, mesmo das no-crists. Tais
princpios so to complexos que at os ateus mais cticos podero enriquecer sua capacidade de pensar diante deles. Como estudaremos, a psicologia, a educao,
a sociologia, a rea de recursos humanos e outras cincias perderam muito por no ter investigado a inteligncia de Cristo e aplicado suas caractersticas fundamentais.
 difcil encontrar algum capaz de nos surpreender com as caractersticas de sua personalidade, capaz de nos convidar a nos interiorizar e repensar nossa histria.
Algum que diante dos seus focos de tenso, contrariedades e dores emocionais tenha atitudes sofisticadas e seja capaz de produzir pensamentos e emoes que fujam
do padro trivial. Algum to interessante que seja capaz de perturbar nossos conceitos e paradigmas existenciais. Com o decorrer dos anos,  medida que atuei como
psiquiatra, psicoterapeuta e pesquisador da inteligncia e investiguei diversos tipos de personalidade, compreendi que o homem, apesar da complexidade da sua mente,
 freqentemente muito previsvel. Cristo fugia a esta regra. Possua uma inteligncia instigante capaz de provocar a inteligncia de todos que passavam por ele.
Neste tpico farei uma sntese das caractersticas de sua personalidade, as quais sero explicadas e desenvolvidas ao longo deste livro. Cristo tinha plena conscincia
do que fazia. Tinha metas e prioridades bem estabelecidas10. Era seguro e determinado, ao mesmo tempo flexvel, extremamente atencioso e educado. Tinha grande pacincia
para educar, mas no era um mestre passivo, e sim provocador. Ele despertava a sede de conhecimento nos seus ntimos11. Informava pouco, porm educava muito. Era
econmico no falar, dizendo muito com poucas palavras. Era ousadssimo em expressar seus pensamentos, embora vivesse numa poca em que imperava o autoritarismo.
Sua coragem para expressar os pensamentos trazia-lhe freqentes perseguies e sofrimentos. Todavia, quando queria falar, ainda que suas palavras lhe trouxessem
grandes transtornos, ele no se intimidava. Mesclava a singeleza com a eloqncia, a humildade com a coragem intelectual, a amabilidade com a perspiccia. Cristo
nasceu num pas cuja identidade e sobrevivncia estavam profundamente ameaadas pelo autoritarismo e pela vaidade do Imprio Romano. O ambiente sociopoltico era
angustiante. Sobreviver era uma tarefa difcil. A fome e a misria eram o cotidiano das pessoas. O direito personalssimo, ligado  liberdade de expressar o pensamento,
era profundamente restringido pela cpula judaica e amaldioado pelo Imprio Romano. A comunicao e o acesso s informaes eram restritos. Os judeus esperavam
um grande lder, o Cristo ("ungido"), algum capaz de reinar sobre eles, de resgatar-lhes a identidade e de libert-los do jugo do Imprio Romano. Os membros da
cpula judaica viviam sob tenso poltica, sob a ameaa  sobrevivncia e do aviltamento dos seus direitos. Porm, devido  rigidez intelectual deles, no investigaram
e, portanto, no reconheceram o Cristo humilde, tolerante, dcil e inteligente, que no tinha prazer no status social nem queria o poder poltico.

#Esperavam algum que os libertasse do jugo romano, mas veio algum que queria libertar o homem das suas misrias psquicas. Esperavam algum que fizesse uma revoluo
exterior, mas veio algum que props uma revoluo interior. Esperavam um poderoso poltico, mas veio algum que nasceu numa manjedoura, cresceu numa cidade desprezvel,
Nazar, e se tornou um carpinteiro, vivendo no anonimato at os trinta anos. Cristo no freqentou os bancos de uma escola, nem cresceu aos ps dos intelectuais
da poca, dos escribas e fariseus, mas freqentou a escola da existncia, a escola da vida. Nessa escola, conheceu profundamente o pensamento, as limitaes e as
crises da existncia humana. No anonimato, passou pelas angstias, dores fsicas, opresses sociais, dificuldades de sobrevivncia, frio, fome, rejeio social.
Na escola da existncia, a maioria das pessoas no investe em sabedoria. Nessa escola, a velhice no  sinal de maturidade. Nela, os ttulos acadmicos, o status
social e a condio financeira no refletem a riqueza interior nem significam sucesso na liberdade de pensar, na arte da contemplao do belo, no prazer de viver.
Estudaremos que essa  abrangente, pois envolve toda a nossa trajetria de vida, incluindo at mesmo a escola educacional. A escola da existncia  to complexa
que nela se pode ler uma infinidade de livros de auto-ajuda e continuar, ainda assim, a ser inseguro e ter dificuldades de lidar com as contrariedades. Nela, o maior
sucesso no est fora do homem, mas em conquistar terreno dentro de si mesmo; a maior jornada no  exterior, mas caminhar nas trajetrias do prprio ser. Nessa
escola, os melhores alunos no so aqueles que se gabam dos seus sucessos, mas os que reconhecem seus conflitos e limitaes. Todos passam por determinadas angstias
e ansiedades, pois algumas das mazelas da vida so imprevisveis e inevitveis. Na escola da existncia se aprende que a experincia se adquire no s dos acertos
e das conquistas, mas, muitas vezes, das derrotas, das perdas e do caos emocional e social. Foi nessa escola, to sinuosa, que Cristo se tornou o mestre dos mestres.
Ele foi mestre numa escola em que muitos intelectuais, cientistas, psiquiatras e psiclogos so pequenos aprendizes. Muitos psiquiatras e psicoterapeutas possuem
elegncia intelectual enquanto esto dentro dos seus consultrios. So lcidos e coe- rentes enquanto esto envolvidos na relao teraputica com seus pacientes.
Porm, a vida real pulsa fora dos consultrios de psiquiatria e psicoterapia. Assim, quando esto diante dos seus prprios estmulos estressantes, ou seja, das suas
frustraes, perdas e dores emocionais, apresentam dificuldades para manter a lucidez e a coerncia. Do mesmo modo, muitas pessoas que freqentam uma reunio empresarial,
cientfica ou religiosa apresentam um comportamento sereno e lcido enquanto esto reunidas. Todavia, quando esto diante dos territrios turbulentos da vida, no
sabem se reciclar, ser tolerantes, trabalhar suas contrariedades com dignidade. A melhor maneira de conhecer a inteligncia de uma pessoa  observ-la no nos ambientes
isentos de estmulos estressantes, mas nos territrios em que eles esto presentes. Quem  que usa continuamente as angstias existenciais, as ansiedades, os estresses
sociais, os desafios profissionais, para enriquecer a arte de pensar e amadurecer a personalidade? Viver com dignidade e maturidade a vida que pulsa no palco de
nossas existncias  uma arte que todos temos dificuldades de aprender. Cristo, devido  elegncia como manifestava seus pensamentos, provavelmente usava cada angstia,
cada perda, cada contrariedade como uma oportunidade para enriquecer sua compreenso da natureza humana. Era to sofisticado na construo dos pensamentos que fazia
at mesmo das suas misrias uma poesia. Dizia poeticamente que "as raposas tm seus covis, as aves do cu tm seu ninho, mas o filho do homem (ele) no tinha onde
reclinar a cabea"12. Como pode algum falar elegantemente da sua misria? Cristo era um poeta da existncia. Suas biografias revelam que ele reconhecia e reciclava
suas dores continuamente. Assim, em vez de elas o destrurem, ele as usava como alicerce da sua inteligncia.

#O carpinteiro de Nazar viveu no anonimato a maior parte de sua existncia, porm, quando se manifestou, revolucionou o pensamento e viver humanos. Seu projeto
era insidioso. Ele expressava que primeiro o interior, ou seja, o mundo dos pensamentos e das emoes deviam ser transformados, caso contrrio a mudana exterior
no teria estabilidade, no passaria de mera maquiagem social13. Para Cristo, a mudana exterior, dos amplos aspectos sociais, era uma conseqncia da transformao
interior. Apesar de a inteligncia de Cristo ser excepcional, ele reunia todas as condies para confundir o pensamento humano. Nasceu numa pequena cidade. Seu parto
foi entre os animais, sem qualquer espetculo social, esttica e glamour. Com menos de dois anos, mal tinha iniciado sua vida e j estava condenado  morte por Herodes.
Seus pais, apesar da riqueza interior, no tinham qualquer expresso social. A cidade em que cresceu era desprezada. Sua profisso era humilde. Seu corpo foi castigado
pelas dificuldades de sobrevivncia, pois alguns o consideravam envelhecido em relao  sua idade original14. No procurava ser o centro das atenes. Como disse,
quando a fama batia-lhe  porta, ele procurava se interiorizar e fugir dos assdios sociais. No se autopromovia nem se auto-elogiva. No falava sobre sua identidade
claramente, nem mesmo para seus mais ntimos discpulos, mas deixava que eles usassem a capacidade de pensar e a descobrissem por si mesmos15. Falava freqentemente
na terceira pessoa, referindo-se ao seu Pai. S falava em primeira pessoa em ocasies especiais, nas quais sua ousadia era impressionante, deixando todos perplexos
com suas palavras16. Cristo gostava de conviver com as pessoas sem qualquer valor social. Era o exemplo vivo de uma pessoa avessa a todo tipo de discriminao. Ningum,
por mais imoral e defeitos que tivesse, era indigno de se relacionar com ele. Ele se doava sem esperar nada em troca. Diferente dos escribas e fariseus, dava mais
importncia  histria das pessoas do que ao "pecado" como ato moral. Entrava no mundo delas, percorria a trajetria de suas vidas. Gostava de ouvi-las. A arte de
ouvir era uma jia intelectual para ele. Cristo no tinha formao psicoteraputica, mas era um mestre da interpretao, pois conseguia captar os sentimentos ntimos
das pessoas. Conseguia perceber seus conflitos mais clandestinos e atuar neles com inteligncia e eficincia. Era comum se antecipar e dar respostas s perguntas
que ainda no tinham sido formuladas ou que as pessoas no tinham coragem de expressar17. Ele reagia educadamente at quando o ofendiam profundamente. Era amvel
mesmo quando corrigia e repreendia seriamente a algum18. No expunha publicamente os erros das pessoas, mas ajudava-as com discrio, considerando-as acima dos
seus erros, conduzindo-as a se repensarem. Embora fosse eloqente, expunha e no impunha suas idias. No persuadia e nem procurava convencer as pessoas a crer nas
suas palavras. No as pressionava para que o seguissem, apenas as convidava19. A responsabilidade de crer nele era exclusivamente delas. Suas parbolas no produziam
respostas prontas, mas estimulavam a arte da dvida e a produo de pensamentos. Cristo no respondia s perguntas quando pressionado, sendo fiel  sua prpria conscincia.
Embora fosse muito amvel, no bajulava ningum. No empregava meios escusos para conseguir determinados fins. Por isso, era mais fcil as pessoas ficarem perplexas
diante dos seus pensamentos e reaes do que compreend-los. Ele foi, de fato, um grande teste para a cpula de Israel. Cristo foi e continua sendo um grande enigma
para a cincia e para os intelectuais de todas as geraes. Hoje, provavelmente, no poucas pessoas que dizem segui-lo ficariam perturbadas pelos seus pensamentos
se vivessem naquela poca.

#Cristo confundia a mente e, ao mesmo tempo, causava profunda admirao nas pessoas que passavam por ele, at dos seus opositores. Maria, sua me, impressionava-se
com seu comportamento e com suas palavras desde a infncia. Quando ele falava, ela em silncio guardava suas palavras20. Com doze anos de idade, os doutores da lei,
admirados, sentavam ao seu redor para ouvir sua sabedoria21. Seus discpulos ficavam continuamente atnitos com sua inteligncia, enquanto seus opositores emudeciam
diante do seu conhecimento, faziam "planto" para ouvir suas palavras22. At Pilatos parecia um menino perturbado diante dele23. Ele, devido  arrogncia e ao autoritarismo
conferidos pelo poderoso Imprio Romano, no podia suportar o silncio de Cristo em seu interrogatrio. A singeleza e serenidade dele, mesmo diante do risco de morrer,
chocavam a mente de Pilatos. Mesmo sua esposa, que no participava do julgamento de Cristo, mas sabia o que estava acontecendo, ficou inquieta, sonhou com ele e
teve seu sono perturbado24. As pessoas discutiam continuamente quem era aquele misterioso homem que aparentemente tinha uma origem to simples. Devido a sua intrigante
e instigante inteligncia, Cristo provavelmente foi o maior causador de insnia em sua poca.. .

#A promessa da cincia e a frustrao gerada
No sculo XIX e principalmente no XX a cincia teve um desenvolvimento explosivo. Paralelamente a isto, o atesmo floresceu como nunca. A cincia tanto progredia
quanto prometia muito. Alicerado na cincia, o homem se tornou ousado em seu sonho de progresso e modernidade. Milhes deles, inclusive muitos intelectuais, baniram
Deus de suas vidas, de suas histrias. A cincia se tornou o deus do homem. Ela prometia conduzi-lo a dar um salto nos amplos aspectos da prosperidade biolgica,
psicolgica e social. A solidariedade cresceria, a cidadania floresceria, o humanismo embriagaria as relaes sociais, a riqueza material se expandiria e atingiria
todo ser humano, a misria social seria extinguida e a qualidade de vida atingiria um patamar brilhante. As guerras, as discriminaes e as demais violaes dos
direitos humanos seriam lembradas como manchas das geraes passadas. Belo sonho. A cincia fazia uma grande e espetacular promessa, que no era dita por palavras,
mas, ainda assim, era forte e arrebatadora. Era uma promessa sentida a cada momento que se dava um salto espetacular na engenharia civil, na mecnica, na eletrnica,
na medicina, na gentica, na qumica, na fsica etc. A expanso do conhecimento se tornava incontrolvel. Cada cincia se multiplicava em outras novas. Cada viela
do conhecimento se expandia e se tornava um bairro inteiro de informaes. Encontrava-se um microcosmo dentro das clulas. Descobria-se um mundo dentro dos tomos.
Compreendia-se um mundo com bilhes de galxias que pulsavam no espao. Produzia-se um universo de possibilidades nas memrias dos computadores. A cincia desenvolveu-se
intensamente, todavia frustrou o homem. De um lado, fez e continua fazendo muito. Causou uma revoluo tecnolgica no mundo extrapsquico e mesmo no seu prprio
organismo, por intermdio dos exames laboratoriais, das tcnicas de medicina. Revolucionou o mundo extrapsquico, o mundo de fora do homem, mas no o mundo intrapsquico,
o mundo de dentro do homem, o cerne da sua mente. Conduziu o homem a conhecer o imenso espao e o pequeno tomo, mas no o conduziu a explorar seu prprio mundo
interior. Produziu veculos automotores, mas no veculos psquicos capazes de conduzir o homem a caminhar nas trajetrias do seu prprio ser. Fabricou mquinas
para arar a terra e produzir mantimentos para saciar a fome fsica, mas no gerou princpios psicolgicos e sociolgicos para "arar" sua rigidez intelectual, seu
individualismo e nutri-lo com a cidadania, a tolerncia, a preocupao com o outro. Produziu informaes e multiplicou as universidades, mas no resolveu a crise
de formao de pensadores... A cincia no causou a to sonhada revoluo do humanismo, da solidariedade, da preservao dos direitos humanos. No cumpriu as promessas
mais bsicas de expandir a qualidade de vida psicossocial do homem moderno. O homem do final do sculo XX se sentiu trado pela cincia e o do terceiro milnio se
sente hoje frustrado, perdido, confuso, sem ncora intelectual para se segurar.

O conhecimento e as misrias psicossociais
Milhes de pessoas conseguem definir as partculas dos tomos que nunca viram, mas no conseguem compreender que a cor da pele branca ou negra, to perceptvel aos
olhos, no serve de parmetro para distinguir duas pessoas da mesma espcie que possuem o mesmo espetculo da construo de pensamentos. Somos, a cada gerao, uma
espcie mais feliz, humanista, solidria, complacente, tolerante e menos doente psiquicamente? Infelizmente no!

#O conhecimento abriu novas e impensveis perspectivas. As escolas se multiplicaram. As informaes nunca foram to democratizadas, to acessveis. Estamos na era
da educao virtual. Milhes de pessoas cursaro universidades dentro de suas prprias casas. Porm, onde esto os pensadores que deixam de ser espectadores passivos
e se tornam agentes modificadores da sua histria existencial e social? Onde esto os engenheiros de idias criativas, capazes de superar as ditaduras do preconceito
e dos focos de tenso? Onde esto os poetas da inteligncia que desenvolveram a arte de pensar? Onde esto os humanistas, que no objetivam que o mundo gravite em
torno de si, que superam a parania do individualismo, que transcendem a parania da competio predatria e sabem se doar socialmente? O homem nunca usou tanto
a cincia. Entretanto, nunca desconfiou tanto dela. Ele sabe que a cincia no resolveu os problemas bsicos da humanidade. Qual a conseqncia disto?  que a forte
corrente do atesmo que se iniciou no sculo XIX e que perdurou durante boa parte do XX foi rompida. A cincia, como disse, tanto progredia quanto prometia muito.
O homem, sob os alicerces da cincia, ganhou status de deus, pois acreditava ser capaz de extirpar completamente as suas prprias misrias. Assim, durante muitas
dcadas, o atesmo floresceu como num canteiro vivo. Todavia, com a frustrao da cincia, o atesmo ruiu como num jogo de cartas de baralho, implodiu, e o misticismo
floresceu. Fomos de um extremo para outro. Percebendo as misrias psicossociais ao seu redor e observando as notcias de cunho negativo saltitando todos os dias
das manchetes dos jornais, o homem moderno comeou a procurar por Deus. Ele, que no cria em nada, passou a crer em tudo. Ele, que era to ctico, passou agora a
ser to crdulo.  respeitvel todo tipo de crena, porm  igualmente respeitvel exercer o direito de pensar antes de crer, crer com maturidade e conscincia crtica.
O direito de pensar com conscincia crtica  nobilssimo.

A cincia e a complexidade da inteligncia de Cristo
A cincia foi tmida e omissa em pesquisar algumas reas importantssimas do conhecimento. Uma delas se relaciona aos limites entre a psique e o crebro. Temos viajado
pelo imenso espao e penetrado nas entranhas do pequeno tomo, mas a natureza intrnseca da energia psquica, que nos torna seres que pensam e sentem emoes, permanece
um enigma. Outra atitude tmida e omissa que a cincia cometeu ao longo dos sculos est ligada  investigao do personagem principal deste livro, Cristo. A cincia
o considerou complexo demais. Sim, ele o , mas ela foi tmida em pesquisar a inteligncia dele. Ser que aquele que dividiu a histria da humanidade no merecia
ser mais bem investigado? Ela o considerou inatingvel, distante de qualquer anlise. Deixou esta tarefa apenas para ser realizada na esfera teolgica. H pelo menos
duas maneiras de uma pessoa ser deixada de lado: quando  considerada sem nenhum valor ou quando, na outra ponta,  to valorizada que se torna inatingvel. Cristo
foi rejeitado por diversos "intelectuais" de sua poca, pois foi considerado um perturbador da ordem social e religiosa. Hoje, ao contrrio,  to valorizado que
muitos o consideram intocvel, distante de qualquer investigao. Todavia, como j me expressei, ele gostava de ser investigado com inteligncia. A omisso e a timidez
da cincia fizeram com que Cristo fosse banido das discusses acadmicas, no sendo estudado ou investigado nas salas de aulas. Sua complexa inteligncia no  objeto
de pesquisa nas teses de ps-graduao das universidades. Embora a inteligncia de Cristo possua princpios intelectuais sofisticados, capazes de estimular o processo
de interiorizao e o desenvolvimento das funes mais importantes da inteligncia, ele realmente foi banido dos currculos escolares.

# muito raro algum comentar que a inteligncia de Cristo era perturbadora, que ele rompia o crcere intelectual das pessoas, que abria as janelas da mente delas.
Ele foi, sem dvida, um exemplo vivo de mansido e humildade, entretanto ningum comenta que era insupervel na arte de pensar.

Algumas ferramentas usadas para investigar a inteligncia de Cristo
O mestre dos mestres da escola da existncia foi banido da escola clssica. Centenas de milhes de pessoas o admiram profundamente, todavia uma minoria estuda os
detalhes da sua inteligncia. Grande parte delas no tem idia de como ele desejava causar uma transformao psicossocial do interior para o exterior do homem, uma
transformao que a cincia prometeu nas entrelinhas do seu desenvolvimento e no cumpriu. Antes de continuar a estudar a inteligncia de Cristo, gostaria de usar
os prximos textos para expor alguns mecanismos bsicos da construo da inteligncia humana*. Farei uma pequena sntese sobre a construo de pensamentos, os papis
da memria e a ditadura do preconceito. Os fenmenos que aqui estudarei funcionaro como ferramentas para investigar alguns princpios fundamentais da inteligncia
de Cristo, os quais sero aplicados e explicados ao longo deste livro.

A inteligncia de Cristo diante da ansiedade e do gerenciamento dos pensamentos
A inteligncia do carpinteiro de Nazar era to impressionante que ele discursava sobre temas que s seriam abordados pela cincia dezenove sculos depois, com o
surgimento da psiquiatria e da psicologia. Ele se adiantou no tempo e discorreu sobre a mais insidiosa das doenas psquicas, a ansiedade25. A ansiedade estanca
o prazer de viver, fomenta a irritabilidade, estimula a angstia e gera um universo de doenas psicossomticas. A medicina, como cincia milenar, sempre olhou para
a psiquiatria e para a psicologia de cima para baixo, com certa desconfiana, pois as considerava cincias novas, imaturas. Muitos estudantes de medicina, inclusive
na escola em que me formei, no davam grande importncia s aulas de psiquiatria e psicologia. Queriam estudar os rgos do corpo humano e suas doenas, mas desprezavam
o funcionamento da mente. Todavia, nas ltimas dcadas, a medicina tem deixado sua postura orgulhosa e procurado estudar e tratar o ser humano integral -- organismo
e psique (alma) --, pois tem percebido que muitas doenas cardiovasculares, pulmonares, gastrintestinais etc. tm como causa desencadeante os transtornos psquicos,
dos quais se destaca a ansiedade. Cristo discorreu sobre uma doena que somente agora tem ocupado os captulos principais da medicina. Provavelmente, no terceiro
milnio, um excelente mdico ser antes de tudo um profissional com bons conhecimentos de psiquiatria, psicologia e cultura geral. Ser um profissional menos vido
por pedir exames laboratoriais e prescrever medicamentos e mais interessado em dialogar com seus pacientes, algum que ter habilidade para penetrar no mundo deles,
detectar os nveis de ansiedade e ajud-los a superar suas dores existenciais. Ser um profissional que ter uma linha de pensamento semelhante  apregoada h tantos
sculos por Cristo. Ele era o Mestre do dilogo...

#Esse mestre compreendia a mente humana e as dificuldades da existncia com uma lucidez refinada. Preocupava-se com a qualidade de vida dos seus ntimos. Discursava
eloqentemente: "No andeis ansiosos pela vossa vida", o que no significava que deveriam abolir completamente qualquer reao de ansiedade, mas que no vivessem
ansiosos. Por intermdio de seu discurso, Cristo indicava que havia uma ansiedade natural, normal, presente em cada ser humano, que se manifesta espontaneamente
quando estamos preocupados, planejamos, expressamos um desejo, passamos por alguma doena ou contrariedade. Todavia, segundo ele, essa ansiedade eventual, normal,
poderia se tornar doentia, um "andar" ansioso. Neste livro, no me deterei em detalhes sobre o pensamento de Cristo relativo  ansiedade. Quero apenas comentar que
ele discorria que as preocupaes exageradas com a sobrevivncia, os pensamentos antecipatrios, o enfretamento de problemas virtuais, a desvalorizao do ser em
relao ao ter etc. eram o que cultivavam a ansiedade doentia. O mestre da escola da existncia era um grande sbio. As causas que ele apontou no mudaram no mundo
moderno; pelo contrrio, elas se intensificaram. Quanto mais conquistamos bens materiais, mais queremos t-los. Parece que no h limites para a nossa insegurana
e insatisfao. Valorizamos mais "ter" do que "ser", ou seja, mais ter bens do que ser tranqilo, alegre, coerente. Esta inverso de valores cultiva a ansiedade
e seus frutos: insegurana, medo, apreenso, irritabilidade, insatisfao, angstia (tenso emocional associada a um aperto no trax). A insegurana  uma das principais
manifestaes da ansiedade. Fazemos seguros de vida, da casa, do carro, mas, ainda assim, no resolvemos nossa insegurana. Cristo tinha razo: h uma ansiedade
inerente ao homem, ligada  construo de pensamentos, influenciada pela carga gentica, por fatores psquicos e sociais. S no tem essa ansiedade quem est morto.
Somos a espcie que possui o maior de todos os espetculos, o da construo de pensamentos. Todavia, muitas vezes usamos o pensamento contra ns mesmos, para gerar
uma vida ansiosa. Os problemas ainda no ocorreram, mas j estamos angustiados por eles. O registro de Mateus 6 diz: "No andeis ansiosos pelo dia de amanh... Basta
ao dia o seu prprio mal". Cristo queria vacinar seus discpulos contra o stress produzido por pensamentos antecipatrios. No abolia as metas, as prioridades, o
planejamento do trabalho, pois ele mesmo tinha metas e prioridades bem estabelecidas, mas queria que eles no gravitassem em torno de problemas imaginrios. Muitos
de ns vivemos o paradoxo da liberdade utpica. Por fora, somos livres porque vivemos em sociedades democrticas, mas por dentro somos prisioneiros, escravos das
idias de contedo negativo, e dramticas que antecipam o futuro. H diversas pessoas que esto timas de sade, mas vivem miseravelmente pensando em cncer, infarto,
acidentes, perdas. O ensinamento de Cristo relativo  ansiedade era sofisticado, pois, para pratic-lo,  necessrio conhecer uma complexa arte intelectual que todo
ser humano tem dificuldade de aprender: a arte do gerenciamento dos pensamentos. Governamos o mundo exterior, mas temos enorme dificuldade para gerenciar nosso mundo
interno, o dos pensamentos e das emoes. Somos subjugados por necessidades que nunca foram prioritrias, subjugados pelas paranias do mundo moderno: do consumismo,
da esttica, da segurana. Assim, a vida humana, que deveria ser um espetculo de prazer, torna-se um espetculo de terror, de medo, de ansiedade. Nunca tivemos
tantos sintomas psicossomticos: cefalias, dores musculares, fadiga excessiva, sono perturbado, transtornos alimentares (ex.: bulimia e anorexia nervosa) etc. Uma
parte significativa dos adolescentes americanos tem problemas de obesidade, e a ansiedade  uma das principais causas desse transtorno. Para compreendermos a importncia
do gerenciamento dos pensamentos e as dificuldades de execut-lo precisamos responder pelo menos duas grandes perguntas sobre o funcionamento da mente: qual  a
maior fonte de entretenimento humano? Pensar  uma atividade inevitvel ou  um trabalho intelectual voluntrio que depende apenas da determinao consciente do
prprio homem?

#A maior fonte de entretenimento humano no  a TV, o esporte, a literatura, a sexualidade, o trabalho. A resposta est dentro do prprio homem.  o mundo das idias,
dos pensamentos, que o ser humano constri clandestinamente em sua prpria mente, e que gera os sonhos, os planos, as aspiraes. Quem consegue interromper a construo
de pensamentos?  impossvel. A prpria tentativa de interrupo j  um pensamento. Pensamos durante os sonhos, quando estamos trabalhando, andando, dirigindo.
As idias representam um conjunto organizado de cadeias de pensamentos. O fluxo das idias que transitam a cada momento no palco de nossas inteligncias no pode
ser contido. Todos somos viajantes no mundo das idias: viajamos para o passado, reconstruindo experincias j vividas; viajamos para o futuro, imaginando situaes
ainda inexistentes; viajamos tambm para os problemas existenciais. Os juzes viajam nos seus pensamentos enquanto julgam os rus. Os psicoterapeutas viajam enquanto
atendem seus pacientes. Os cientistas viajam enquanto pesquisam. As crianas viajam nas suas fantasias. Os adultos, nas suas preocupaes. Os idosos, nas suas recordaes.
Uns constroem projetos e outros, castelos inatingveis. Uns viajam menos em seus pensamentos, outros viajam muito, concentrando pouco em suas tarefas. Essas pessoas
pensam que tm dficit de memria, mas, na verdade, possuem apenas dficit de concentrao devido  hiperproduo de pensamentos. Pensar no  uma opo voluntria
do homem;  o seu destino inevitvel... No podemos interromper a produo de pensamentos; s podemos gerenci-la.  impossvel interromper o fluxo de pensamentos,
pois alm do eu (vontade consciente) existem outros trs fenmenos (o da autochecagem da memria, a ncora da memria e o complexo autofluxo*), que fazem espontaneamente
uma leitura da memria e produzem inmeros pensamentos dirios, os quais so importantes tanto para a formao da personalidade como para gerar uma grande fonte
de entretenimento, podendo se tornar tambm a maior fonte de ansiedade humana. Cristo tanto prevenia a ansiedade como discursava sobre o prazer de viver. Dizia:
" Olhai os lrios dos campos"26. Ele queria produzir um homem alegre, inteligente, mas simples. Entretanto, tanto seus discpulos como ns no sabemos contemplar
os lrios dos campos, ou seja, no sabemos extrair o prazer dos pequenos eventos da vida. A ansiedade estanca esse prazer. Apesar de o Mestre da escola da vida discursar
sobre a ansiedade e suas causas, sua proposta em relao ao sentido da vida e ao prazer de viver era to surpreendente que, como analisaremos no prximo captulo,
chocam a psiquiatria, psicologia e as neurocincias. Ao longo de quase duas dcadas pesquisando o funcionamento da mente humana, compreendi que no h ser humano
que no tenha problemas no gerenciamento dos seus pensamentos e emoes, principalmente diante dos focos de tenso... O maior desafio da educao no  conduzir
o homem a executar tarefas e dominar o mundo que o cerca, mas conduzi-lo a liderar seus prprios pensamentos, seu mundo intelectual.  possvel ter status e sucesso
social e ser uma pessoa insegura diante das contrariedades, no gerenciar as situaes estressantes.  possvel ter sucesso econmico, mas ser um "rico-pobre", no
ter prazer em viver, em contemplar os pequenos detalhes da vida.  possvel viajar pelo mundo e conhecer vrios continentes, mas no caminhar nas trajetrias do
seu prprio ser e conhecer a si mesmo.  possvel ser um grande executivo e ter o controle de uma multinacional, mas no ter domnio sobre os pensamentos e as reaes
emocionais, ser um espectador passivo diante das mazelas psquicas. Cristo no freqentou escola, no estudou as letras, mas foi o mestre dos mestres na escola da
vida. Ele era to sofisticado em sua inteligncia que fazia psiquiatria e psicologia preventiva quando essas nem ensaiavam existir.

#A inteligncia de Cristo diante dos papis da memria
Como Cristo lidava com os papis da memria? Ele usava a memria humana como um depsito de informaes? Tinha um postura lcida e coerente diante da histria dos
seus discpulos? Cristo usava os papis da memria diferente de muitas escolas clssicas. Ele tinha uma sabedoria impressionante. No dava uma infinidade de informaes
para seus ntimos e nem mesmo regras de condutas, como muitos pensam. Usava a memria como um suporte para fazer deles uma refinada casta de pensadores. Nos captulos
sobre a escola da existncia estudaremos esses aspectos. Aqui, comentarei apenas a linha principal do pensamento de Cristo diante dos papis da memria. As escolas
so fundamentais numa sociedade, ma elas tm enfileirado os alunos durante sculos nas salas de aula acreditando que a memria tenha uma especialidade que na realidade
no tem, ou seja, ser um sistema de arquivo de informaes que conduz o homem a ser um retransmissor delas. O senso comum pensa que tudo o que se armazena na memria
ser lembrado de maneira pura. Todavia, ao contrrio do que muitos educadores e outros profissionais pensam, no existe lembrana pura das alegrias, das angstias,
dos fracassos e dos sucessos que foram registradas na memria existencial (ME). S so recordadas de maneira mais pura as informaes de uso contnuo, como endereos,
nmeros telefnicos e frmulas matemticas que foram registradas repetidas vezes na memria de uso contnuo (MUC) O passado no  lembrado, mas reconstrudo. As
recordaes so sempre reconstruces do passado, nunca plenamente fiis, apresentando s vezes micro ou macrodiferenas. Ao recordarmos o dia em que recebemos o
primeiro diploma na escola, sofremos um acidente, fomos ofendidos, fomos elogiados, a lembrana ser sempre diferente em relao ao passado. A memria no  um sistema
de arquivo lgico, uma enciclopdia de informaes, nem a inteligncia humana funciona como uma retransmissora dessas informaes. A memria funciona como um canteiro
de dados para que o homem se torne um construtor de pensamentos. Cristo tinha conscincia disso, pois usava a memria como trampolim para expandir a arte de pensar.
Estava sempre estimulando os seus discpulos a se interiorizar e a se repensar. Por que a memria humana no funciona como a memria dos computadores? Por que no
recordamos o passado exatamente como ele foi? Aqui esconde-se um grande segredo da inteligncia. No recordamos o passado com exatido no apenas pelas dificuldades
de registro cerebral, mas tambm porque um dos mais importantes papis da memria no  transformar o homem num repetidor de informaes do passado, mas um engenheiro
de idias, um construtor de novos pensamentos. Este segredo da mente humana precisa ser incorporado pelas teorias educacionais. Nunca se resgata a realidade das
experincias do passado, mesmo quando se est em tratamento psicoteraputico. O filme do presente nunca  igual ao do passado. Este fenmeno, alm de estimular o
homem a ser um engenheiro de idias, contribui para desobstruir a inteligncia em situaes dramticas. Por exemplo, uma me que perde um filho poderia paralisar
sua inteligncia, pois recordaria continuamente ao longo da vida a mesma experincia de dor vivida no velrio dele. Porm, como a recordao do presente  sempre
distinta do passado, ainda que minimamente, a me vai pouco a pouco aliviando inconscientemente a dor da perda, apesar da saudade nunca mais ser resolvida. Com isso
ela volta a ter prazer de viver. Sem tais mecanismos intelectuais, expostos sinteticamente, no apenas as experincias de dor e fracasso poderiam paralisar nossas
inteligncias, mas tambm as de alegria e sucesso poderiam nos fazer gravitar em torno delas. Cristo estava continuamente conduzindo seus discpulos a pensar antes
de reagir, a abrir as janelas de suas mentes mesmo diante do medo, dos erros, dos fracassos e das dificuldades. Estimulava os papis da memria e o processo de construo
de pensamentos.

#Reitero, a leitura multifocal da memria e a reconstruo contnua do passado leva o homem a ser um engenheiro criativo de novas idias e no um pedreiro das mesmas
obras. Porm, no ajudamos esse processo, como fazia o mestre de Nazar, pelo contrrio, ns o atrapalhamos, pois, ao invs de exigirmos de ns a flexibilidade e
a criatividade, exigimos ter tima memria, ser um repetidor de informaes, o que encarcera a inteligncia. Este erro educacional se arrasta por sculos e vai se
intensificar cada vez mais,  medida que o homem queira ter uma memria e uma capacidade de resposta que se assemelha  dos computadores. Os computadores so escravos
de programas lgicos. Eles no pensam, no tm conscincia de si mesmos e, principalmente, no duvidam nem se emocionam. Muitos alunos no se adaptam ao ensino tradicional
e so considerados incompetentes ou deficientes porque o modelo educacional nem sempre estimula adequadamente os papis da memria. At as prprias provas escolares
podem representar, s vezes, uma tentativa de reproduo inadequada de informaes. Precisamos compreender que a especialidade da inteligncia humana  expandir
a arte de pensar, criar, libertar o pensamento e no decorar e repetir informaes. Estudaremos que o mestre da escola da existncia, por conhecer bem os papis
da memria, ensinava muito dizendo pouco. Desejava que o homem no fosse um repetidor de regras de comportamento, algum que s sabe julgar os outros, mas no sabe
se interiorizar e enfrentar seus prprios erros, como os fariseus relatado no registro dos captulos de Mateus 6 e 23. Dizia: "tira a trave do teu olho, ento vers
claramente para tirar o cisco do olho do teu irmo". Somos timos para julgar e criticar os outros. Todavia, ele no admitia que seus discpulos vivessem uma maquiagem
social. Primeiro tinham que apontar o dedo para si mesmos, para depois julgar e ajudar os outros. Estudando as entrelinhas de suas idias, verificamos que ele sabia
que os pensamentos no registram-se na mesma intensidade, que havia determinadas experincias que obtinham um registro privilegiado no inconsciente da memria. Por
isso, toda vez que queria ensinar algo complexo ou estimular uma funo importante da inteligncia, tal como aprender a se doar, a pensar antes de reagir, a reciclar
a competio predatria, usava gestos surpreendentes que chocavam a mente das pessoas e marcava para sempre a memria delas. O mestre dos mestres entendia as limitaes
humanas, sabia que era difcil o homem administrar suas emoes, principalmente nos focos de tenso. Sabia que facilmente perdemos a pacincia quando estressados,
que nos irritamos por pequenas coisas e ferimos as pessoas que mais amamos. Para ele, o mal  o que sai de dentro do ser humano e no o que est fora dele. Cumpre
ao homem atuar primeiro no seu mundo intelectual para depois aprender a ser um bom lder no mundo social. Ele no admitia que as tenses, a ira, a intolerncia o
julgamento preconcebido envolvessem seus discpulos. Estimulava seus ntimos a serem fortes numa esfera em que costumamos ser fracos: fortes em administrar a impacincia,
rpidos em reconhecer as limitaes, seguros em reconhecer os fracassos, maduros em tratar com as dificuldades de relacionamento social27. A preocupao desse mestre
tem fundamento. Existe um fenmeno inconsciente que registra automaticamente todas as experincias na memria, que chamo de fenmeno RAM.(Registro Automtico da
Memria). Nos computadores  necessrio dar um comando para registrar, "salvar" as informaes. Porm, na memria humana, a mente no nos d essa liberdade. Cada
pensamento e emoo so registrados automtica e espontaneamente, por isso as experincias do passado irrigam o nosso presente.

#O fenmeno RAM registra todas as nossas experincias de vida, tantos nossos sucessos como nossos fracassos, tanto nossas reaes inteligentes como as imaturas.
Entretanto, h diferenas no processo de registro que influenciar o processo de leitura da memria. Registramos de maneira mais privilegiada as experincias que
tiverem mais contedo emocional, seja ele prazeroso ou angustiante, por isso temos mais facilidade de recordar as experincias mais marcantes de nossas vidas, tanto
as que nos causaram alegrias como aquelas que nos frustraram. Estimular adequadamente o fenomno RAM  fundamental para o desenvolvimento da personalidade, inclusive
para o sucesso do tratamento de pacientes depressivos, fbicos, autistas. Cristo no queria que as turbulncias emocionais fossem continuamente registradas na memria,
engessando a personalidade. Queria que seus discpulos fossem livres28. Livres no territrio que todo ser humano facilmente  prisioneiro, seja um psiquiatra ou
paciente, livres no territrio da emoo. O mestre da escola da existncia, quase vinte sculo antes de Goleman* j discursava sobre a energia emocional como uma
das importantes variveis que influenciam o desenvolvimento da inteligncia. Como estudaremos, a maneira como ele lidava com as intempries emocionais, superava
as dores da existncia, desenvolvia a criatividade e abria as janelas da mente nas situaes estressantes  capaz de deixar os adeptos da tese da inteligncia emocional
pasmados com tanta maturidade. Se no formos rpidos e inteligentes para tratar com nossas ansiedades, intolerncias, impacincias, fobias, ento ns as retroalimentaremos
em nossas memrias. Assim, nos tornaremos o nosso maior inimigo; refns de nossas emoes. Por isso muitos vivem o paradoxo da cultura e da misria emocional. Eles
tm diversos ttulos acadmicos, so cultos, mas, ao mesmo tempo, so infelizes, ansiosos e hipersensveis, no sabem trabalhar suas contrariedades, frustraes
e as crticas que recebem. Tais pessoas deveriam se reciclar e investir em qualidade de vida. No est sob o controle consciente do homem o registro das informaes
na memria, como tambm no est o ato de apag-las ou delet-las. Mas  possvel reescrev-las. J pensou se fosse possvel deletar, apagar os arquivos registrados
na memria? Quando estivssemos decepcionados, frustrados com determinadas pessoas, teramos a oportunidade de mat-las dentro de ns. Isto produziria um suicdio
impensvel da inteligncia, um suicdio da histria. Muitos j tentamos, sem sucesso, matar algum em nossa memria. Cristo indicou ao longo do relacionamento que
teve com seus discpulos, que tinha conscincia de que a memria no pode ser deletada. Veremos que no queria destruir a personalidade das pessoas que conviviam
com ele. Pelo contrrio, desejava transform-las essencialmente, amadurec-las e enriqueclas. No desejava anular a histria delas, mas desejava que reescrevessem
suas histrias com liberdade e conscincia, que no tivessem medo de repensar seus dogmas e de revisar seus conflitos diante da vida. Como pode algum que nasceu
h tantos sculos, sem qualquer privilgio cultural e social, demonstrar um conhecimento to profundo sobre a inteligncia humana? O mestre de Nazar era um maestro
da vida. Ele usava seus momentos de silncio, suas parbolas, suas reaes para estimular seus incultos discpulos a se tornarem um grupo de pensadores, capazes
de tocar juntos a mais bela sinfonia de vida... Sem dvida, era um mestre intrigante e instigante... Estudar a inteligncia dele  muito mais complexo do que estudar
a de Freud, de Jung, de Plato ou a de qualquer outro pensador.

A inteligncia de Cristo diante da ditadura do preconceito
Agora estudaremos o pensamento de Cristo sobre as relaes sociais. Analisaremos como ele se comportava diante das pessoas socialmente desprezadas e moralmente reprovadas.
O mestre da escola da vida tem algumas lies para nos dar tambm nesta rea.

#O maior lder no  aquele que  capaz de governar o mundo, mas aquele que  capaz de governar a si mesmo. Alguns realizam com grande habilidade suas tarefas profissionais,
mas no tm habilidade para construir relacionamentos profundos, abertos, flexveis e desprovidos de suas angstias e ansiedades. Um dos maiores problemas que engessa
a inteligncia e dificulta ao homem a se relacionar socialmente  a ditadura do preconceito. O preconceito est intimamente ligado  construo de pensamentos. Toda
vez que estamos diante de algum estmulo fazemos automaticamente a leitura da memria e construmos pensamentos que contm preconceitos sobre esse estmulo. Por
exemplo, quando estamos diante do comportamento de algum, usamos a memria e produzimos um preconceito sobre esse comportamento. Assim, freqentemente temos um
conceito prvio dos estmulos que observamos, por isso os consideramos corretos, imorais, inadequados, belos, feios etc. Aqui reside um grande problema: a utilizao
da memria gera um preconceito inevitvel e necessrio, mas se no reciclarmos esse preconceito viveremos sob a sua ditadura (controle absoluto) e, assim, engessamos
a inteligncia e nos fechamos para outras possibilidades de pensar. Quando vivemos sob a ditadura do preconceito aprisionamos o pensamento, criamos verdades que
no so verdades e nos tornamos radicais. H trs grandes tipos de preconceito que geram ditadura da inteligncia: o histrico, o tendencioso e o radical. No 
o objetivo deste livro entrar em detalhes sobre estes tipos de preconceitos.  medida que adquirimos cultura, comeamos a enxergar o mundo de acordo com os preconceitos
histricos, ou seja, com os conceitos, paradigmas e parmetros contidos nessa cultura. Se um psicanalista v o mundo apenas com os olhos da psicanlise, ele se fecha
para outras possibilidades de pensar. Do mesmo modo, se um cientista, um professor, um executivo, um pai, um jornalista, v o mundo apenas atravs dos preconceitos
contidos em suas memrias, pode estar sob a ditadura do preconceito, ainda que sem ter conscincia dela. As pessoas que vivem sob a ditadura do preconceito no apenas
podem violar os direitos dos outros e amarrar seus desempenhos intelectuais, mas podem tambm ferir as suas prprias emoes e experimentar uma fonte de angstia.
Elas se tornam implacveis e radicais contra os seus prprios erros. Esto sempre se punindo e exigindo de si mesmas um perfeccionismo inatingvel. Os preconceitos
esto contidos na memria, mas, se no aprendermos a nos interiorizar e aplicar a arte da dvida e da crtica sobre eles, poderemos ser autoritrios, agressivos,
violar tanto os direitos dos outros como os nossos. Por que nossa maneira de pensar , s vezes, radical e inquestionvel? Porque nos comportamos como um semideus.
Pensamos como um ser absoluto, que no duvida do que pensa, que no se recicla. Quem conhece minimamente a grandeza e a sofisticao do funcionamento da mente humana
vacina-se contra a ditadura do preconceito. Convm lembrar que o preconcento individual pode se disseminar e se tornar um preconceito social, um paradigma coletivo.
Como Cristo lidava com a ditadura do preconceito? Ele era uma pessoa tolerante e despreconceituosa? Conseguia compreender e valorizar o ser humano independentemente
da sua moralidade, dos seus erros, da sua histria? As biografias de Cristo evidenciam que ele era uma pessoa aberta e inclusiva. No classificava as pessoas. Ningum
era indigno de se relacionar com ele, por pior que fosse seu passado. Os fariseus e escribas na poca de Cristo eram especialistas na ditadura do preconceito. Para
eles, suas verdades eram eternas, o mundo era apenas do tamanho de sua cultura. Eram rgidos na maneira de pensar, viviam num crcere intelectual. No usavam a arte
da dvida contra os seus preconceitos para se esvaziar intelectualmente e se abrir para outras possibilidades de pensar. Por isso, no podiam aceitar algum como
Cristo, que rompia todos os dogmas da poca e introduzia uma nova maneira de ver a vida e compreender o mundo. Vejamos um exemplo de como Cristo lidava com a ditadura
do preconceito.

#Havia uma mulher samaritana, cuja moral era considerada da pior qualidade. Ela teve uma histria incomum, totalmente fora dos padres ticos da sua sociedade. Teve
tantos "maridos" (cinco) que talvez tenha batido o recorde na sua poca. Era uma pessoa infeliz e insatisfeita. Sua necessidade contnua de mudar de parceiro sexual
era uma evidncia clara da sua dificuldade de sentir prazer, pois ningum a completava, as relaes interpessoais que construa eram frgeis e sem razes. Era angustiada
interiormente e rejeitada exteriormente. Os prprios samaritanos provavelmente desviavam o olhar dela. Entretanto, um dia, algo inesperado aconteceu. Quando ela
estava tirando gua de um poo, apareceu uma pessoa no calor do dia e mudou a histria de sua vida. Cristo surgiu naquele momento e, para seu espanto, ele travou
um dilogo com ela em que a considerou de maneira especial, como um ser humano digno do maior respeito. Samaria era uma regio em que havia uma mistura de judeus
com outros povos (os gentios). Os "judeus puros" rejeitavam os "samaritanos impuros"29. Os samaritanos no consideravam Jerusalm como centro de adorao a Deus.
A mistura racial dos samaritanos e a ruptura que faziam com os dogmas religiosos eram insuportveis para os judeus. A discriminao contra os samaritanos era to
drstica que quando os judeus queriam ofender a origem de uma pessoa, ela era chamada de samaritana. Quando Cristo apareceu quela mulher, ela tinha plena conscincia
da discriminao dos judeus e esperava que ele, sendo um "judeu puro", certamente a rejeitasse, no lhe dirigisse nenhuma palavra. Porm, ele comeou a dialogar
longamente com ela. Ela ficou impressionada com sua atitude e no se conformava como ele rompia com uma discriminao to cristalizada. Cristo teve um dilogo profundo,
elegante e acolhedor com a samaritana. Ele no apenas rompeu a ditadura do preconceito racial, mas tambm a do preconceito moral. Para ele, ela era acima de tudo
um ser humano, independente da sua raa e sua moral. Dificilmente algum foi to acolhedor como ele com pessoas consideradas to indignas. Neste livro no terei
tempo para discorrer sobre a profundidade do dilogo que Cristo manteve com a samaritana. Gostaria de destacar mais a dimenso do seu gesto. Ele no apenas acolheu
e dialogou com aquela mulher, mas teve a coragem de fazer o que nenhum fariseu ou mesmo um habitante de sua cidade era capaz, ou seja, elogi-la. Quando ele perguntou
por seu marido, ela respondeu que no tinha marido. Cristo elogiou a sua franqueza, a sua honestidade30. Ele comentou que ela teve cinco maridos e que o homem que
convivia com ela no era seu marido. Que homem  este que no caos da moralidade  capaz de exaltar as pessoas? Alm de elogi-la, Cristo comentou que ela vivia insatisfeita,
que precisava experimentar um prazer mais profundo que pudesse saci-la. Ele a perturbou dizendo que a gua que ela estava tirando daquele poo saciava-a por pouco
tempo, mas que ele possua uma "fonte de gua" que poderia satisfaz-la para sempre. Realmente seu dilogo foi perturbador e incomum. A mulher samaritana ficou extasiada
com a gentileza e a proposta inusitada de Cristo. Isso era demais para uma pessoa to discriminada socialmente. Talvez nunca algum lhe tenha dado tanta ateno
e se preocupado se ela era uma pessoa feliz ou no. Todos a julgavam pelo seu comportamento, mas ningum provavelmente havia investigado o que se passava no seu
ntimo. Por isso, de repente, ela largou o seu cantil de gua, esqueceu-se de sua sede fsica, saiu da presena de Cristo e correu para a sua aldeia animada e alegre.
Parecia que a solido, a angstia e o isolamento que a encarceravam e geravam uma intensa sede psquica foram rompidos. Ela contou a todos da sua pequena cidade
o dilogo incomum que teve com Cristo. A samaritana estava to alegre que nem se importou em assumir publicamente a sua histria. Aqui h um princpio interessante
e sofisticado. Todas as pessoas que ficavam ntimas de Cristo perdiam espontaneamente o medo de assumir a sua histria, se interiorizavam e se tornavam fortes em
reconhecer suas fragilidades, o que fazia com que ficassem saudveis emocionalmente.

#A samaritana dizia a todos que havia encontrado algum que falara sobre sua histria de vida31. E dizia que ele era o Cristo que devia vir ao mundo, o Cristo esperado
por Israel. Nessa passagem Cristo no fez nenhum milagre. Porm, teve gestos profundos e sublimes. Ele rompeu a ditadura do preconceito, destruiu toda forma de discriminao
e considerou o ser humano especial, independente da sua histria, da sua moral, dos seus erros, da sua raa.

As cincias poderiam ter sido enriquecidas com os princpios da inteligncia de Cristo
Se os princpios sociolgicos, psicolgicos e educacionais contidos na inteligncia de Cristo tivessem sido investigados e conhecidos, poderiam ter sido usados em
toda a esfera educacional, do ensino fundamental  universidade. Esses princpios, independentemente da questo teolgica, poderiam ter enriquecido a sociedade moderna,
que tem sido irrigada por discriminaes e mltiplas formas de violncia. Esses princpios podem ser muito teis para a preservao dos direitos fundamentais do
homem, para desbloquear a rigidez intelectual e para estabelecer a liberdade de pensar. Eles estimulam a inteligncia e at mesmo a arte de se repensar. A inteligncia
de Cristo abre preciosas janelas que promovem o desenvolvimento da cidadania e da cooperao social. Ela tambm  capaz de expandir a qualidade de vida, superar
a solido e enriquecer as relaes sociais. Na sociedade moderna o ser humano vive ilhado dentro de si mesmo, envolvido num mar de solido. A solido  drstica,
insidiosa e silenciosa. Falamos eloqentemente do mundo em que estamos, mas no sabemos falar do mundo que somos, de ns mesmos, dos nossos sonhos, dos nossos projetos
mais ntimos. No sabemos discorrer sobre nossas fragilidades, nossas inseguranas, nossas experincias mais ntimas. O homem moderno  prolixo para comentar o mundo
em que est, mas emudece diante do mundo que . Por isso, vive o paradoxo da solido. Trabalha e convive em multides, mas, ao mesmo tempo, est isolado dentro de
si mesmo. Muitos s conseguem falar de si mesmos diante de um psiquiatra ou de um psicoterapeuta, os quais tm tratado no apenas de doenas psquicas, como depresses
e sndromes do pnico, mas tambm de uma importante doena psicossocial: a solido. Porm, no h tcnica psicoteraputica que resolva a solido. No h antidepressivos
e tranqilizantes que aliviem a sua dor. Um psiquiatra e um psicoterapeuta podem ouvir intimamente um cliente, mas a vida no transcorre dentro dos consultrios
teraputicos. O palco da existncia transcorre l fora. No terreno rido das relaes sociais  que a solido deve ser tratada. L fora  que o homem deve construir
canais seguros para falar de si mesmo, sem preconceitos, sem medo, sem necessidade de ostentar o que se tem. Falar demonstrando apenas aquilo que se ... O que mais
somos? Somos uma conta bancria, um ttulo acadmico, um status social? No. Somos o que sempre fomos, seres humanos. As razes da solido comeam a ser tratadas
quando aprendemos a ser apenas seres humanos. Parece ser contraditrio, mas temos grandes dificuldades de retornar s nossas origens. O dilogo em todos os nveis
das relaes humanas est morrendo. A relao mdico-paciente, professor-aluno, executivo-funcionrio, jornalista-leitor, pai-filho carecem freqentemente de profundidade.
Falar de si mesmo? Aprender a se interiorizar e buscar ajuda mtua? Remover nossas maquiagens sociais? Isto parece difcil de ser alcanado. Parece que  melhor
ficar ligado na TV, plugado nos computadores e viajar pela Internet!

#Auxiliei, como psiquiatra e psicoterapeuta, diversas pessoas das mais diferentes condies socioeconmicas e nacionalidades. Percebi que, embora gostemos de nos
classificar e nos medir pelo que temos, o homem tem uma sede intrnseca de encontrar suas razes como ser humano. Os prazeres mais ricos da existncia, como a tranqilidade,
as amizades, o dilogo que troca experincias existenciais, a contemplao do belo, so conquistados pelo que somos, e no pelo que temos. Cristo criou ricos canais
de comunicao com seus ntimos. Tratou das razes mais profundas da solido. Construiu um relacionamento aberto, ricamente afetivo, despreconceituoso. Valorizou
elementos que o poder econmico no pode comprar, que esto no cerne das aspiraes do esprito humano, no mago dos pensamentos e das emoes. Cristo reorganizou
o processo de construo das relaes humanas entre seus discpulos. As relaes interpessoais deixaram de ser um teatro superficial para ser fundamentadas num clima
de amor potico, regado  solidariedade,  busca de ajuda mtua, a um dilogo agradvel. Os jovens pescadores que o seguiram, to limitados culturalmente e que possuam
um mundo intelectual to pequeno, desenvolveram a arte de pensar, conheceram os caminhos da tolerncia, aprenderam a ser fiis s suas conscincias, vacinaram-se
contra a competio predatria, superaram a ditadura do preconceito, aprenderam a trabalhar suas dores e suas frustraes, enfim, desenvolveram as funes mais importantes
da inteligncia. A sociologia, a psicologia e a educao poderiam ter sido mais ricas se tivessem estudado e incorporado os princpios sociolgicos e psicossociais
da inteligncia de Cristo.

#Cristo abalou o pensamento de sua sociedade e rompeu os parmetros sociais reinantes em sua
poca. Era quase impossvel ter uma reao de indiferena diante dele. As pessoas que passavam por ele o amavam muito ou o rejeitavam drasticamente. Diante das suas
palavras, elas se perturbavam intensamente ou abriam as janelas de suas mentes e comeavam enxergar a vida de maneira totalmente diferente de como a viam... Se Cristo
tivesse vivido nos dias de hoje, causaria turbulncia social, chocaria a poltica e a cincia? Suas idias continuam intrigantes na atualidade? Ser que seus pensamentos
abalaram a sociedade em que viveu devido  falta de cultura de sua poca ou ainda hoje perturbariam os intelectuais e o pensamento acadmico? Que dimenso tm os
seus pensamentos? Que alcance tm o seu propsito, o seu projeto transcendental? Responder a essas perguntas  muito importante. Este  o objetivo deste e dos dois
captulos seguintes. Temos de investigar se o pensamento de Cristo no foi superdimensionado ao longo das eras. Ele discursou com eloquncia sobre a ansiedade, mas
que impacto tem seu discurso sobre o prazer pleno na psiquiatria? Para respondermos a essas perguntas precisamos simular algumas situaes. Precisamos transportar
Cristo para os dias de hoje e o imaginarmos reagindo e proferindo suas palavras em diversos eventos da sociedade moderna. E temos de imaginar que essa sociedade
no tenha qualquer cultura crist. Vejamos algumas situaes possveis.

A intrepidez de Cristo. O discurso do prazer pleno
Vamos imaginar Cristo dentro de um Congresso Internacional de Psiquiatria, que tem como temas principais a incidncia, causas e tratamento das doenas depressivas.
Milhares de psiquiatras esto reunidos naquele ambiente. Diversos conferencistas falando sobre os sintomas bsicos dos episdios depressivos, sobre a atuao dos
antidepressivos e sobre o metabolismo dos neurotransmissores (ex. serotonina) na gnese das depresses*. No h grandes novidades, mas todos esto ali reunidos tentando
garimpar algumas idias novas. Ali esto tambm alguns psicoterapeutas abordando as tcnicas mais eficientes no tratamento dessas doenas. Quem mais est naquele
congresso? Sem dvida, os representantes da indstria farmacutica. No devemos nos esquecer de que bilhes de dlares so gastos anualmente no tratamento farmacoterpico
(medicamentoso) das depresses. Portanto, os grandes laboratrios esto ali bem representados, fornecendo ricos materiais didticos para evidenciar que o seu antidepressivo
 o mais eficiente e o que tem menos efeito colateral. Uma verdadeira guerra cientfica e comercial  travada nesse evento. Agora vamos recordar alguns pensamentos
de Cristo que foram expostos por ocasio do grande dia da festa do tabernculo, uma festa anual da tradio judaica. Cristo proferiu pensamentos que abalaram a inteligncia
de todas as pessoas presentes naquela ocasio. Na poca, os escribas e fariseus j tencionavam mat-lo. Ele j havia corrido riscos srios de ser apedrejado. Reunies
eram feitas para saber como prend-lo e tirar-lhe a vida. A melhor atitude que Cristo poderia ter era se ocultar, no estar presente naquela festa ou, ento, se
estivesse, se comportar silenciosamente, com o mximo de discrio. Todavia, a coragem de Cristo era impressionante, parecendo que o medo era uma palavra excluda
do dicionrio de sua vida. Quando todos pensavam que diante daquela delicada situao ele se comportaria silenciosamente, no grande e ltimo dia dessa festa levantou-se
e, com intrepidez, bradou em voz altissonante para toda a multido: "Se algum tem sede venha a mim e beba, porque quem crer em mim do seu interior fluiro rios
de guas vivas"32. Suas palavras ecoaram profundamente no mago das pessoas que as ouviram, tanto dos que o amavam quanto dos que o odiavam. Todos ficaram atnitos,
pois mais uma vez ele proferia palavras incomuns e at inimaginveis.

#Cristo, naquele momento, no falou de regras de comportamentos, de crtica  imoralidade, de conhecimento religioso. Ele discursou sobre a necessidade de o homem
ter prazer no seu mais pleno sentido. Teve a coragem de dizer que podia gerar no cerne do ser humano um prazer que flui continuamente, uma satisfao plena, um xtase
emocional, que poderia resolver sua angstia existencial. Creio que suas palavras no tm precedente histrico, ou seja, ningum jamais expressou pensamentos com
esse contedo. Possivelmente ele queria dizer que todos estavam alegres no ltimo dia de festa, porm no dia seguinte terminaria aquele ciclo de festas e, a partir
da, o prazer diminuiria e as tenses do dia-a-dia retornariam. Cristo tocava pouco na questo moral e muito nas razes da psique humana, pois para ele a estava
o problema das misrias do homem. Dava a entender que sabia que a psique humana era um campo de energia que possui um fluxo contnuo e inevitvel de pensamentos
e emoes e que este fluxo era a maior fonte de entretenimento humano. Porm, queria transformar essa fonte, enriquec-la, torn-la estvel e contnua. Em seu sofisticado
dilogo com a samaritana, ele abordou o enriquecimento desse fluxo vital em contraste com a insatisfao existencial produzida pelo insucesso humano de conquistar
uma fonte contnua de prazer.

O homem saudvel
Agora, retornemos ao nosso Congresso de Psiquiatria e imaginemos Cristo proferindo as mesmas palavras. Ele se encontra no ltimo dia do congresso, na mais interessante
conferncia sobre depresso, proferida pelo mais proeminente catedrtico. O auditrio est cheio. A platia est atenta. O conferencista termina sua palestra e inicia
o debate sobre o assunto proferido. De repente um homem, sem qualquer aparncia, sem terno e gravata, pega o microfone e com uma intrigante ousadia brada com voz
estridente que possui os segredos de como fazer o homem plenamente alegre, satisfeito e feliz. Como os psiquiatras, psicoterapeutas e os cientistas das neurocincias
reagiriam diante das suas palavras? Antes de comearmos a avaliar o impacto dessas palavras, precisamos fazer algumas consideraes sobre os atuais estgios da psiquiatria
e da psicologia. O congresso em questo tem como tema vrios tipos de depresso. Em diversos casos, a depresso pode ser considerada como o ltimo estgio da dor
humana. Nesses casos,  mais intensa do que a dor da fome, pois uma pessoa faminta ainda tem instinto de vida preservado, por isso remi at lixo para sobreviver,
enquanto algumas pessoas deprimidas podem, mesmo diante de uma mesa farta, no ter apetite e nem mais desejo de viver. A dor emocional da depresso , s vezes,
to intensa e dramtica que as palavras se tornam pobres para descrev-la. Freqentemente s compreende a dimenso da dor da depresso quem j passou por ela. Alm
do humor deprimido, as doenas depressivas tm uma rica sintomatologia. So acompanhadas de ansiedade, desmotivao, baixa auto-estima, isolamento social, insnia,
apetite alterado (diminudo ou aumentado), fadiga excessiva, libido alterada, idias de suicdio etc. Precisamos considerar que no atual estgio de desenvolvimento
da psiquiatria e da psicologia tratamos da doena depressiva, mas temos poucos recursos para prevenir a depresso. Tratamos do homem doente, deprimido, mas sabemos
pouco sobre como promover o homem sadio, prevenir o primeiro episdio depressivo. A psiquiatria e a psicologia clnica sabem tratar com relativa eficincia os transtornos
depressivos, obsessivos, a sndrome do pnico, mas no sabem como promover a alegria, o sentido existencial, o prazer de viver. No sabem como promover a sade do
homem total, como tornlo um investidor em sabedoria, como desenvolver as funes mais importantes da inteligncia.

#Prevenir os episdios depressivos e reciclar as influncias genticas para o humor deprimido, por intermdio do desenvolvimento da arte de pensar, do gerenciamento
dos pensamentos negativos, da capacidade de trabalhar os estmulos estressantes ainda  um sonho para o atual estgio da psiquiatria. De modo semelhante, expandir
a capacidade de sentir prazer diante dos pequenos estmulos da rotina diria, aprender a se interiorizar, viver uma vida plenamente tranqila na turbulenta escola
da existncia tambm parece um sonho para o atual estgio da psicologia.

O discurso de Cristo abalaria a psiquiatria e a psicologia
Agora imagine Cristo, no atual estgio da psiquiatria e da psicologia, participando daquele congresso cientfico. De repente, ele se levanta e discursa que se algum
cresse nele, se vivesse o tipo de vida que ele propunha, do seu interior jorraria um prazer inesgotvel, fluiria um "rio" de satisfao plena, capaz de irrigar toda
a sua trajetria de vida. Certamente todos os presentes naquele congresso ficariam chocados com seus pensamentos. Todos ficariam se perguntando como este homem teve
a coragem de afirmar que possui o segredo de como fazer fluir do mago da mente humana um sentido existencial pleno. Que pensamentos so estes? Como  possvel alcanar
tal experincia de prazer? Suas palavras causariam um grande escndalo e, ao mesmo tempo, provocariam profunda admirao em alguns! Ele no seria condenado  morte
como na sua poca, pois as sociedades modernas se democratizaram, mas, se insistisse nesta idia, seria expulso daquele evento ou, ento, seria taxado como um paciente
psiquitrico. Todavia, como algum pode ser taxado por dizer palavras to ousadas, impensveis, e ser, ao mesmo tempo, intelectualmente lcido, emocionalmente tranqilo,
capaz de perceber os sentimentos humanos mais profundos e de superar as ditaduras da inteligncia? Cristo, de fato,  um mistrio. Em algumas ocasies, Cristo proferia
pensamentos totalmente incomuns, que eram cercados de enigmas, fugindo completamente  imaginao humana. Embora ele tocasse na necessidade ntima de satisfao
do homem, suas palavras eram surpreendentes, inesperadas. Se o investigarmos criteriosamente constataremos que, ao contrrio do que muitos pensam, seu desejo no
era produzir regras morais, idias religiosas, corrente filosfica, mas transformar a natureza humana, introduzi-la numa esfera de prazer e sentido existencial.
Provavelmente nunca ningum discursou com tanta eloqncia sobre essas necessidades fundamentais do homem como ele. Cristo era audacioso. Sabia que suas palavras
perturbariam a inteligncia da sua poca e, sem dvida, das demais geraes, mas ainda assim no se intimidava, pois era fiel ao seu pensamento. Falava com segurana
e determinao aquilo que estava dentro de si mesmo, ainda que muitos ficassem confusos diante das suas palavras ou corresse risco de vida. Se elas fossem ditas
na atualidade, alguns psiquiatras ficariam to perturbados ao ouvi-las que talvez dissessem entre si: "Quem  este homem que proclama tais idias? Estamos na era
dos antidepressivos que atuam no metabolismo da serotonina e de outros neurotransmissores. S conseguimos atuar na misria do homem psiquicamente doente, no sabemos
fazer do homem um ser mais contemplativo, solidrio, feliz. Como pode algum ter a pretenso de propor uma vida emocional e intelectual intensamente rica, qualitativa?".
Outros talvez comentassem: "No sabemos nem como estancar as nossas prprias angstias, as nossas prprias crises existenciais, como pode algum propor um prazer
pleno, incessante, que jorra do interior do homem?".

#Cristo, de fato, disse palavras inatingveis para o atual estgio da cincia. Suas metas em relao ao prazer e ao sentido existencial so to elevadas que representam
um sonho ainda no sonhado pela psiquiatria e pela psicologia do sculo XXI. Suas propostas so muito atraentes e vo ao encontro das necessidades mais ntimas da
espcie humana, que apesar de possuir o espetculo da construo de pensamentos,  to desencontrada, submete-se a tantas doenas psquicas e tem dificuldade de
contemplar o belo e viver um prazer estvel. Crer ou no em suas palavras  uma questo pessoal, ntima, pois seus pensamentos fogem  investigao cientfica, extrapolam
a esfera dos fenmenos observveis. As idias e intenes de Cristo, ao mesmo tempo que representam uma belssima poesia que qualquer ser humano gostaria de recitar,
abalam a maneira como compreendemos a vida. Cristo no apenas chocou profundamente a cultura da sua poca, mas, se tivesse vivido nos dias de hoje, tambm perturbaria
a cincia e a cultura moderna.

#Cristo queria produzir uma revoluo no interior do homem
Cristo era consciente da misria social do homem e da ansiedade que estava na base da sua sobrevivncia. Ele at mesmo queria aliviar essa carga de ansiedade e tenso
que o homem carrega em sua trajetria de vida33. Embora tivesse plena conscincia da angstia social e do autoritarismo poltico que as pessoas viviam em sua poca,
ele detectava uma misria mais profunda do que a sociopoltica, que estava no ntimo do ser humano e que era a fonte de todas as outras misrias e injustias humanas.
Ele atuava pouco nos sintomas; seu desejo era atacar as causas fundamentais dos problemas psicossociais do homem. Por isso, ao estudar o seu propsito mais ardente,
compreenderemos que sua revoluo no era poltica, mas ntima, clandestina. Uma mudana que se inicia no esprito humano e se expande para toda a sua psique, renovando
a sua mente, expandindo a sua inteligncia, transformando intimamente a maneira como o homem compreende a si mesmo e o mundo que o circunda, garantindo, assim, uma
modificao psquica e social estvel. Cristo expressava que somente por meio dessa revoluo insidiosa e ntima o homem poderia vencer a parania do materialismo
desinteligente e do individualismo e desenvolver os sentimentos mais altrustas da inteligncia, como a solidariedade, a cooperao social, a preocupao com a dor
do outro, o prazer contemplativo, o amor como fundamento das relaes sociais. Quem pode question-lo? A histria tem confirmado, ao longo das sucessivas geraes,
que ele tinha razo. O comunismo ruiu e no produziu o paraso dos proletrios. O capitalismo gerou um grande desenvolvimento tecnolgico e socioeconmico. Todavia,
o capitalismo precisa de inmeras correes, pois  sustentado pela parania da competio predatria, pelo individualismo, pela valorizao da produtividade acima
das necessidades intrnsecas do homem. A democracia, que tem sido uma das mais importantes conquistas da inteligncia humana, pois garante o direito  liberdade
de pensar e se expressar, no estancou algumas chagas psicossociais fundamentais das sociedades modernas, como a violncia psicolgica, as discriminaes, a farmacodependncia,
a excluso social. Agora vamos retornar ao ambiente em que Cristo vivia. Como disse, ele procurou realizar uma revoluo clandestina na psique e no esprito humanos.
Por diversas vezes, demonstrou claramente que o seu trono no estava em Jerusalm. Para o espanto de todos, expressou que seu reino se localizava no interior do
homem. Jerusalm era a capital cultural e religiosa de Israel. L, os escribas e fariseus, que eram os lderes polticos e os intelectuais da poca, amavam, como
alguns polticos de hoje, os primeiros lugares nos banquetes, o status e o brilho social34. Cristo sabia que em Jerusalm esses lderes jamais aceitariam essa revoluo
interior, jamais aceitariam essa mudana na natureza humana, essa transformao no pensamento e na maneira de ver o mundo. De fato, sua proposta, ao mesmo tempo
bela e atraente, era ousadssima. Conduzir as pessoas a se interiorizar e reciclar seus paradigmas e conceitos culturais  uma tarefa quase impossvel quando elas
so intelectualmente rgidas e fechadas. Sabia e previa que quando abrisse a sua boca, a cpula de Israel iria odi-lo, rejeit-lo e persegui-lo. Por isso, passou
um longo perodo na Galilia antes de ir para Jerusalm.

Israel traiu seu desejo histrico de liberdade
Israel sempre preservou sua identidade como nao e valorizou intensamente sua liberdade e independncia. Seu povo tem uma histria incomum e em certo sentido potica.
Abrao, o patriarca desse povo, deixou com intrepidez a conturbada terra de Ur dos caldeus e foi em busca de uma terra desconhecida.

#Abrao era um homem ntegro e determinado. Ele deu origem a Isaque. Isaque deu origem a Jac, que recebeu o nome de Israel, que quer dizer "prncipe de Deus". Israel
teve doze filhos que se tornaram doze tribos. Da tribo de Jud saram os reis de Israel. O nome judeu deriva da tribo de Jud. As razes milenares desse povo culturalmente
rico impediam que ele se submetesse ao jugo de qualquer imperador. Apenas a fora agressiva dos imprios sufocavam o ardente desejo de liberdade e independncia
dessa nao. Devido ao desejo compulsivo de liberdade, o povo de Israel passou por situaes dramticas em alguns perodos histricos, como no de Calgula. Caio
Calgula era um imperador romano agressivo, desumano e ambicioso. Ele, alm de ter matado vrios senadores romanos, destrudo seus amigos e violado os direitos dos
povos que subjugava, ambicionava se passar por "deus". Desejava que todos os povos se dobrassem diante dele e o adorassem. Para o povo judeu esse tipo de adorao
era inadmissvel e insuportvel. Caio sabia da resistncia do povo judeu e odiava a sua audcia e insubordinao*. Os judeus, mesmo combalidos, desterrados, errantes
e com risco de passar por uma faxina tnica, foram praticamente os nicos que no se dobraram aos ps de Caio. A liberdade, para esse povo, no tinha preo. Flvio
Josefos, um brilhante historiador, que viveu no sculo I desta era, nos relata uma histria dramtica pela qual o povo de Israel passou devido ao desejo de preservar
sua independncia. O povo de Israel era considerado um corpo estranho para o vasto domnio de Roma e tinha freqentes reaes contra esse imprio. No ano 70 d.C.,
os judeus novamente se revoltaram contra ele e se sitiaram dentro de Jerusalm. Tito, general romano, se encarregou de debelar o foco de resistncia e retomar Jerusalm.
Eles podiam render-se ou resistir e lutar. Preferiram a resistncia e a luta. Tito cercou Jerusalm e iniciou uma das mais sangrentas guerras da histria. Os judeus
resistiram alm de suas foras. A fome, a angstia e a misria foram enormes. Morreram tantos judeus que exalava mal cheiro na cidade. Era possvel pisar em cadveres
pelas ruas. Por fim, Jerusalm foi destruda e o que restou do povo foi levado cativo e dispersado**. Esses exemplos mostram o desejo desesperador do povo judeu
de preservar sua liberdade, identidade e independncia. Porm, houve uma poca em que a cpula judaica traiu seu desejo de liberdade e independncia.  incrvel
constatar, mas Cristo perturbou tanto os lderes judeus com sua revoluo interior e seus pensamentos, que eles preferiram um imperador gentio  liderana de Cristo,
que tinha razes judias, embora ele manifestasse que no queria o trono poltico. Israel preferiu manter a simbiose com o Imprio Romano a admitir Jesus como o Cristo.
A cpula de Israel, na poca de Cristo, amou mais o poder sociopoltico do que sua busca de liberdade e independncia. Todavia, quero deixar claro que a imensa maioria
do povo judeu provavelmente no concordava com a postura da cpula judaica. Havia at mesmo diversos membros dessa cpula, como Nicodemos e Jos de Arimatia, que
tinham grande apreo por Cristo e discordavam da sua condenao injusta. Entretanto, eles se calaram, pois temiam as conseqncias que sofreriam por dar crdito
a Cristo. Quando a cpula judaica traiu o desejo de liberdade e independncia que movia h sculos o povo de Israel? Quando Pilatos, zombando dela, disse que no
poderia crucificar o "rei dos judeus"35. Ficaram indignados com o ultraje de Pilatos. Por isso, suplicaram-lhe que o crucificasse e o pressionaram dizendo que Csar
 que era o rei deles. Os judeus sempre rejeitaram drasticamente o domnio do Imprio Romano, mas nesse momento preferiram Csar a Cristo, um romano a um judeu.
Como disse, Cristo evidenciava que queria um reino oculto, dentro do homem. A liderana judia se sentia ameaada pelos pensamentos de Cristo. Seu plano era intrigante
e complexo demais para ela. Seu propsito rompia todos os paradigmas existenciais. Por isso, Cristo foi drasticamente rejeitado. Alguns judeus dizem hoje que Cristo
era uma pessoa querida e valorizada na sua poca pela cpula judaica. Porm, as biografias de Cristo so claras a esse respeito. Ele foi silenciado, zombado, cuspido
no rosto e odiado, embora fosse amvel, dcil e humilde e ao mesmo tempo pronunciasse palavras chocantes, nunca ouvidas. Suas palavras se tornaram perturbadoras
demais para ser analisadas, principalmente por aqueles que amavam o poder e no eram fiis a sua prpria conscincia.

#A sndrome de Pilatos
A cpula judaica ameaou denunciar Pilatos ao governo de Roma se ele no condenasse Cristo. Pilatos tinha um grande poder conferido pelo Imprio Romano: o de vida
e de morte. Todavia, era um poltico fraco, omisso e dissimulado. Ao inquirir Cristo, Pilatos no via injustia nele36. Por isso, desejava solt-lo, mas ele era
frgil demais para suportar o nus poltico dessa deciso. Assim, cedeu  presso dos judeus. Entretanto, para mostrar que ainda detinha o poder poltico, fez uma
cena teatral superficial: lavou as suas mos. Pilatos se escondeu atrs do lavar das mos. Ele no apenas cometeu um crime contra Cristo, mas tambm contra si mesmo,
contra a fidelidade  sua prpria conscincia. Aquele que  infiel  sua prpria conscincia tem uma dvida impagvel consigo mesmo. A sndrome de Pilatos tem varrido
os sculos e contaminado alguns polticos.  muito mais fcil se esconder atrs de um discurso eloqente do que assumir com honestidade seus atos e suas responsabilidades
sociais. A sndrome de Pilatos se caracteriza pela omisso, dissimulao, negao do direito, da dor e da histria do outro. Cristo era seguido pelas multides.
Por onde passava havia um grupo de pessoas despertadas por ele. As multides se aglomeravam ao seu redor. Isso causava um grande cime na cpula judaica. Pessoas
de todos os nveis se ajuntavam e o procuravam para ouvir aquele homem amvel e ao mesmo tempo instigante e determinado. Elas procuravam conhecer os mistrios da
existncia, anelavam a transformao ntima, clandestina, que ele proclamava. Os relatos demonstram que, uma vez, mais de 5 mil homens o seguiram, outra vez, mais
de 4 mil, sem contar as mulheres e crianas37. Isto era um fenmeno social espetacular. Provavelmente nunca um homem que tivesse vivido naquela regio havia despertado
tanto o nimo das pessoas. Provavelmente nunca um homem sem qualquer aparncia ou propaganda tivesse sido seguido de maneira to apaixonada e calorosa por numerosas
multides. A cpula judaica estava muito preocupada com o movimento social em torno de Cristo. Ela tinha medo de que ele desestabilizasse a simbiose entre a liderana
de Israel e o Imprio Romano. Por isso, ele tinha que ser eliminado. A liderana judia nem sequer cogitou sobre a linhagem de Cristo, sobre suas origens. No se
preocupou em question-lo honestamente. Para ela, ele no derramou lgrimas, no tinha famlia, no teve infncia, no sofreu, no construiu relacionamentos, enfim,
no teve histria. A ditadura do preconceito anula a histria das pessoas. Cristo tinha de morrer, no importava quem ele fosse.

Cristo abalaria qualquer sistema poltico onde tivesse vivido
A liderana judaica no se importou em sujar suas mos arrumando testemunhas falsas. O importante era conden-lo. Porm, nenhuma testemunha era coerente e, por isso,
no conseguiram argumentos plausveis para conden-lo38. So atpicos os paradoxos que envolvem a histria de Cristo. Ningum falou do amor como ele e, ao mesmo
tempo, ningum foi to odiado como ele. Ele se doou e se preocupou tanto com a dor do "outro", e ningum se preocupou com a sua dor. Ele foi ferido e rejeitado sem
oferecer motivos para tanto. Era to dcil, mas foi tratado com muita violncia. No queria o trono poltico, mas foi tratado como se fosse o mais agressivo dos
revolucionrios.

#Se Cristo tivesse vivido nos dias de hoje, ele tambm teria sido uma ameaa para o governo local? Seria rejeitado drasticamente? Provavelmente sim. Embora preferisse
o anonimato e no fizesse nenhuma propaganda de si mesmo, no conseguia se esconder.  impossvel esconder algum que falou o que ele falou e fez o que ele fez.
Se, naquela poca, em que a comunicao era restrita, que no havia a imprensa, ele era seguido por multides, imagine nos dias de hoje. Na atualidade, a imprensa
escrita o estamparia nas primeiras pginas e os jornais televisivos teriam uma equipe de planto vinte e quatro horas acompanhando-o. Ele seria o maior fenmeno
social e geraria os fatos jornalsticos mais importantes. Nos dias de hoje, a populao que o seguiria poderia se multiplicar por dez, cinqenta, cem ou muito mais.
Imagine 100 mil ou 500 mil pessoas seguindo-o. Geraria um tumulto social sem precedentes. O governo local o consideraria um conspirador contra o sistema poltico.
Alm disso, o prprio comportamento de Cristo de procurar se isolar toda vez que era muito assediado, de ser muito sensvel s misrias fsicas e psquicas, de estar
sempre procurando aliviar a dor do outro, de tocar profundamente nos sentimentos humanos e de no fazer acordos com qualquer tipo de poltico j causaria um incmodo
a qualquer governo que, por mais democrtico que seja, possui conchavos nos seus bastidores. Para alguns polticos, ele seria condenado pela ameaa ao regime; para
outros, por representar uma ameaa aos ganhos secundrios do poder. Cristo abalaria qualquer governo em qualquer poca em que vivesse. Seu desejo de libertar o homem
dentro de si mesmo e sua revoluo interior no seriam compreendidos por qualquer sistema poltico

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#A crise existencial gerada pelo fim do espetculo da vida
A morte fsica faz parte do ciclo natural da vida, mas a morte da conscincia humana  inaceitvel. S a aceita aqueles que nunca refletiram minimamente sobre as
suas conseqncias psicolgicas e filosficas ou aqueles que nunca sofreram a dor indescritvel da perda de algum que amam.  aceitvel o caos que desorganiza e
reorganiza a matria. Tudo no universo organiza-se, desorganiza-se e reorganiza-se novamente. Todavia, para o homem pensante, a morte estanca o show da vida, produzindo
a mais grave crise existencial de sua histria. A vida fsica morre e se descaracteriza, mas a vida psicolgica clama pela continuidade da existncia. Ter uma identidade,
possuir o espetculo da construo dos pensamentos e ter conscincia de si mesmo e do mundo que o cerca so direitos personalssimos, que no podem ser alienados
e transferidos por dinheiro, por circunstncias e pacto social e intelectual algum. Se uma doena degenerativa do crebro ou um traumatismo craniano pode, s vezes,
comprometer profundamente a memria e trazer conseqncias dramticas para a capacidade de pensar, imagine as conseqncias do caos da morte. No processo de decomposio,
o crebro  esmigalhado em bilhes de partculas, esfacelando os mais ricos segredos que sustentam a personalidade, os segredos da histria da existncia contida
na memria.  inconcebvel a ruptura do pulsar da vida.  insuportvel a inexistncia da conscincia, o fim da capacidade de pensar. A inteligncia humana no consegue
compreender o fim da vida. Existem reas que o pensamento consciente jamais conseguir compreender de forma adequada, a no ser no campo da especulao intelectual.
Uma delas  compreender o pr-pensamento, ou seja, os fenmenos inconscientes que formam o pensamento consciente. O pensamento no pode compreender o prpensamento,
pois todo discurso sobre ele nunca ser o pr-pensamento em si, mas o pensamento j elaborado. Outra coisa incompreensvel pelo pensamento  a conscincia do fim
da existncia. O pensamento nunca atinge a conscincia da morte como "fim da existncia", o "nada existencial", pois o discurso dos pensamentos sobre o nada nunca
 o nada em si, mas manifestao da prpria conscincia. Por isso, toda pessoa que pensa ou comete atos de suicdio no tem conscincia da morte como fim da vida.
Os que pensam em suicdio de fato no querem matar a vida, terminar a existncia, mas "matar" a dor emocional, a angstia, o desespero que abate suas emoes. A
idia de suicdio  uma tentativa inadequada e desesperada de procurar transcender a dor da existncia, e no o fim dela. S a vida tem conscincia da morte. A morte
no tem conscincia de si mesma. A conscincia da morte  sempre uma manifestao da vida, ou seja,  um sistema intelectual que discursa sobre a morte, mas nunca
atinge a realidade em si. A conscincia humana jamais consegue compreender plenamente as conseqncias da inexistncia da conscincia, do silncio eterno. Por isso,
todo pensador ou filsofo que tentou, como eu, compreender o que  o fim da conscincia, o fim da existncia, vivenciou um angustiante conflito intelectual. Estudaremos
que o pensamento de Cristo referente ao fim da existncia tinha uma ousadia e complexidade impressionante. Ele discursava sobre a imortalidade com uma segurana
incrvel. A maioria dos seres humanos nunca procurou compreender algumas implicaes psicolgicas e filosficas da morte, mas sempre resistiu intensamente a ela.
Por que em todas as sociedades, mesmos nas mais primitivas, os homens criaram religies? O fogo, um animal, um astro, funcionavam como deuses para os povos primitivos
projetarem os mistrios da existncia. Pode-se dizer que a necessidade de uma busca mstica (espiritual)  sinal de fraqueza intelectual, de fragilidade da inteligncia
humana? No, pelo contrrio, ela  sinal de grandeza intelectual. Expressa um desejo vital de continuidade do espetculo da vida...

#A filosofia e a possibilidade de transcender a finitude existencial
Muitos pensadores da filosofia produziram conhecimento sobre a metafsica como tentativa de compreender os mistrios que cercam a existncia. A metafsica  um ramo
da filosofia que estuda o conhecimento da realidade divina pela razo, o conhecimento de Deus e da alma (Descartes)*, enfim, investiga a natureza e o sentido da
existncia humana. Grandes pensadores, como Aristteles, Toms de Aquino, Agostinho, Descartes, Kant, discursaram de diferentes maneiras sobre a metafsica. Esses
pensadores eram intelectualmente frgeis? De modo algum! Por pensar na complexidade da existncia, eles produziram idias eloqentes sobre a necessidade intrnseca
de o homem transcender os seus limites e, em certos casos, superar a finitude da vida. Muitos deles fizeram de Deus um dos temas fundamentais das suas discusses
e indagaes inte- lectuais. Augusto Comte e Friedrich Nietzsche foram grandes filsofos ateus. Porm,  estranho que estes dois grandes ateus tenham produzido,
em alguns momentos, uma filosofia com conotao mstica. Comte queria estabelecer os princpios de uma religio universal, uma religio positivista**. Nietzsche
discursava sobre a morte de Deus, porm no final de sua vida produziu Assim fala Zaratustra***, uma obra que tinha princpios que regulavam a existncia, tais como
os provrbios de Salomo. Alguns vem nesse livro um esforo de ltima hora para recuperar a crena na imortalidade. Ningum deve ser condenado por rever sua posio
intelectual, pois do ponto de vista psicolgico e filosfico h uma crise existencial intrnseca no ser humano diante do fim da existncia. A imprensa divulgou que
Darcy Ribeiro, um dos grandes pensadores brasileiros, que sempre foi um ateu declarado, pediu aos seus ntimos, momentos antes de sua morte, que lhes dessem um pouco
de f. Tal pedido refletia um sinal de fraqueza desse ousado pensador? No. Refletia a necessidade universal e incontida de continuidade do espetculo da vida. H
doenas psquicas que geram uma fobia ou medo doentio da morte, como a sndrome do pnico e determinados transtornos obsessivos compulsivos (TOC). No "pnico" ocorre
um dramtico e convincente teatro da morte. Nele, h uma sensao sbita e iminente de que se vai morrer. Tal sensao gera uma srie de sintomas psicossomticos,
como taquicardia, aumento da freqncia respiratria e sudorese. Esses sintomas so reaes metablicas instintivas que tentam conduzir o homem a fugir da situao
de risco. Todavia, no "pnico", tal situao de risco  imaginria, apenas um teatro dramtico que o "eu" deve aprender a gerenciar e, s vezes, com o auxlio de
antidepressivos. Nos TOC, principalmente naqueles que esto relacionados a idias fixas de doenas, ocorrem tambm reaes fbicas diante da morte, que aqui tambm
 imaginria. Nesses transtornos, ocorre uma produo de pensamentos de contedo negativo, no gerenciada pelo "eu", conduzindo a pessoa a ter idias fixas de que
est com cncer, que vai sofrer um enfarto, ter um derrame etc. O TOC e a sndrome do pnico acometem pessoas de todos os nveis intelectuais. A experincia imaginria
da morte na sndrome do pnico e nos transtornos obsessivos gera uma ansiedade intensa, desencadeando uma srie de sintomas psicossomticos. Tais doenas podem e
devem ser tratadas. Apesar de haver doenas psquicas que geram uma fobia doentia da morte, h uma fobia legtima, no doentia, ligada ao fim da existncia, que
psiquiatra e medicamento nenhum podem eliminar. A vida s aceita o fim de si mesma se no tiver prximo desse fim. Se estiver prxima desse fim, ela o rejeita automaticamente
ou, ento, o aceita se se convencer da possibilidade de super-lo.

#O homem animal e o psicolgico no aceitam a morte. O equvoco intelectual do atesmo de Marx
Nem o "homem animal ou instintivo" e muito menos o "homem psicolgico ou intelectual" aceitam a morte. Quando estamos correndo risco de vida, seja por uma dor, um
ferimento, a ameaa de uma arma, um acidente, o "homem animal" surge com intensidade: os instintos so aguados, o corao acelera, a freqncia respiratria aumenta
e surge uma srie de mecanismos metablicos para nos retirar das situaes de risco de vida. Quando o homem animal aparece, o homem intelectual diminui, ou seja,
fecha as janelas da inteligncia, retrai a lucidez e a coerncia. Nesse caso, os instintos prevalecem sobre o pensamento. Toda vez que estamos sob uma grande ameaa,
ainda que seja imaginria, reagimos muito e pensamos pouco. Por vivermos numa sociedade doentia, onde prevalece a competio predatria, o individualismo, a crise
de dilogo, criamos uma fbrica de estmulos negativos que cultivam o stress do homem animal, como se ele vivesse continuamente sob ameaa e risco de vida. O homem
das sociedades modernas tem mais sintomas psicossomticos do que o das tribos primitivas. O homem psicolgico, mais do que o homem animal, no aceita a morte. O
desejo da eternidade, de transcender o caos da morte,  inerente ao ser humano, no  fruto de uma cultura. Como analisaremos, Cristo tinha conscincia disso. Seu
discurso sobre a eternidade ainda  perturbador. Os que esto vivos elaboram muitos pensamentos para procurar confortar-se diante da perda dos seus ntimos, como:
"ele deixou de sofrer", "ele descansou", "ele est em lugar melhor". Mas ningum diz: "ele deixou de existir". A dor da perda de algum  uma celebrao  vida.
Ela representa um testemunho vivo do desejo irrefrevel do homem de continuar o show da existncia. Num velrio, os ntimos da pessoa que morreu, que geralmente
representam a minoria, sofrem muito, e os agregados, a maioria, fazem terapia. Como os agregados fazem terapia? Eles procuram se interiorizar e se reciclar diante
da morte do outro. Dizem uns para os outros: "no vale a correria da vida", "no vale a pena se estressar tanto", "a vida  muito curta para lutar por coisas banais,
depois morremos e fica tudo a...". Essa terapia grupal no  condenvel, mas representa uma reviso saudvel de vida. A terapia grupal nos velrios  uma homenagem
inconsciente  existncia. O desejo de superar o fim da existncia est alm dos limites das ideologias intelectuais e sociopolticas. Um dos maiores erros intelectuais
de Carl Marx  ter procurado criar uma sociedade pregando o atesmo como massificao cultural. Marx encarou a religiosidade como um problema para o socialismo.
Ele era um pensador inteligente, mas por conhecer pouco os bastidores da mente humana, foi ingnuo. Talvez nunca tenha refletido com mais profundidade sobre as conseqncias
psicolgicas e filosficas do caos da morte. Se o tivesse feito, teria compreendido que o desejo de superao da finitude existencial  irrefrevel. O desejo de
continuar a sorrir, a pensar, a amar, a sonhar, a projetar, a criar, a ter uma identidade, a ter conscincia de si e do mundo est alm dos limites da cincia e
de qualquer ideologia sociopoltica. O homem possui uma necessidade intrnseca de procurar por Deus, de criar religies e de produzir sistemas filosficos metafsicos.
Tal necessidade surge no apenas como tentativa de superar sua finitude existencial, mas tambm para explicar a si mesmo o mundo, o passado, o futuro, enfim, os
mistrios da existncia. O homem  uma grande pergunta que por dezenas de anos procura por uma grande resposta... Ele procura explicar o mundo. Todavia, sabe que
explicar a si mesmo  o maior desafio da sua prpria inteligncia. Vimos que pensar no  uma opo do homem, mas o seu destino inevitvel.  impossvel interromper
o processo de construo de pensamentos.  impossvel conter a necessidade do homem de compreender a si mesmo e o mundo que o circunda. Na mente humana h uma verdadeira
revoluo de idias que no pode ser estancada, nem mesmo pelo controle do eu.

#Nas prximas dcadas, os povos socialistas, que viveram sob a propaganda atesta, sero os mais religiosos, os que mais procuraro pela existncia de Deus. Por
qu? Porque o socialismo procurou eliminar algo indestrutvel. E parece que isso j est ocorrendo intensamente na Rssia e na China. Na China havia 5 milhes de
cristos na poca em que o socialismo foi implantado. Agora, passados tantos anos de propaganda atesta, h notcias extra-oficiais que dizem que h mais de 50 milhes
de cristos naquele pas. Alm disso, h milhes e milhes de chineses adeptos de diversas outras religies. O desejo de transcender o fim da existncia no pode
ser contido. A melhor maneira de propagar uma religio  tentar destru-la. A melhor maneira de incendiar o desejo do homem de procurar por Deus e transcender o
caos da morte  tentar destruir esse desejo.

A medicina como tentativa desesperada de aliviar a dor e prolongar a vida
A ansiedade pela continuidade da existncia e a necessidade de mecanismos de proteo diante da fragilidade do corpo humano mergulhou o homem tanto numa busca mstica
(espiritual) como tambm promoveu intensamente o desenvolvimento da cincia ao longo da histria. Os produtos industriais embutem mecanismos de segurana que revelam
a ansiedade humana pela continuidade da existncia. Os aparelhos eltricos e eletrnicos tm que possuir mecanismos de segurana para os usurios. Os veculos cada
vez mais incorporam sistemas de proteo para os passageiros. A engenharia civil possui alta tecnologia no apenas para produzir construes funcionais, mas tambm
seguras. Nas empresas, os mecanismos de segurana so fundamentais nas atividades de trabalho. Porm, de todas as cincias que foram influenciadas pela necessidade
de continuidade e preservao da integridade fsica e psicolgica do homem, a medicina foi a mais marcante. A medicina agrega um conjunto de outras cincias: a qumica,
a biologia, a fsica, a biofsica, a matemtica etc., e tem experimentado um desenvolvimento fantstico. Ela evoluiu tanto como tentativa desesperada do homem de
superar a dor como para prolongar seus dias de vida. H milhes de volumes nas bibliotecas de medicina, inmeras revistas mdicas so editadas todos os meses. O
conhecimento se multiplica tanto que cada vez surgem novas especialidades. Todos os anos so descobertas novas tcnicas laboratoriais, cirrgicas e novos aparelhos
que do suporte aos diagnsticos. Diariamente so realizadas no mundo todo mesas-redondas, conferncias e congressos mdicos de todas as especialidades. Por que
a medicina est passando por um desenvolvimento explosivo? Porque o homem quer aliviar a dor, expandir sua qualidade de vida e prolongar a sua existncia. A medicina
 uma cincia potica. Os mdicos sempre desfrutaram de um grande prestgio social em toda a histria da humanidade, pois, ainda que no percebam, eles mexem com
as mais dramticas necessidades existenciais do homem, a de aliviar a dor e continuar a vida. H dois dramas existenciais democrticos, ou seja, que atingem todo
ser humano: o envelhecimento e o fim da existncia. De um lado, cientistas do mundo inteiro esto gastando o melhor do seu tempo para descobrir medicamentos, conhecer
o metabolismo celular, pesquisar novos aparelhos. Todas essas pesquisas objetivam fornecer novas tcnicas e procedimentos para diagnosticar doenas, preveni-las,
trat-las e, assim, expandir a qualidade de vida e prolongar o inevitvel: o fim da existncia. De outro lado, muitos pesquisadores esto produzindo novos conhecimentos
por meio da medicina ortomolecular, esttica, cirurgia plstica, que procuram rejuvenescimento e retardar o inevitvel: o envelhecimento.

#Tanto a incontida busca espiritual do homem, ao longo da histria, como o contnuo desenvolvimento da medicina so dois testemunhos vivos de que no mago do ser
humano pulsa o desejo ardente de superar o drama do envelhecimento e do fim da existncia e, conseqentemente, continuar o espetculo da vida...

O discurso de Cristo sobre o segredo da eternidade
Aps ter feito essa exposio, vamos retornar ao nosso personagem principal, Cristo. Quero estudar o impacto que suas palavras sobre a crise existencial do homem
e a sua proposta sobre a superao do caos da morte provocariam nos dias de hoje. Vamos imaginar Cristo reagindo, falando, expressando seus pensamentos numa sociedade
que no tivesse qualquer cultura sobre o cristianismo. O que Cristo diz sobre a crise existencial do homem? O que ele tem para nos falar sobre a continuidade do
espetculo da vida? Suas palavras sobre esses assuntos so triviais? Elas perturbariam nossos pensamentos? Seu pensamento sobre o fim da existncia se aproxima dos
pensamentos dos intelectuais? Cristo disse palavras incomuns, inditas, capazes de abalar tanto os alicerces dos cientistas da medicina como da religiosidade humana.
Antes de responder tais perguntas, vamos resgatar algumas caractersticas de Cristo. Ele possua um viver que rimava num paradoxo. Por um lado, expunha-se publicamente
e por outro procurava, sempre que possvel, o anonimato. Alm disso, gostava de falar na terceira pessoa. Dizia que fazia as obras, proferia as palavras e executava
a vontade do Pai39. Por que usava a terceira pessoa em sua argumentao? Por vrios motivos, dos quais destacarei trs. Primeiro, por causa da questo da trindade,
um assunto complexo que a cincia no tem como discutir. Segundo, porque no gostava de se ostentar. Terceiro, porque em suas biografias h indcios claros que expressam
que ele conhecia a facilidade com que distorcemos a interpretao. Por isso afirmava que a fidelidade do testemunho de algum tinha que ser confirmada por duas pessoas40.
Alm disso, Cristo no impunha suas idias, mas as expunha. No pressionava ningum a segui-lo, apenas as convidava. Era contra o autoritarismo do pensamento, por
isso procurava continuamente abrir as janelas da inteligncia das pessoas para que refletissem sobre suas palavras. Resumindo, Cristo no gostava de se ostentar,
conhecia as distores da interpretao, era elegante no seu discurso e aberto quando expunha seus pensamentos. Agora, precisamos investigar sua biografia e conhecer
outras particularidades da sua personalidade. Cristo era flexvel e brando nos assuntos que tratava, todavia em alguns pontos ele foi extremamente determinado. Entre
esses pontos destaca-se o que ele pensava sobre a continuidade da existncia e sobre a eternidade. A respeito da continuao do espetculo da vida, era incisivo.
No deixava margem de dvida sobre seu pensamento. E, diga-se de passagem, seu pensamento era ousadssimo. Neste assunto deixava o discurso em terceira pessoa de
lado e expressava claramente que tinha o segredo da eternidade. Discursava que a vida eterna passava por ele. Disse: "Quem crer em mim, ainda que morra, viver!"41,
"Eu sou o po vivo que desceu do cu. Se algum comer esse po viver para sempre"42. Proferiu muitas palavras semelhantes a essas, que so incomuns e possuem uma
dimenso indescritvel. Ele no disse que se as pessoas obedecessem a regras de comportamentos ou doutrinas religiosas teriam a vida eterna. No! Os textos so claros,
ele concentrou nele mesmo o segredo da eternidade. Disse que se algum cresse nele e o incorporasse interiormente, essa pessoa teria a vida eterna, a vida inesgotvel
e infinita. Quem produziu um discurso como esse na histria?

#De todos os homens que brilharam em suas inteligncias, ningum foi to ousado em seus pensamentos como Cristo. De todos aqueles que fundaram uma religio, uma
corrente mstica ou uma filosofia metafsica, ningum teve a intrepidez de produzir palavras semelhantes s quais ele proferiu em primeira pessoa. Ao investigarmos
o pensamento de Cristo verificamos que ele realmente no falava de mais uma religio e nem de uma corrente de pensamento. Falava dele mesmo, discorria sobre a sua
prpria vida e o poder que ele expressava que ela continha! Chegou at a expressar que ele era "o caminho, a verdade e a vida"43. Ao proferir essas palavras, atribuiu
a si mesmo o caminho para chegar  verdade em seus amplos aspectos e o caminho para se conquistar uma vida infindvel. Ns estamos psicoadaptados s palavras de
Cristo, por isso no ficamos perturbados com elas. Os escribas e fariseus sabiam o que elas significavam, por isso ficaram profundamente perturbados. Existiram diversos
profetas ao longo de tantos sculos, mas nunca algum ousou dizer o que aquele carpinteiro de Nazar proferiu. Ficaram perplexos diante do discurso dele em primeira
pessoa. Apesar de viverem sob a ditadura do preconceito e de ser intelectualmente rgidos, tinham plena razo de ficar perplexos. As palavras que ele discursou so
serssimas. Aquele que nasceu numa manjedoura se colocou como a fonte da vida inextinguvel, a fonte da eternidade, a fonte da verdade. Quem  esse homem?

As limitaes da cincia e a postura de Cristo como fonte da verdade essencial
Uma rea do conhecimento s ganha o status de verdade cientfica quando comprova os fatos e prev fenmenos. Se falarmos que o tabagismo prejudica a sade precisamos
provar que os fumantes contraem determinadas doenas, como cncer de pulmo e doenas cardiovasculares. Uma vez provados os fatos, podemos prever fenmenos, ou seja,
podemos prever que os fumantes tm mais possibilidades de adquirir essas doenas do que os no-fumantes. Ao comprovar os fatos e prever fenmenos, o conhecimento,
principalmente nas cincias fsicas e biolgicas, deixa de ser um mero conhecimento e passa ganhar status de verdade cientfica. Porm aqui h um problema filosfico
srio que muitos no compreendem. Uma verdade cientfica no atinge jamais a verdade essencial. Um milho de pensamentos sobre um tipo de cncer do pulmo causado
pela nicotina (verdade cientfica) no  o cncer em si (verdade essencial ou real), mas apenas um discurso cientfico sobre ele. Do ponto de vista filosfico, a
verdade cientfica (cincia) procura a verdade real (essencial), mas jamais a incorpora. Outro exemplo: se produzirmos um milho de idias sobre um objeto de madeira,
todas essas idias podero definir e descrever a celulose contida na madeira, mas a madeira continua sendo a madeira e as idias continuam sendo meras idias. A
interpretao de um terapeuta sobre a ansiedade de um paciente no representa a essncia da energia ansiosa do paciente, mas um discurso sobre ela. A interpretao
est na cabea do terapeuta, mas a ansiedade est na emoo do paciente, portanto, ambos esto em mundos diferentes. Sei que muitos leitores podem estar confusos
com o que estou dizendo, mas o que quero mostrar  que a discusso filosfica sobre o que  a "verdade" tem varrido os sculos. Eu mesmo, por mais de dez anos, produzi
uma teoria filosfica sobre o que  uma verdade cientfica, qual a sua relao com a verdade essencial, como ela se constri na mente humana, at onde  relativa,
quais so seus limites, alcances e lgica. Todas essas questes so muito complexas e no entrarei em detalhes neste livro. Todavia, o que quero enfatizar, por meio
da exposio deste assunto,  que, a respeito da verdade, Cristo colocou-se numa posio que a cincia jamais pde atingir.

#Quando Cristo disse que era o caminho, a verdade e a vida, foi to perturbador que se identificou como a prpria verdade essencial, como a prpria essncia da vida.
Ele no disse que possua a verdade acadmica, ou seja, que possua um conjunto de conhecimentos, de idias e de pensamentos verdadeiros, mas sim que ele mesmo era
o caminho que conduz  fonte da verdade essencial, o caminho que atinge a prpria essncia da vida. Que vida era essa? A vida eterna, infindvel e inesgotvel, que
ele expressava possuir. Ao dizer tais palavras, posicionou-se como algum que possua uma natureza que estava alm dos limites do que  propriamente humano. Ele
se posicionou como filho de Deus, como autor da existncia, como arquiteto da vida ou qualquer outro nome que se possa dar. Seu discurso foi impressionante. Como
estudaremos, Cristo gostava de discursar que era filho do homem. Ele apreciava a sua condio humana, porm em alguns momentos aquele homem mostrava uma outra face,
por meio da qual ele reivindicava sua divindade. Como seres humanos, temos diversos limites. Ningum pode dizer de si mesmo que  "o caminho, a verdade e a vida".
Ningum que  meramente humano, mortal e finito pode dizer que possui em si mesmo a eternidade. Somos todos finitos fisicamente. Somos todos limitados temporal e
espacialmente. Como pode uma pequena gota reivindicar ser uma fonte de gua? O que nenhum homem teria coragem de proferir, a no ser que estivesse delirando, Cristo
proferiu com a mais incrvel eloqncia. Temos limitaes na organizao dos pensamentos, que so construdos a partir dos parmetros que temos na memria. O fim
e o infinito so parmetros incompreensveis e inatingveis pela inteligncia humana. Pense no que  o fim e tente esquadrinhar o que  o infinito. J perdi noites
de sono pensando nesses extremos. A existncia humana transcorre dentro de um pequeno parntese da eternidade. A vida humana  apenas uma pequena gota existencial
na perspectiva da eternidade... Nossos pensamentos esto num pequeno intervalo entre o princpio e a eternidade. A cincia trabalha dentro dos intervalos de tempo,
sejam eles enormes ou extremamente pequenos. Sem o parmetro do tempo no h cincia. Se estudar aquilo que transcorre nos intervalos de tempo  sofisticado, imagine
estudar os fenmenos que esto alm dos limites do tempo, que transcorrem na eternidade. Um dos motivos de a cincia ter sido tmida e omissa em investigar a inteligncia
de Cristo  que seus pensamentos tratam de assuntos que extrapolam os parmetros da cincia. O que a cincia pode dizer a respeito dos pensamentos de Cristo sobre
a eternidade? Nada! A cincia, por ser produzida dentro dos intervalos de tempo, no tem como confirmar nem discordar dele. Se estudar a prpria existncia j 
uma tarefa complexa, como ser possvel  cincia discorrer sobre a autoria da existncia! Podemos discorrer teoricamente sobre as origens do universo, sobre os
buracos negros, a teoria do "Big Bang", mas no temos recursos intelectuais para discorrer sobre a "origem da origem", a "causa das causas", aquilo que est antes
do incio, a fonte primeira. O pensamento pode estudar os fenmenos que esto no pr-pensamento. Sim, mas o pensamento sobre o pr-pensamento, como disse, ser sempre
o pensamento, e no o pr-pensamento em si. Se estudar fenmenos observveis, passveis de investigao e aplicao metodolgica j  uma tarefa extenuante para
a cincia, imagine pesquisar aquilo que est alm dos limites da observao! Se a cincia mal entende os fenmenos da vida, como pode entender aqueles que transcendem
o fim da existncia? De fato, a cincia tem limitaes para pesquisar os complexos pensamentos de Cristo sobre a eternidade e a superao do caos da morte. Tais
pensamentos entram na esfera da f.

#O discurso de Cristo abalaria os fundamentos da medicina
Apesar de a cincia no ter condies de estudar o contedo do discurso de Cristo e do poder que ele expressava ter, ela, como comentei, no est de mos amarradas.
Ainda pode investigar algumas reas importantes da sua inteligncia; pode estudar a sua coragem e ousadia para dizer palavras incomuns e o choque psicossocial dessas
palavras; pode investigar se as suas idias so coerentes com sua histria; pode analisar como ele rompia as ditaduras da inteligncia e administrava seus pensamentos
nos focos de tenso; pode estudar quais so as metas fundamentais da sua escola da existncia. Imagine Cristo transitando pelas ruas, pelos acontecimentos sociais,
pelas festividades e pelos congressos de medicina, proclamando com eloqncia, como fazia em sua poca, que por intermdio dele o homem poderia superar o fim da
existncia e ir ao encontro da eternidade. Sua ousadia era sem precedentes. Ele discursava com incrvel determinao sobre temas que poucos ousariam tocar. Imagine
Cristo interferindo nas conferncias mdicas e bradando que ele  a ressurreio e a vida44. Se ele escandalizaria os psiquiatras e psicoterapeutas com a proposta
de uma vida interior que jorra um prazer pleno e inesgotvel, imagine como no escandalizaria os mdicos e os cientistas da medicina, que lutam para prolongar a
vida humana, ainda que seja por alguns dias e meses, com sua proposta sobre uma vida infindvel, uma vida sem doenas e misrias. Diante do discurso de Cristo, algumas
perguntas invadiriam a mente dos cientistas e dos mdicos mais lcidos. Como  possvel transcender o inevitvel e dramtico caos da morte? Como  possvel reorganizar
a identidade da conscincia depois que a memria se esfacela em bilhes de partculas na decomposio do crebro? Como  possvel possuir uma existncia em que no
se concebe mais o envelhecimento? Que tipo de natureza o ser humano teria de ter para possuir uma existncia que se renovaria e se perpetuaria eternamente? Como
a memria e a construo de pensamentos se renovariam numa histria sem fim? O discurso de Cristo certamente abalaria a complexa e ao mesmo tempo limitada medicina,
que pode fazer muito por algum que est vivo, mas no pode fazer nada por aquele que est morto. Todas essas perguntas so provenientes de uma existncia finita
questionando uma existncia infinita, portanto possui inmeras dvidas e limitaes. Entretanto, o questionamento do finito sobre o infinito, do temporal sobre o
eterno, ainda que limitado,  um direito legtimo do homem, um direito personalssimo de expresso do pensamento, pois a vida clama por continuidade. Cristo era
to determinado nessa questo que chegou at a usar uma metfora que escandalizou muitos em sua poca. Disse que quem comesse da sua carne e bebesse do seu sangue
teria a vida eterna45! As pessoas ficaram pasmas com a coragem daquele homem ao proferir tais palavras. Pensaram que ele estava falando da sua carne e sangue fsicos.
Todavia, ele discorria sobre a incorporao de outra natureza, de uma natureza eterna. Que proposta intrigante! Seus opositores diziam-lhe que no deixasse suas
mentes em suspense, mas dissesse claramente quem ele era46. A nata intelectual de Jerusalm fazia grandes debates para descobrir sua identidade. At as pessoas sem
cultura discutiam entre si sobre a sua origem. Os prprios discpulos ficavam perturbados com seu discurso e indagavam quem era o mestre que eles seguiam47. Eles
haviam deixado tudo para segui-lo e quanto mais andavam com ele, mais percebiam que no o conheciam. O homem sempre procurou uma religio como ncora do futuro,
com o objetivo de transcender a morte, e sempre procurou a medicina como ncora do presente, com o objetivo de retardar a morte. Agora vem algum dizendo palavras
nunca ouvidas sobre a superao do fim da existncia e sobre a imerso na eternidade. E tudo se complicava mais porque, ao mesmo tempo em que ele dizia com ousadia
e determinao palavras incomuns sobre a eternidade, esquivava-se da fama e da ostentao.

#A intrepidez de Cristo era to impressionante que ele se colocava acima das leis fsico-qumicas. Chegou a expressar que "os cus e a terra passaro, mas as minhas
palavras no passaro"48. O universo tem bilhes de galxias. Ele passa continuamente por um processo de organizao, caos e reorganizao. Estrelas nascem e morrem
continuamente. Daqui a alguns milhes de anos o Sol deixar de existir. Os astrnomos olham para o cu e, em cada direo, contemplam um "cu de enigmas". Agora,
vem um homem que, alm de falar que possui o segredo da eternidade, expressa que o contedo dos seus pensamentos tm uma estabilidade que todo o universo no possui.
O universo imerge no caos, mas ele proclama que suas palavras traspassam o caos fsico-qumico e que sua vida estava alm dos limites do tempo e do espao. Tais
afirmaes so impressionantes. Einstein era um admirador de Cristo. Contudo, se ele tivesse vivido naquela poca, certamente o discurso de Cristo deixaria seus
cabelos mais revoados do que esto em sua famosa foto... O discurso dele extrapolava os parmetros da fsica, portanto no poderia ser explicado nem mesmo pela inteligente
teoria da relatividade.

A personalidade mpar de Cristo: grandes gestos e comportamentos singelos
Cristo disse palavras inimaginveis, que esto alm dos limites de grandeza ambicionados pelo homem. Porm, o que era interessante  que ele tinha raciocnio coerente,
organizao de idias e conscincia crtica. No h como no admirar a ousadia dos seus pensamentos e a determinao da sua inteligncia. Por isso, reitero, estudar
a sua inteligncia , at para os ateus, um desafio intelectual prazeroso, um convite  reflexo. No   toa que seus pensamentos varreram os sculos e as geraes.
O que  mais perturbador  que a personalidade de Cristo se equilibra entre os extremos, como num pndulo de um relgio. Como pode algum discursar sobre a eternidade
e ao mesmo tempo no procurar qualquer ato para se promover? Qualquer pessoa que julgasse ter tal poder desejaria, no mnimo, que o mundo gravitasse em torno de
si, desejaria que a humanidade se dobrasse aos seus ps. Alguns dos seus ntimos estavam confusos pelo fato de ele falar e fazer tantas coisas e, ao mesmo tempo,
procurar continuamente se ocultar. Eles rogaram para que ele se manifestasse ao mundo, para que o mundo o contemplasse, o admirasse49. Talvez at quisessem que o
Imprio Romano se rendesse a ele. A lgica dos discpulos era que os atos deveriam ser feitos em pblico para se tirar o mximo proveito deles. Esta  uma lgica
poltica. Entretanto, a lgica de Cristo era diferente e interessante. Ele discursava em pblico, mas com freqncia praticava seus atos sem alarde. Ele praticava
aes admirveis e em seguida se escondia nas aes singelas. Discursava sobre um poder sem precedentes, mas ao mesmo tempo transitava pelas avenidas da humildade.
Proferia pensamentos que tinham grandes implicaes existenciais, porm no obrigava ningum a segui-los, apenas os expunha com elegncia e convidava as pessoas
a refletir sobre eles. Proclamava possuir uma vida infinita, mas, ao mesmo tempo, tinha imenso prazer de possuir amigos finitos...50 Diante disso,  difcil no
concluir que seu comportamento estilhaa os paradigmas e foge aos padres previsveis da inteligncia humana. Quais atos de Cristo eram mais admirveis: os pequenos
ou os grandes? Muitos preferem os grandes. Para mim, os pequenos so to eloqentes quanto os grandes. Quem  esse Cristo?  difcil compreend-lo. Cristo objetivava
que o homem fosse um ser alegre, plenamente satisfeito e que vivesse uma vida interminvel, infinita, sem limites de tempo. Sua proposta, embora muitssimo atraente,
deixa a cincia perplexa. Amar ou rejeitar tal proposta  um assunto ntimo, pessoal, que no depende da cincia.

#Cristo discorria sobre uma msica que todos queriam e querem danar. Porm, as caractersticas da sua inteligncia esto sempre nos surpreendendo. Elas so capazes
de abalar os alicerces do homem do terceiro milnio e conduzi-lo a repensar a sua histria, os seus projetos e a sua compreenso de mundo.

#A complexa escola da existncia
A escola da existncia  a escola da vida, dos eventos psicolgicos e sociais. Na escola da existncia escrevemos nossas histrias particulares. Essa escola penetra
nos meandros de nossa existncia: em nossos sonhos, expectativas, projetos socioprofissionais, relaes sociais, frustraes, prazeres, inseguranas, dores emocionais,
crises existenciais e todos os momentos de ousadia, solido, tranqilidade e de ansiedade que possumos. A escola da existncia envolve toda a trajetria de um ser
humano. Inicia-se na vida intra-uterina e termina no ltimo suspiro da existncia... Ela envolve no apenas os pensamentos e as emoes que manifestamos socialmente,
mas tambm o corpo de pensamentos e emoes represadas dentro de cada um de ns. Envolve as lgrimas no derramadas, os temores no expressos, as palavras no verbalizadas,
as inseguranas no comunicadas, os sonhos silenciosos. A escola da existncia  muito mais complexa e sofisticada do que a escola clssica (educacional). Na escola
clssica nos sentamos enfileirados; nela, infelizmente, somos freqentemente receptores passivos do conhecimento. E o conhecimento que recebemos tem pouca relao
com a nossa histria, no mximo tem relao com a nossa profisso. Na escola da existncia, porm, todos os eventos tm relao direta com a nossa histria. Na escola
clssica temos de resolver os problemas da matemtica; na da existncia temos de resolver os problemas da vida. Na escola clssica aprendemos as regras gramaticais;
na da existncia temos de aprender a difcil arte de dialogar. Na escola clssica temos de aprender a explorar o mundo em que estamos, ou seja, o pequeno tomo da
qumica e o imenso espao da fsica; na da existncia temos de aprender a explorar os territrios do mundo que somos. Portanto, a escola da existncia inclui a clssica
e vai muito alm dela. Um dos maiores erros educacionais da escola clssica  no ter como meta fundamental o preparo dos alunos para viver na sinuosa existncia.
A melhor escola clssica  aquela que constri uma ponte slida com a escola da vida. Boa parte das escolas clssicas se tornou um parntese dentro da escola da
existncia, no havendo comunicao entre elas. Numa escola clssica fechada, os alunos so presos numa bolha, numa redoma educacional, sem "anticorpos" intelectuais
para superar as contradies da existncia e amadurecer multifocalmente a inteligncia. Eles incorporam o conhecimento, mas raramente se tornam engenheiros de idias.
Tornam-se profissionais, mas poucos conhecem a cidadania e expandem a conscincia crtica. Na escola da existncia, a velhice no significa maturidade, os ttulos
acadmicos no significam sabedoria, o sucesso profissional no significa sucesso no prazer de viver. Nela, os parmetros so mais complexos.

As caractersticas da escola da existncia
A escola da existncia de Cristo possui caractersticas incomuns. Ela no  uma escola de pensamento, filosfica, de regras comportamentais, de ensino religioso-moralista
e nem de aperfeioamento de carter. O projeto de Cristo era muito mais complexo e ambicioso.

#As biografias de Cristo revelam que ele objetivava no reformar o homem, mas produzir uma transformao em seu interior, reorganizar intrinsecamente sua capacidade
de pensar e viver emoes. Cristo objetivava produzir um novo homem. Um homem solidrio, tolerante, que supera as ditaduras da inteligncia, que se vacina contra
a parania do individualismo, que aprende a cooperar mutuamente, que aprende a se conhecer, que considera a dor do outro, que aprende a perdo-lo, que se interioriza,
que se repensa, que se coloca como aprendiz diante da vida, que desenvolve a arte de pensar, que expande a arte de ouvir, que refina a arte da contemplao do belo.
Essas caractersticas sero estudadas nos captulos posteriores. Seria muito bom se pudssemos grav-las para entendermos melhor seu projeto. Creio que nunca algum
teve um projeto to audacioso e ambicioso como o de Cristo. Antes dele existiram algumas escolas na Grcia. A academia de Plato, o Liceu de Aristteles, as escolas
pssocrticas. Porm nenhuma possua um projeto to ambicioso e instigante como a escola da existncia de Cristo.  difcil deixar de reconhecer a dimenso do seu
propsito e como era um mestre especialista em desengessar a inteligncia das pessoas que conviviam com ele. Ao investig-lo, conclumos que ele no queria melhorar
o homem, mas mudar a sua natureza intrnseca51.  difcil dar nome ao projeto de Cristo. Alguns podem cham-lo de propsito ou de plano. No importa o nome que se
d. O importante  que possamos compreender que seu projeto era complexo, sofisticado, audacioso, multifocal, s vezes parecendo um hospital que tratava das misrias
humanas, mesmo as mais ocultas. Talvez por isso ele tenha se colocado como "mdico" que trata das mazelas interiores52. Outras vezes, ele se parecia com um restaurante
e com uma fonte de sentido existencial, que supre as necessidades humanas e propicia prazer. Talvez por isso cuidasse da fome fsica dos que o seguiam e tivesse
se colocado como o "po da vida", que supre as necessidades ntimas da emoo e do esprito humano53. E, ainda outras vezes, esse projeto se parecia com uma escola
que objetivava transformar o homem, expandir a sua inteligncia e modificar a sua maneira de pensar54. Talvez por isso ele tivesse se colocado como o messias, o
mestre que abre as janelas da mente e conduz o homem a pensar em outras possibilidades55. Devido  definio abrangente da escola da existncia que forneci no tpico
anterior, chamarei esse projeto de "a escola da existncia de Cristo". A escola de Cristo tm caractersticas inusitadas, peculiares, misteriosas, difceis de ser
compreendidas. A seguir, farei um comentrio sobre algumas dessas caractersticas.

O ambiente da escola da existncia
A escola da existncia de Cristo tinha muitas diferenas de uma escola clssica. No tinha muros nem espao fsico definido. Erguia-se nos lugares menos clssicos:
no deserto, na beira da praia, nos montes, nas sinagogas judias, no ptio do templo de Jerusalm, no interior das casas. Erguia-se tambm nas situaes menos clssicas:
nos jantares, nas festas, numa conversa informal. Cristo no tinha preconceito. Ele falava em qualquer ambiente com as pessoas. No perdia uma oportunidade para
conduzir o ser humano a se interiorizar. Por onde passava, atuava como mestre e iniciava sua escola. Nela no havia mesa, carteira, lousa, giz, computador ou tcnica
pedaggica. Sua tcnica eram suas prprias palavras, seus gestos e seus pensamentos. Sua pedagogia era sua histria e a maneira como abria as janelas da inteligncia
dos seus discpulos. O ttulo de mestre dos mestres da escola da existncia  merecido. Embora Cristo no tivesse preconceito contra ambiente para proferir suas
palavras, parece que preferia lugares abertos. No poucas vezes o cu era o teto da sua escola. As pessoas se assentavam ao seu redor para ouvi-lo. Ao ar livre ele
proferia eloqentemente suas palavras. Certamente, em algumas oportunidades, bradava em voz alta, devido ao nmero de pessoas reunidas ao seu redor.

#Cristo se mesclava com seus alunos, entrava na histria deles. No havia um fosso entre o mestre e seus alunos. As histrias deles se cruzavam. Por intermdio desse
viver ntimo e aberto ele os conquistava e conhecia as angstias e necessidades de cada um56. Aproveitava cada circunstncia, cada momento, cada erro e dificuldade
deles para conduzi-los a se repensar e reorganizar suas histrias.

A ausncia de hierarquia na escola da existncia: o pblico
Na escola de Cristo no h reis, polticos, intelectuais, iletrados, moralistas e imorais. Todos so apenas o que sempre foram, ou seja, seres humanos. Ningum est
um milmetro acima ou abaixo de ningum. Todos possuem uma relao fraternal de igualdade. Suas biografias evidenciam de forma clara que ele criticava contundentemente
qualquer tipo de discriminao. No projeto de Cristo todos possuem a mesma dignidade, no h hierarquia.  rarssimo haver um lugar onde as pessoas no sejam classificadas,
seja pela condio financeira, intelectual, esttica, fama ou qualquer outro tipo de parmetro. O homem facilmente vive a ditadura do preconceito. Uma das mais drsticas
e destrutivas doenas da humanidade  a ditadura do preconceito. Ela engessa a inteligncia e gera toda sorte de discriminao. A discriminao j arrancou lgrimas,
cultivou a injustia, distorceu o direito, fomentou o genocdio e muitas outras formas de violao dos direitos humanos. Para o mestre dos mestres, ningum  indigno
e desclassificado por qualquer condio ou situao. Uma prostituta tem o mesmo valor que algum moralista. Uma pessoa iletrada e sem qualquer tipo de cultura formal
tem o mesmo valor que um intelectual, um versado escriba. Uma pessoa excluda tem o mesmo valor que um rei... Cristo era to contra a discriminao que fazia com
que os moralistas da sua poca tivessem calafrios diante das suas palavras. Teve a coragem de dizer aos fariseus que os corruptos coletores de impostos e as meretrizes
os precederiam em seu reino57. Como  possvel os corruptos e as prostitutas precederem os fariseus to famosos e moralistas? Pela capacidade de se esvaziarem e
se colocarem como aprendizes em sua encantadora escola. Os coletores de impostos eram odiados e as prostitutas eram apedrejadas na poca. Todavia, o plano transcendental
de Cristo arrebata a psicologia humanista. Nele todos se tornam indistintamente seres humanos. Nunca algum considerou to dignas pessoas to indignas. Nunca algum
exaltou tanto pessoas to desprezadas. Nunca algum incluiu tanto pessoas to excludas.

#Cristo despertava a sede do saber. O bom e o excelente mestre
No devemos considerar Cristo como um pobre coitado e sofredor. Esse ttulo no o dignifica. Ele no era frgil, mas possua uma fora impressionante. Se h algum
que detinha uma coragem incomum, era Cristo. Ele no se calava nem mesmo quando enfrentava srios riscos de vida. Teve a intrepidez para enfrentar um mundo totalmente
contrrio ao seu pensamento. Teve a ousadia para enfrentar os ambientes pblicos mais hostis, determinao para enfrentar seus prprios medos e angstias. Discursou
nos territrios dos seus mais ardentes opositores58. Antes de ser crucificado, correu srios riscos de sofrer politraumatismos por apedrejamentos. Ele tambm no
agia inconsciente e inconseqentemente, mas tinha conscincia das conseqncias das suas palavras e das metas que queria atingir. Combinava a humildade e a tolerncia
com a ousadia e a determinao. Apreciava provocar a inteligncia das pessoas e mostrar o radicalismo delas. Cristo era um mestre cativante. Muitos corriam para
ouvi-lo, para serem ensinados por ele. Era diferente da grande maioria dos demais mestres, mesmo os da atualidade, que transmitem o conhecimento sem prazer e desafio,
transmitem o conhecimento pronto, acabado e despersonalizado, ou seja, sem comentar as dores, frustraes e aventuras que os pensadores viveram enquanto produziam.
Tal transmisso no provoca a inteligncia dos alunos, no os surpreende, no os tornam engenheiros de idias. Um bom mestre possui eloqncia, mas um excelente
mestre possui mais do que isso; possui a capacidade de surpreender seus alunos, instigar-lhes a inteligncia. Um bom mestre transmite o conhecimento com dedicao,
enquanto um excelente mestre estimula a arte de pensar. Um bom mestre procura pelos seus alunos porque quer educ-los, mas um excelente mestre lhes inspira tanto
a inteligncia que  procurado e apreciado por eles. Um bom mestre  valorizado e lembrado durante o tempo de escola, enquanto um excelente mestre jamais  esquecido,
marcando para sempre a histria dos seus alunos. Cristo instigava a inteligncia daqueles que conviviam com ele. Ele os inspirava na formao de engenheiros do pensamento.
No apenas seus pensamentos marcaram a histria dos seus ntimos, mas tambm os gestos e os momentos de silncio foram to eloqentes que modificaram a trajetria
da vida deles. Ele andava pelas cidades, vilas e lugarejos e proclamava o "reino dos cus" e o seu projeto de transformao interior. Suas biografias indicam que
falava de maneira arrebatadora. O seu falar despertava algo nas pessoas, uma sede interior. Embora fosse o carpinteiro de Nazar e andasse e se vestisse de modo
simples, seus ouvintes ficavam impressionados com a dimenso da sua eloqncia59. Com o decorrer dos meses, Cristo no precisava procurar as pessoas para falar-lhes.
O seu falar era to cativante que ele passou a ser procurado pelas multides. As pessoas se espremiam para ouvi-lo. Determinados grupos o apreciavam tanto que lhe
rogavam para que no se afastasse deles. Mas ele dizia que tinha de levar sua mensagem a outros locais. As multides o seguiam em lugares inspitos, desrticos,
onde corriam o risco at de morrer de fome60. Mesmo assim no desistiam, pagando qualquer preo para ouvi-lo. Isto  muito interessante. A maioria das pessoas daquela
poca no tinha cultura e provavelmente nenhum interesse para aprender nada alm do que trabalhar e sobreviver. Porm Cristo havia provocado uma fome ntima naquelas
pessoas que ultrapassava os limites da fome fsica.

#Cristo rompe a minha tese e o argumento de Will Durant
Quando as necessidades para financiar a sobrevivncia so grandes, as pessoas no tm interesse em desenvolver o pensamento. A este respeito h uma histria interessante
na histria da filosofia. Will Durant, autor do famoso livro Histria da filosofia, tenta justificar por que a Europa produziu qualitativamente mais pensadores na
literatura e na filosofia do que os EUA*. Ele comenta que "a Inglaterra precisou de oitocentos anos para ir de sua fundao at seu Shakespeare e que a Frana precisou
de oitocentos anos para ir da sua fundao ao seu Montaigne [...] tivemos de gastar nossas energias abrindo clareiras em nossas grandes florestas e extraindo a riqueza
do nosso solo; ainda no tivemos tempo de produzir uma literatura nacional e uma filosofia madura". A Inglaterra, a Frana e outros pases demoraram muitos sculos
para produzir um corpo de pensadores na filosofia, na literatura, nas artes etc. De fato, o pensamento filosfico na Europa  mais maduro do que nos EUA. Durant
justifica esse fato dizendo que a sociedade americana esteve muito ocupada nos ltimos sculos com suas necessidades de sobrevivncia, com o desenvolvimento social.
Embora no seja uma regra matemtica, a produo de pensadores tem determinada relao com o atendimento das necessidades bsicas de sobrevivncia, com o desenvolvimento
social. Primeiro devem ser atendidas as necessidades bsicas, para depois florescer um pensamento mais maduro e coletivo. Claro que o pensamento pode florescer individualmente
em meio a crises sociais, pobreza material, guerras etc. Entretanto, a formao de um corpo de pensadores est ligado ao desenvolvimento social. O pensamento se
comporta, s vezes, como vinho: quanto mais velho e amadurecido, melhor o paladar. O argumento de Durant, portanto, tem fundamento e vai ao encontro da tese que
abordei sobre a prevalncia do homem instintivo (animal) sobre o homem pensante nas situaes estressantes. As necessidades materiais bsicas que financiam a sobrevivncia,
como moradia, sade e alimentao, tendem a prevalecer sobre as necessidades psicolgicas. Quando as necessidades materiais bsicas so atendidas, elas tendem a
libertar o pensamento e expandi-lo para expressar a arte. A arte tem certa ligao com a dor, no com a da sobrevivncia, com a instintiva, mas com a dor das crises
existenciais, com a dor da alma, que envolve os conflitos psquicos e sociais. Raramente as pessoas se interessam em pensar quando precisam lutar para sobreviver.
Raramente o mundo das idias se expande quando o corpo  espremido pela dor da fome, quando a vida  castigada pela misria. Porm Cristo rompeu esse paradigma,
rompeu tanto minha tese como o argumento de Durant. Cristo brilhou na sua inteligncia, embora desde a infncia tivesse sido castigado pela misria. Alm disso,
o que  mais interessante, ele conduziu as pessoas da sua poca, to castigadas pela misria fsica e psicolgica, a ter uma fome do saber que transcendia as necessidades
bsicas de sobrevivncia. Na poca de Cristo, o povo de Israel vivia sob o domnio do Imprio Romano. Sobreviver era difcil. A fome e a misria faziam parte daquele
povo. A produo de alimentos era pouca e, ainda assim, as pessoas tinham de pagar pesados impostos, pois havia coletores (publicanos) espalhados por todo o territrio
de Israel. Se olharmos para a misria do povo Israel e para o jugo imposto pelo Imprio Romano, constataremos que Cristo no veio na melhor poca para expor seu
complexo e audacioso projeto para transformar o ser humano. Se tivesse vindo numa poca onde havia menos misria e o sistema de comunicao estivesse desenvolvido,
seu trabalho seria facilitado. Porm, h muitos pontos em sua vida, como esse, que fogem aos nossos conceitos: nasceu numa manjedoura, gostava de no se ostentar,
escolheu uma equipe de discpulos totalmente desqualificada, silenciou-se em seu julgamento. As pessoas na poca de Cristo estavam preocupadas em comer po e no
em pensar, porm descobriram que no s de po viver o homem.

#Os fariseus e os sacerdotes no tinham qualquer brilho na poca. Cristo brilhou num ambiente em que raramente era possvel brilhar. Embora naquele perodo as pessoas
tivessem todos os motivos para no se interiorizar, elas abandonavam as suas casas e o pouco que tinham e iam para as regies desrticas para ouvir as palavras sofisticadas
e incomuns desse atraente mestre.  difcil encontrar uma pessoa intelectualmente atraente e interessante nas sociedades modernas. Para tornar as pessoas atraentes,
a mdia tem de "maqui-las", dar colorido s suas palavras e gestos. Todavia, o carpinteiro de Nazar era um homem que atraa multides sem precisar de nenhuma publicidade.
Algumas vezes, as pessoas viajavam durante vrios dias, tendo de dormir ao relento para ouvi-lo. O estranho  que Cristo no prometia uma vida fcil e nem fartura
material. No prometia um reino poltico e nem uma terra da qual manava leite e mel, como Moiss. Ele discursava sobre uma outra esfera, um reino dentro do homem,
que implicava um processo de transformao ntima. As pessoas no possuam despertador, mas levantavam muito cedo para procur-lo. Creio que muitas tinham insnia
de to intrigadas que ficavam com os pensamentos de Cristo. Alguns textos dizem que as multides nem mesmo esperavam o sol raiar para procur-lo61. Dificilmente
houve na histria um mestre to cativante como ele. Embora no tivesse local definido para se encontrar com as pessoas, elas se encarregavam de achlo. Sob o impacto
das suas palavras, eram estimuladas a se repensar e a pensar nos mistrios da existncia. O pensamento no estava institucionalizado, todos eram livres para ouvi-lo
e aprender, apesar das dificuldades que atravessavam. Cristo tinha tanto coragem para expor seus pensamentos como para permitir que as pessoas o abandonassem. 
muito difcil reunir essas duas caractersticas numa mesma pessoa. Quem tem coragem para expor seus pensamentos geralmente controla as pessoas que o seguem e restringe-lhes
a liberdade. Mas Cristo era diferente. Um dia ele chegou diante dos seus discpulos e deu plena liberdade para que eles o deixassem62. At os indagou: "Vocs querem
me abandonar?". Sua capacidade para expor os pensamentos e no imp-los  singular. Ele apenas fazia convites que ecoavam naqueles ares: "Quem tem sede venha a mim
e beba"63. O registro em Mateus 4 mostra-nos que quando Cristo estava caminhando junto ao mar da Galilia, ele viu Pedro, Andr, Tiago e Joo que estavam pescando
ou remendando redes. Ento, os chamou, dizendo: "Vinde aps mim!". Imediatamente eles o seguiram, deixando seus barcos e suas atividades. At hoje tenho dificuldade
para compreender por que quando ele simplesmente disse "Vinde aps mim", os discpulos imediatamente reagiram e o seguiram. Havia um intenso carisma nas palavras
e no semblante daquele mestre que atraa as pessoas. Cristo cativou tanto as pessoas que elas no conseguiam aceitar a hiptese de separarem-se dele. Quando ele
foi crucificado, elas batiam no peito inconformadas64. Talvez dissessem consigo mesmas: como pode algum que mudou nossas vidas e nos deu um novo sentido existencial
passar por uma morte to dolorosa e ultrajante? Como pode algum to inteligente e poderoso no ter usado sua fora e capacidade intelectual para escapar do prprio
julgamento? Era muito difcil para elas compreenderem as conseqncias e as implicaes da crucificao de Cristo.

O processo de interiorizao nas sociedades modernas
Atualmente perdemos o prazer pelo processo de interiorizao. Multiplicaram-se as escolas e o acesso s informaes, mas no multiplicamos a formao de pensadores.

#Hoje, freqentemente, as pessoas s so motivadas a aprender porque assim usam o conhecimento como ferramenta profissionalizante. Se retirssemos o ttulo profissional
e a possibilidade de aferir lucro com a aquisio do conhecimento, as universidades morreriam, o conhecimento seria enterrado! O deleite de apreender e de se tornar
um engenheiro de idias est cambaleante nas sociedades modernas. Eles foram substitudos, como veremos nos prximos textos, pela parania do consumismo, da esttica,
da competio predatria. No h dvida que diversas pessoas o seguiam para atender s suas necessidades bsicas e contemplar os seus atos sobrenaturais. Cristo
tinha conscincia disso65. Porm, muitas o seguiam porque foram despertadas por ele, descobriram o prazer de aprender. Plato falou do deleite do processo de aprendizado*.
Se ele estivesse vivo na poca de Cristo, provavelmente seria ntimo dele, ficaria encantado com a habilidade do mestre de Nazar em conduzir as pessoas desprovidas
de qualquer cultura a romper com a mesmice da rotina existencial e ter sede de se interiorizar. O projeto de Cristo era surpreendente. Sob sua influncia, as pessoas
se tornaram caminhantes nas trajetrias do seu prprio ser. Sob o cuidado desse mestre aprenderam a criar razes dentro de si mesmas, aprenderam a ver a vida sob
outra perspectiva e a cultivar um sentido nobre para ela, mesmo diante das suas misrias e das dores existenciais.

Desobstruindo a inteligncia
Colocar-se como aprendiz diante da vida profissional, social e intelectual  uma verdadeira arte da inteligncia. Uma pessoa que possui essa caracterstica  sempre
criativa, lcida e brilhante intelectualmente. Est se esvaziando de maneira contnua dos seus preconceitos e enxergando a vida de diferentes ngulos. Por outro
lado, uma pessoa que se sente interiormente abastada est sempre tensa, entediada e envelhecida intelectualmente. Faz bem  sade do crebro e  sade psquica colocar-se
como aprendiz diante da existncia. Essa caracterstica no tem relao matemtica com a idade. H jovens que so velhos, pois so engessados e rgidos intelectualmente.
H velhos que so jovens, pois so livres e esto sempre dispostos a aprender. Tal caracterstica  mais importante do que ser um gnio.  possvel ser um gnio
e ser apenas um mero ba de informaes, sem nenhuma criatividade. Se observarmos a histria dos homens que mais brilharam em suas inteligncias, constataremos que
a curiosidade, o desafio, a ousadia, a sede de aprender, que constituem a capacidade de se colocar como aprendiz diante dos eventos da vida, eram seus segredos.
Muitos pensadores foram mais produtivos quando ainda eram imaturos, pois tinham preservadas essas caractersticas. Nessa fase, embora tivessem os problemas ligados
 imaturidade intelectual, estavam mais abertos para o aprendizado. Todavia, quando conquistaram status, fama, prestgio social e, ao mesmo tempo, abandonaram a
postura de aprendizes, arruinaram-se intelectualmente. Quem se contamina com o vrus da auto-suficincia diminui a sua produo intelectual. Quem se embriaga com
o orgulho est condenado  infantilidade emocional e  pobreza intelectual, alm de fazer da sua vida uma fonte de ansiedade. O orgulho gera muitos filhos, um dos
quais  a dificuldade de reconhecimento de erros e uma necessidade compulsiva de estar sempre certo. Aquele que recicla seu orgulho e se liberta do jugo de estar
sempre certo transita pela vida com mais tranqilidade. A pessoa que reconhece suas limitaes  mais madura do que a que se senta no trono da verdade... Um dos
maiores problemas educacionais  fazer um mestre se posicionar continuamente como aluno e fazer um aluno nunca deixar sua condio de aprendiz. Muitos profissionais
liberais e executivos se tornam estreis com o decorrer do tempo, pois se fecham dentro de si mesmos, engessam sua inteligncia com as amarras da auto-suficincia
e independncia exagerada.

#Muitos cientistas so produtivos quando esto no incio de suas carreiras. Entretanto,  medida que sobem na hierarquia acadmica e supervalorizam os ttulos, tm
grande dificuldade de produzir novas idias. Os jornalistas, os professores, os mdicos, os psiclogos, enfim toda e qualquer pessoa que no recicla a auto-suficincia,
aprisiona o pensamento e aborta a criatividade.  provvel que muitos de ns estejamos intelectualmente estreis e no tenhamos conscincia disso, pois temos dificuldade
de nos interiorizar e repensar nossa histria. Cristo provocava continuamente a inteligncia dos seus discpulos e os estimulava a abrir as janelas de suas mentes.
Os pensamentos dele eram novos e originais e iam contra todos os paradigmas desses discpulos, contra tudo o que tinham aprendido como modelo de vida. Por isso,
tinha um grande desafio pela frente. Precisava romper-lhes a rigidez intelectual e conduzi-los a se colocar como aprendizes diante da sinuosa e turbulenta trajetria
de vida. Quem ele escolheu para ser seus discpulos? Os intelectuais ou os iletrados? Estranhamente, Cristo no escolheu para ser seus discpulos e, conseqentemente,
para revelar seu propsito e executar seu projeto um grupo de intelectuais da poca, representado pelos escribas e fariseus. Esses tinham a grande vantagem de possurem
uma cultura milenar e uma refinada capacidade de raciocinar. Alm disso, havia alguns que o admiravam muito. Porm pesava contra eles o orgulho, a auto-suficincia
e a rigidez intelectual, o que impedia que se abrissem para outras possibilidades de pensar.

O orgulho e a auto-suficincia infectam a sabedoria e a arte de pensar
O orgulho e a auto-suficincia dos escribas e fariseus obstruam suas inteligncias e os encerravam num crcere intelectual. Na escola de Cristo, o orgulho e a auto-suficincia
infectam a sabedoria e abortam a arte de pensar. Nela, ningum se diploma, todos so "eternos" aprendizes. Todos devem ter a postura intelectual como a de uma criana,
que  aberta, despreconceituosa e com grande disposio para aprender66. Cristo demonstrava que precisava mais do que admiradores e simpatizantes de sua causa, precisava
de uma mente aberta, de um esprito livre e sedento. Ele no desistiu dos escribas e fariseus, mas em vez de insistir com eles, preferiu comear tudo de novo, procurou
um grupo de pessoas aparentemente desqualificadas para executar um projeto mais profundo, transcendental. Escolheu um grupo de incultos pescadores que provavelmente
no conhecia nada alm dos limites do mar da Galilia, um bando de jovens que nunca pensou em caminhar dentro de si mesmo e em desenvolver a arte de pensar, um grupo
de pessoas que nunca pensou mais profundamente sobre os mistrios da existncia, que nunca sonhou em ser mais do que simples pescadores ou ser coletores de impostos
que contribuam para a sustentao do Imprio Romano. O mundo intelectual e espiritual daqueles jovens era muito pequeno. Todavia, um mestre intrigante passou por
eles, abriu as suas mentes e despertou neles um esprito sedento, que mudaria para sempre suas trajetrias de vida. Cristo tomou uma atitude arriscada, corajosa
e desafiadora. Ele teve uma escolha incomum para levar a cabo o seu complexo desejo. Escolheu um grupo de homens iletrados e sem grandes virtudes intelectuais para
transform-los em engenheiros da inteligncia e torn-los propagadores (apstolos) de um plano que abalaria o mundo, atravessaria os sculos e conquistaria centenas
de milhes de pessoas de todos os nveis culturais, sociais e econmicos...

#Os princpios da matemtica emocional
Muitos investem boa parte de sua energia fsica e psicolgica em aplicar seu dinheiro nas bolsas de valores, em adquirir bens materiais, em ter um carro do ltimo
tipo, em adquirir um bom plano de previdncia. A segurana financeira  legtima, mas  totalmente insuficiente para satisfazer as necessidades mais ntimas do homem,
para dar sentido  sua existncia, enriquecer seu prazer de viver e amadurecer sua personalidade. Tratei de diversas pessoas com transtornos depressivos que eram
financeiramente ricas, mas que tinham perdido o encanto pela vida. Vrias comentaram que sentiam inveja de pessoas simples, pois embora no tivessem cultura nem
suporte financeiro, elas sorriam diante dos pequenos eventos da vida. Lembro-me de um grande empresrio agroindustrial que me disse que alguns dos seus empregados
cortadores de cana eram mais ricos do que ele, pois, mesmo diante da misria material, conseguiam cantar e se alegrar enquanto trabalhavam. De fato, h miserveis
que moram em palcios e ricos que moram em favelas... No estou fazendo uma apologia  misria, pelo contrrio, a misria em todos os sentidos deveria ser extirpada
das sociedades, mas quero dizer que a psique humana  to complexa que desobedece s regras da matemtica financeira. A matemtica emocional tem, felizmente, princpios
que ultrapassam os limites da matemtica lgica, financeira. Ter no  ser. Quem tem dez casas no tem dez vezes mais prazer pela vida ou dez vezes mais segurana
emocional do que quem tem um casebre. Quem tem 1 milho de dlares no  milhares de vezes mais alegre do que quem tem alguns mseros trocados.  possvel ter muito
financeiramente e ser emocionalmente triste, infeliz.  possvel ter riquezas materiais e baixa capacidade de contemplao do belo. A matemtica emocional pode inverter
os princpios da matemtica financeira, principalmente se algum aprender a investir em sabedoria. O processo da construo da inteligncia  um espetculo to sofisticado
que possui atos inesperados e cenas imprevisveis ao longo da vida. Todos comentam sobre a misria fsica porque  perceptvel aos olhos, mas raramente se comenta
sobre a misria emocional, que abate o nimo e restringe o prazer da existncia. A temporalidade da vida  muito curta. Num instante somos jovens e em outro somos
velhos. As crianas gostam de fazer aniversrio. Quando chega a maturidade, queremos parar o tempo, mas ele no pra. A brevidade da vida deveria nos fazer procurar
a sabedoria e dar um sentido mais rico para a existncia, caso contrrio, o tdio e a angstia sero parceiros ntimos de nossa trajetria.

Investindo em sabedoria: as dores da existncia sob outra perspectiva
Cristo objetivava que seus discpulos se tornassem grandes investidores em sabedoria. Ele no queria que o ser humano tivesse uma meta existencial pobre e superficial.
Ao investigarmos sua histria, constatamos que para ele cada ser humano era um ser mpar e deveria viver sua vida como um espetculo singular. Por isso, ele aproveitava
cada oportunidade para treinar seus discpulos a crescer diante das limitaes e das fragilidades humanas67. Procurava abrir-lhes o horizonte intelectual para que
pudessem ver os sofrimentos sob outra perspectiva.

#As dores da existncia, tanto as fsicas quanto, principalmente, as psicolgicas, deveriam ser aliviadas. Todavia, para Cristo, elas deveriam ser usadas para lapidar
as arestas da personalidade. O ser humano aprende facilmente a lidar com seus sucessos e ganhos, mas tem grande dificuldade de aprender a lidar com seus fracassos
e perdas. Vivemos em sociedades que negam as dores da existncia e superdimensionam a busca pelo sucesso. Qualquer pessoa aprende a lidar bem com as primaveras da
vida, mas s os sbios aprendem a viver com dignidade nos invernos existenciais... O fato de sermos seres que pensam e tm conscincia nos torna uma espcie muito
complexa e, por vezes, complicada. Uma espcie que constri seus prprios inimigos. A cada momento penetramos nos labirintos da memria e construmos ricas cadeias
de pensamentos sem saber como encontrarmos os endereos das informaes na memria. Pensar  um espetculo. Porm, pode ser tanto um espetculo de prazer como de
terror. Se o mundo das idias que construmos no palco de nossas mentes  negativo, fazemos de nossas vidas um espetculo de angstia, ainda que possamos ter privilgios
exteriores. Freqentemente, o homem  o maior algoz de si mesmo. Muitos sofrem por antecipao, fazem o "velrio antes do tempo". Os problemas ainda no ocorreram,
e eles j esto sofrendo antecipadamente. Outros ruminam o passado e mergulham numa esfera de sentimento de culpa. O peso da culpa est sempre ferindo-os. Outros,
ainda, se autodestroem pela hipersensibilidade emocional que possuem; pequenos problemas tm um eco intenso dentro deles. As pessoas hipersensveis costumam ser
timas para os outros, mas pssimas para si mesmas. Quando algum as ofende, estraga o seu dia e, s vezes, at sua semana. Assim, para essas pessoas, a magnfica
construo de pensamentos deixa de ser um espetculo de entretenimento para ser uma fonte de ansiedade. Se no reciclarmos as idias de contedo negativo, no trabalharmos
o sentimento de culpa e repensarmos a hipersensibilidade emocional, facilmente desenvolveremos depresso ou stress acompanhado de sintomas psicossomticos. Pensar
no  uma opo do homem. Pensar, como vimos,  um processo inevitvel. Ningum consegue interromper o fluxo de pensamentos, mas  possvel gerenciar com determinada
maturidade os pensamentos e as emoes, caso contrrio nos tornamos vtimas de nossa prpria histria. Se o homem no for o agente modificador de sua histria, se
no a reescrever com maturidade, certamente ser vtima dos invernos existenciais. Reescrever a histria  o papel fundamental do homem. Precisamos incorporar a
necessidade desse capital intelectual.

Cristo destilava sabedoria da sua misria...
Cristo estava sempre conduzindo as pessoas a reescrever suas histrias e a no ser vtimas das intempries sociais e dos sofrimentos que viviam. Ele se preocupava
com o desenvolvimento das funes mais altrustas da inteligncia. Desejava que elas tivessem domnio prprio, administrassem os pensamentos e aprendessem a trafegar
nas avenidas da perseverana diante das dificuldades da vida. Cristo foi ofendido diversas vezes, porm sabia proteger a sua emoo. Alguns fariseus diziam que ele
era o principal dos demnios. Para algum que se colocava como o "Cristo", essa ofensa era muito grave. Todavia, as ofensas no o atingiam. Somente uma pessoa forte
e livre  capaz de refletir sobre as ofensas e no ser ferida por elas. Cristo era forte e livre em seus pensamentos, por isso podia dar respostas excepcionais em
situaes em que dificilmente havia espao para pensar, em situaes em que facilmente a ira nos invadiria. Nem mesmo a possibilidade de ser preso e morto a qualquer
momento parecia perturb-lo. Ele transcendia as situaes que normalmente nos sobrecarregariam de ansiedade. Tinha muitos opositores, todavia manifestava com ousadia
seus pensamentos em pblico. Tinha todos os motivos para ter insnia. Contudo, parecia que no perdia noite de sono, dormindo at em situaes turbulentas.

#Certa vez, os discpulos, que eram pescadores e, portanto, especialistas em mar, ficaram intensamente apavorados diante de uma grande turbulncia martima. Enquanto
os discpulos estavam desesperados, Cristo dormia. Ele no era pescador nem estava acostumado a viajar de barco. Quem no est acostumado a navegar, geralmente sente
enjo na viagem, principalmente se o mar estiver agitado. Desesperados, eles o despertaram. Acordado, ele censurou o medo e a ansiedade deles e com um gesto acalmou
a tempestade. Os discpulos, mais uma vez intrigados, perguntavam entre si: "Quem  este que at o vento e o mar lhe obedecem...?"68. O que quero comentar aqui no
 o ato sobrenatural de Cristo, mas a tranqilidade que demonstrava diante das situaes em que o desespero imperava. Ele agia com serenidade quando todos ficavam
apavorados. Preservava sua emoo das contrariedades. Muitos fazem de suas emoes um depsito de lixo. No filtram os problemas, as ofensas, as dificuldades que
atravessam, pelo contrrio, elas entram dentro de si com extrema facilidade, gerando angstia e stress. Todavia, Cristo no se deixava invadir pelas turbulncias
da vida. Ele administrava a sua emoo com exmia habilidade, pois filtrava os estmulos angustiantes, estressantes. No apenas o medo no fazia parte do seu dicionrio
da vida, mas tambm o desespero, a ansiedade, a insegurana e a instabilidade. Os discpulos contemplavam seu mestre atenta e embevecidamente e, assim, pouco a pouco,
aprendiam com ele a ser fortes e livres interiormente, bem como a ser seguros, tranqilos e estveis nas situaes tensas. Todos elogiam a primavera e esperam ansiosamente
por ela, pois pensam que as flores surgem nessa poca do ano. Na realidade, as flores surgem no inverno, ainda que clandestinamente, e se manifestam na primavera.
A escassez hdrica, o frio, a baixa luminosidade, pertinentes ao inverno, castigam as plantas, levando-as a produzir metabolicamente as flores que desabrocharo
na primavera. As flores contm as sementes, e as sementes expressam uma tentativa de continuao do ciclo da vida das plantas diante das intempries que atravessaram
no inverno. O caos do inverno  responsvel pelas flores da primavera. Ao analisar a histria de Cristo, fica visvel que os invernos existenciais pelos quais ele
passava no o destruam, pelo contrrio, geravam nele uma bela primavera existencial, expressa por sua sabedoria, amabilidade, tranqilidade, tolerncia, capacidade
de compreender e superar os conflitos humanos.

Todo ser humano passa por invernos existenciais
Toda e qualquer pessoa passa por turbulncias em sua vida. As dores geradas por problemas externos ou por fatores internos so os fenmenos mais democrticos da
existncia. Um rei pode no ter problemas financeiros, mas tem problemas internos. A princesa Diana era elegante e humanstica e no atravessava problemas financeiros,
mas, pelo que consta, possua dores emocionais intensas, sofria crises depressivas. Talvez sofria mais do que muitos miserveis da frica ou do Nordeste brasileiro.
As pessoas que passam pelas dores existenciais e as superam com dignidade ficam mais bonitas e interessantes interiormente. Quem passou pelo caos da depresso, da
sndrome do pnico ou de outras doenas psquicas e o superou, se tornou mais rico, belo e sbio. A sabedoria torna as pessoas mais atraentes, ainda que o tempo
sulque a pele e traga as marcas da velhice. Uma pessoa que tem medo do medo, medo da sua depresso, das suas misrias psquicas e sociais, tem menos equipamento
intelectual para super-las. O medo alimenta a dor... Aprender a enfrentar o medo, a atuar com segurana nos sofrimentos e a reciclar as causas que financiam os
conflitos humanos conduz uma pessoa a reescrever sua histria.

#Todos gostamos de viver as primaveras da vida, viver uma vida com prazer, com sentido, sem tdio, sem turbulncias, onde os sonhos se tornem realidade e o sucesso
bata s nossas portas. Entretanto, no h um ser humano que no atravesse invernos existenciais. Algumas perdas e frustraes que vivemos so imprevisveis e inevitveis.
Quem consegue evitar todas as dores da existncia? Quem nunca teve momentos de fragilidade e chorou lgrimas midas ou secas? Quem consegue evitar todos os erros
e fracassos? O homem, por mais prevenido que seja, no consegue controlar todas as variveis da vida e evitar determinadas angstias. Todos passamos por focos de
tenso. As preocupaes existenciais, os desafios profissionais, os compromissos sociais e os problemas nas relaes interpessoais geram continuamente focos de tenso
que, por sua vez, geram stress e ansiedade. Os focos de tenso podem exercer um controle sobre a inteligncia que nos impede de ser livres, tanto na construo quanto
no gerenciamento dos pensamentos. s vezes, a atuao dos focos de tenso  to dramtica que exerce uma verdadeira ditadura sobre a inteligncia. Quem cuida apenas
da esttica do corpo e descuida do enriquecimento interior vive a pior solido, a de ter abandonado a si mesmo em sua trajetria existencial. As pessoas que vivem
preocupadas com cada grama de peso fazem de suas vidas uma fonte de ansiedade. Elas tm grande dificuldade de superar as contrariedades, as contradies e os focos
de tenso que surgem na trajetria existencial. A ditadura dos focos de tenso torna o ser humano uma vtima de sua histria, e no um agente construtor dela, um
autor que reescreve seus principais captulos.  mais fcil o homem ser vtima do que autor de sua histria. Muitas pessoas so marionetes das circunstncias da
vida, no conseguindo redirecionar e repensar suas histrias... Cristo via as dores da vida sob outra perspectiva. Enfrentava as contrariedades sem desespero, no
tinha medo da dor nem das frustraes pelas quais passava. Muitos o decepcionavam, at os seus ntimos discpulos o frustravam, mas ele absorvia aquelas frustraes
com tranqilidade. Como mestre da escola da existncia, treinava continuamente seus discpulos a superarem seus focos de tenso, a enfrentarem seus medos e seus
fracassos. Assim, poderiam reescrever suas histrias e corrigir suas rotas com maturidade. Certo dia, Jesus teve um dilogo curto e cheio de significado com seus
discpulos. Disse: "No mundo passais por vrias aflies, mas tende bom nimo, pois eu venci o mundo". Ele reconheceu que a vida humana  sinuosa e possui turbulncias
inevitveis, encorajou seus ntimos a no se intimidar diante das aflies da existncia, mas a se equipar com nimo e determinao para super-las. Disse que tinha
vencido o mundo, tinha vencido as intempries da vida, o que indica que ele vivia sua vida, no de qualquer maneira, mas com conscincia, com metas bem estabelecidas,
como se fosse um atleta.

Produzindo uma escola de sbios
Cristo teve um nascimento indigno, e os animais foram suas primeiras visitas. Provavelmente, at as crianas mais pobres tm um nascimento mais digno do que ele.
Quando tinha dois anos, deveria estar brincando, mas j atravessava grandes problemas. Era perseguido de morte por Herodes. Dificilmente uma criana frgil e inocente
foi to perseguida como ele. Fugiu com seus pais para o Egito, fez longas jornadas desconfortveis, a p ou no lombo de animais; tinha uma inteligncia incomum para
um adolescente, sendo admirado aos doze anos por intelectuais da poca. Todavia, tornou-se um carpinteiro, tendo de labutar para sobreviver.

#Quando manifestou seus pensamentos ao mundo, causou grande turbulncia. Foi amado por muitos, mas na mesma proporo foi perseguido, rejeitado e odiado pelos homens
que detinham o poder poltico e religioso de sua poca. Foi incompreendido, rejeitado, esbofeteado, cuspido e ferido fsica e psicologicamente. Cristo tinha todos
os motivos para ser tenso, irritado, angustiado, revoltado. Em vez disso, expressava tranqilidade, capacidade de amar, de tolerar, de superar seus focos de tenso
e, como disse, at de fazer poesia da sua misria. Apesar de passar por tantas dificuldades ao longo de sua vida, era uma pessoa alegre. Talvez no manifestasse
largos e fartos sorrisos, mas era alegre no seu interior, provavelmente mais do que possamos imaginar. Logo antes do seu martrio, manifestou que os discpulos deveriam
provar da alegria que ele possua, da alegria completa69. Muitos tm bons motivos para ser felizes, mas esto sempre insatisfeitos, descontentes com o que so e
possuem. Todavia, Cristo, apesar de ter todos os motivos para ser uma pessoa triste, se mostrava feliz e sereno. Como  possvel algum que sofreu tanto desde a
infncia mostrar-se to tranqilo, capaz de no perder a pacincia quando contrariado e superar as contrariedades da vida com serenidade? Como  possvel algum
que foi to rejeitado e incompreendido manifestar que no apenas era alegre, mas que tambm possua uma fonte de alegria que poderia propiciar ao homem prazer e
sentido existencial pleno? Cristo era um grande investidor em sabedoria. Seus sofrimentos o tornavam mais tranqilo ao invs de mais tenso. As dores no o desanimavam
nem causavam conflitos psquicos como normalmente ocorre conosco. Cristo demonstrava ser um excelente gerente dos seus pensamentos. Pela maneira como se comportava,
pode-se concluir que quando passava por frustraes e contrariedades, no gravitava em torno do estmulo estressante. Conseqentemente, seus pensamentos no ficavam
hiperacelerados, mas aquietavam-se no palco de sua mente. Isso facilitava que ele os administrasse e produzisse respostas calmas e inteligentes em situaes tensas.
 difcil construir uma histria de prazer quando nossas vidas transcorrem num deserto.  difcil nos doarmos sem esperar o retorno das pessoas, no sofrermos quando
elas no correspondem s nossas expectativas.  igualmente difcil administrarmos os pensamentos nos focos de tenso. No conheo um psiquiatra ou psiclogo que
tenha capacidade de preservar sua emoo de estresses e investir em sabedoria como Cristo. Ele foi o mestre dos mestres numa escola onde muitos intelectuais se comportam
como pequenos alunos. Cristo no queria fundar uma corrente de pensamento psicolgico. Seu projeto era muito mais ambicioso e sofisticado do que uma corrente de
pensamento. Entretanto, sua psicologia tinha uma complexidade mpar. A psicologia clssica nasceu como cincia h cerca de um sculo, mas Cristo, h cerca de vinte
sculos, exercia uma psicologia preventiva e educacional no mais alto nvel. Os discpulos aprenderam, pouco a pouco, a lidar com maturidade com seus sentimentos
de culpa, com seus erros, com as suas dificuldades; a transitar com dignidade pelos seus invernos existenciais. Compreenderam que seu mestre no exigia que fossem
super-homens, que no fracassassem, no atravessassem dificuldades e nem tivessem momentos de hesitao, mas que aprendessem a ser fiis  sua prpria conscincia,
que se colocassem como aprendizes diante da vida e se transformassem paulatinamente. A esse respeito, o mestre contou uma histria sobre um homem que encontrou uma
prola preciosssima. Esse homem vendeu tudo o que tinha para adquiri-la70. O ato de vender, aqui, no  algo literal, no significa vender os bens materiais, mas
desobstruir a inteligncia, o esprito humano, desfazer-se das coisas inteis, para que pudesse adquirir essa prola dentro de si mesmo. H muitos significados para
essa prola, sendo um deles a sabedoria, ligada ao seu projeto transcendental. Est correto o que o inteligente rei Salomo disse a respeito dela: "Feliz o homem
que encontra a sabedoria... porque melhor  o lucro que ela d do que o da prata, melhor a sua renda do que o ouro mais fino"71.

#Nas salas de aula das escolas clssicas, se os alunos ficarem em silncio j  uma grande vitria. Se tambm incorporarem o conhecimento e forem bem nas provas,
pode-se dizer que houve um grande xito. E ainda se forem criativos e aprenderem algumas lies de cidadania, isso seria o mximo do xito educacional. Na escola
da existncia de Cristo a exigncia era muito maior. No bastava conquistar essas funes da inteligncia; era necessrio investir em sabedoria, gerenciar os pensamentos
nos focos de tenso, enfrentar o medo, usar seus erros e fracassos como fator de crescimento, reescrever suas histrias. Cristo colocou seus discpulos numa escola
de sbios. Sbios que foram comuns por fora, mas especiais por dentro. Sbios que viveram uma vida plena, ainda que fosse simples exteriormente...

#Usando a arte da pergunta e da dvida
Estudar a ousada, criativa e elegante inteligncia de Cristo poderia expandir a arte de pensar dos estudantes de qualquer idade e nvel escolar, do ensino fundamental
ao universitrio. Entre as habilidades da sua inteligncia esto a arte da pergunta e da dvida. Grande parte dos alunos das escolas clssicas no desenvolve a arte
da pergunta e da dvida. Eles tm receio de perguntar, de expor suas dvidas e de discutir abertamente o conhecimento que lhes so transmitidos. Dois ou trs anos
que os alunos ficam enfileirados numa sala de aula sem ser estimulados a expandir a arte da pergunta e da dvida so suficientes para causar uma seqela intelectual
que os deixar inibidos a vida toda. Eles nunca mais, mesmo quando adultos, conseguiro fazer perguntas e questionamentos sem um grande desconforto, principalmente
quando estiverem em pblico. Alguns, ao estender a mo para perguntar em pblico, suam frio, ficam com a boca seca e tm at taquicardia. A grande maioria de ns
possui essa seqela causada ou perpetuada por princpios de uma educao que se arrasta por sculos. Qual o leitor que no sente desconforto emocional para fazer
perguntas em pblico? Muitos, apesar de inteligentes, possuem tanta inibio social que durante toda a vida jamais faro tais perguntas, prejudicando, com isso,
seus desempenhos sociais e profissionais. A escola clssica precisa reverter esse processo. Os princpios da inteligncia de Cristo podem contribuir muito para isso.
O incentivo que se d  arte da pergunta e  arte da dvida  to frgil nas escolas clssicas que  insuficiente para estimular a arte de pensar. O deleite do saber
est reduzido. A resposta  oferecida de maneira pronta, elaborada. A resposta pronta esmaga a arte da pergunta, retrai a arte da dvida, esgota a curiosidade e
a criatividade. O que  mais importante: a resposta ou a dvida? Num primeiro momento, sempre  a dvida. Ela nos esvazia e estimula o pensamento. O que determina
o tamanho da resposta  o tamanho da dvida. Qualquer computador pode oferecer milhes de respostas, mas nenhum deles jamais conseguir desenvolver qualquer tipo
de dvida, possuir qualquer momento de hesitao. Os computadores so meros escravos de estmulos programados. A criana abandonada, que perambula pelas ruas, produz
fenmenos psicolgicos dirios, tais como os ligados com a dvida e a curiosidade, que os computadores jamais conseguiro produzir. O maior trabalho de um mestre
no  fornecer respostas, mas estimular seus alunos a desenvolver a arte de pensar. Todavia, no h como estimul-los a pensar se no aprenderem sistematicamente
a perguntar e duvidar. Cristo era um exmio perguntador. Era um mestre que estimulava continuamente as pessoas a duvidar dos seus dogmas e a desenvolver novas possibilidades
de pensar. Quem analisar com ateno as suas biografias descobrir essa caracterstica de sua personalidade. s vezes, ele mais perguntava do que respondia. H vrias
situaes em que respondia as perguntas no com respostas, mas com novas perguntas72. Como Cristo poderia abrir as janelas da mente das pessoas para um projeto to
sofisticado como o seu, que implicava uma verdadeira revoluo interior? Ele precisava libertar o pensamento para que as pessoas, principalmente aquelas de mente
aberta e esprito sedento, pudessem compreend-lo. Sabia que a arte da pergunta gerava a arte da dvida e que a dvida rompia o crcere intelectual, abrindo os horizontes
do pensamento. Seu procedimento intelectual supera com vantagens as tcnicas propostas por muitas teorias educacionais. Certa vez, Cristo perguntou aos seus discpulos:
"Que diz o povo que eu sou?". Ele sabia o que o povo dizia dele, mas fazia perguntas para estimular seus discpulos a pensarem. Outra vez, perguntou  mulher adltera:
"Mulher, onde esto os seus acusadores?". Ele sabia que os acusadores j haviam se retirado do ambiente, pois ficaram perturbados diante da sua inteligncia, mas
queria que aquela mulher se interiorizasse e refletisse sobre a histria dela.

#Um dia, os fariseus perguntaram sobre sua origem, pois queriam conden-lo atravs de suas prprias palavras. E como Cristo conhecia a inteno deles, respondeu
com outra pergunta referente  origem de Joo Batista. Para cortar as razes da hipocrisia dos seus acusadores, ele os conduziu a falar sobre seu famoso precursor,
aquele que todo o povo considerava como profeta. Se os fariseus negassem a Joo, o povo se revoltaria contra eles; se o reconhecessem, teriam que aceitar o mestre
que ele anunciava, Cristo. Ento, constrangidos, preferiram se omitir e disseram que no sabiam. Com isso, Cristo, que estava numa situao delicada e no gostava
de se ostentar, se sentiu desobrigado a no responder sobre sua origem. Assim, como muitas vezes fez, ele chocou a inteligncia dos fariseus com a arte da pergunta.
Muitos ficaram admirados com sua sabedoria. Cristo constantemente propunha parbolas. Ele se preocupava mais com a arte da pergunta do que em satisfazer a ansiedade
da resposta. Ningum gosta da dvida, ningum gosta de estar inseguro. Todos gostamos da certeza, da resposta completa. Todavia, ningum consegue sucesso intelectual,
social e penso que at espiritual se no aprender a se esvaziar e questionar sua rigidez por meio do duvidar de si mesmo. Uma pessoa auto-suficiente engessa sua
inteligncia, permanece numa mesmice sem fim. Cristo queria que seus discpulos recebessem uma outra natureza e fossem transformados em suas razes ntimas. Ele
discorria sobre o "consolador, o Esprito Santo". A psicologia no tem elementos para estudar esse assunto, pois entra na esfera da f. Porm ela pode estudar os
objetivos da sua escola da existncia. O mestre dos mestres fornecia poucas regras e ensinamentos religiosos. Sua preocupao fundamental era conduzir o homem a
ser um caminhante nas trajetrias do seu prprio ser e ampliar seu foco de viso sobre os amplos aspectos da existncia. A atuao surpreendente de Cristo, numa
poca em que no havia qualquer recurso pedaggico, valoriza muito o papel dos mestres nas sociedades modernas. Os professores so heris annimos, fazem um trabalho
clandestino. Eles semeiam onde ningum v, nos bastidores da mente. Aqueles que colhem os frutos dessas sementes raramente se lembram da sua origem, do labor dos
que a plantaram. Ser um mestre  exercer um dos mais dignos papis intelectuais da sociedade, embora seja um dos menos reconhecidos. Os alunos que no conseguem
avaliar a importncia dos seus mestres na construo da inteligncia nunca conseguiro ser mestres na sinuosa arte de viver. A histria de Cristo evidencia que os
mestres so insubstituveis numa educao profunda, numa educao que promove o desenvolvimento da inteligncia multifocal, aberta e ampla, e no unifocal, fechada
e restrita.

Um agradvel contador de histrias
Cristo era um agradvel contador de histrias. Era um privilgio estar ao lado dele. Ele era paciente e carismtico na arte de ensinar. Cativava at seus opositores.
Expressava ensinamentos complexos com histrias simples. Estava sempre contando uma histria que pudesse atrair as pessoas e estimul-las a pensar73. Um mestre eficiente
no apenas cativa a ateno dos seus alunos e no causa nuseas quando os ensina, mas os conduz a imergir no conhecimento que transmite. Por isso, um mestre eficiente
precisa ser mais do que eloqente, precisa ser um bom contador de histrias. Como tal, Cristo estimulava o prazer de aprender, retirava os alunos da condio de
espectadores passivos do conhecimento para que se tornassem agentes ativos do processo educacional, do processo de transformao.

#Cristo no freqentou uma escola de pedagogia, porm possua uma tcnica excelente. Ensinava de maneira interessante e atraente, contando histrias. Sua criatividade
impressionava. Nas situaes mais tensas, ele no se apertava, pois sempre achava um espao para pensar e contar uma histria interessante que envolvesse as pessoas
que o cercavam74. Um bom contador de histrias  insubstituvel e insupervel por qualquer tcnica pedaggica, mesmo que use recursos da informtica. Em muitas escolas,
os alunos, os professores e o conhecimento que transmitem esto em mundos diferentes. Um no entra no mundo do outro. Os alunos no entram na histria dos professores,
os professores no entram na histria dos alunos, e ambos no entram na histria do conhecimento, ou seja, nas dificuldades, nos problemas, nas dvidas que os cientistas
e pensadores viveram para produzir o conhecimento que  transmitido friamente em sala de aula. Na escola da existncia de Cristo era diferente. Ele conseguia transportar
seus alunos para dentro do conhecimento que transmitia. Eles penetravam na histria de Cristo e vice-versa. Analisando os meandros das biografias de Cristo, constatamos
que ele conhecia muito bem os papis da memria. Sabia que a memria no era um depsito de informaes. Sabia que era melhor estimular seus discpulos a desenvolverem
a arte de pensar do que dar-lhes uma quantidade enorme de informaes "secas" que teriam pouca relao com a experincia de vida e seriam logo esquecidas. Se Cristo
fosse um professor de biologia da atualidade, certamente no gastaria muito tempo dando inmeros detalhes "frios" sobre as clulas. Ele contaria boas histrias que
pudessem conduzir os alunos a entrar "dentro" delas. Se fosse um professor de fsica, de qumica e at de lnguas, tambm contaria histrias que conduziriam os alunos
a imergir dentro do conhecimento que expunha. Com o tempo, como acontece normalmente na educao clssica, os alunos perderiam diversos detalhes das informaes
que ele teria exposto, mas nunca mais se esqueceriam da essncia da histria contada. Suas histrias e o esboo que elas produziriam na memria dos alunos funcionariam
como uma base para que se tornassem engenheiros de idias. O conhecimento na boca desse mestre ganhava vida, se personalizava. Cristo usava a memria humana como
um alicerce intelectual para que seus discpulos se tornassem pensadores. No apreciava uma platia passiva de alunos. Por isso, gostava de instigar e provocar continuamente
a inteligncia deles, e, para isso, aproveitava todas as oportunidades75. Seus ensinamentos eram mais difceis de ser compreendidos do que os de matemtica, fsica,
qumica, pois envolviam questes existenciais, ansiedades, expectativas de vida, inseguranas, solidariedade, cooperao social, enfim, envolviam os pensamentos
mesclados com as emoes. Esse era mais um motivo pelo qual ele expressava que era mais importante transmitir informaes qualitativas do que quantitativas. Por
isso, nas suas interessantes histrias ele dizia muito com poucas palavras. s vezes, quando queria fazer uma crtica contundente aos seus ouvintes, em vez de ser
indelicado com eles, contava uma histria ou uma parbola para faz-los pensar. As escolas clssicas precisam ser albergues da sabedoria e da arte de pensar, precisam
provocar a inteligncia dos alunos, precisam dar um rosto ao conhecimento, transmitir a histria do conhecimento. Os mestres precisam danar a valsa da educao
com as duas pernas desengessadas, precisam ser contadores de histrias, romper a impessoalidade do conhecimento e cruzar, tanto quanto possvel, suas histrias com
a dos seus alunos. Contar histrias e experincias existenciais so excelentes maneiras de semear as idias mais complexas. Cristo era um grande semeador de princpios,
de pensamentos e de vida. A parbola do filho prdigo, das virgens nscias e prudentes, dos talentos e tantas outras representam uma didtica excelente desse contador
de histrias, desse plantador de sementes, que queria que o homem se interiorizasse, reciclasse sua postura superficial de vida, se livrasse das preocupaes exageradas
da existncia e se tornasse uma terra frtil, capaz de produzir muitos frutos. H muito o que dizer sobre o contedo das histrias de Cristo, entretanto, ficar
para outra oportunidade.

#Os pais, executivos, profissionais liberais, enfim, qualquer ser humano que compreender melhor os papis da memria e se tornar um contador de histrias ter um
desempenho intelectual mais eficiente e um trnsito mais livre nas relaes sociais. Tenho procurado ser um contador de histrias para as minhas trs filhas. Toda
vez que quero vacin-las contra o individualismo e contra a discriminao, mostro-lhes a necessidade de dar mais valor ao "ser" do que ao "ter", estimulo-as a superar
o medo, a reconhecer suas limitaes e a superar seus focos de tenso. Procuro contar-lhes histrias. Elas aprenderam a apreciar tanto essas histrias que, mesmo
quando estou sonolento, prestes a dormir, me pedem para que eu lhes conte. Um dia, uma professora, recm-chegada da frica, foi bombardeada pela curiosidade dos
alunos sobre aquele continente. Eles lhe perguntaram sobre como as pessoas viviam, quais os pases que ela visitara, quais experincias tivera. Porm, ela calou
e se aborreceu com a invaso dos seus alunos na sua histria. Aquela professora s estava preparada para dar as informaes que estavam programadas para aquele dia.
Cruzar a sua histria com a dos alunos era um absurdo para ela. O conhecimento que transmitia era impessoal, no tinha rosto, no tinha histria. Para ela, a memria
dos alunos apenas funcionava como um depsito de informaes. Essa professora no compreendeu que a escola clssica deve possuir uma grande e larga ponte com a escola
da existncia. No compreendeu que um dos papis fundamentais da memria no  a lembrana, mas a reconstruo das informaes, e que o objetivo fundamental da memria
no  ser um depsito delas, mas preparar o ser humano para ser um engenheiro de novas idias, e no um pedreiro das mesmas obras. Certamente, perdeu uma grande
oportunidade para cativar seus alunos, estimul-los a pensar e mesclar o conhecimento frio com uma bela histria. Cristo rompia a impessoalidade e a frieza do conhecimento.
O conhecimento que transmitia ganhava vida e se fundia com a sua prpria histria. As pessoas se sentiam privilegiadas em estar ao seu lado e ouvi-lo. Os fariseus
ficavam to atrados pela maneira como ele expressava suas idias que, mesmo sendo seus opositores, estavam sempre perto dele.  rarssimo uma pessoa sofrer tanta
oposio e, ao mesmo tempo, despertar tanta curiosidade. Cristo no tinha receio de falar de si mesmo e da histria dos seus discpulos. Ele dinamizava as relaes
interpessoais. Para esse contador de histrias, ensinar no era uma fonte de tdio, de stress, de obrigao, mas uma aventura doce e prazerosa...

O discurso de Cristo sobre dar a outra face
Quando Cristo queria mostrar a necessidade vital de tolerncia nas relaes sociais, ele no proferia inmeras aulas sobre o assunto, mas novamente usava gestos
surpreendentes. Ele dizia que se algum batesse numa face era tambm para oferecer a outra, e por diversas vezes ele deu a outra face para seus opositores, ou seja,
no revidava quando o agrediam ou o ofendiam. Cristo no falava da face fsica, da agresso fsica que compromete a preservao da vida. Ele falava da face psicolgica.
Se fizermos uma anlise superficial, poderemos nos equivocar e crer que dar a outra face parece uma atitude frgil e submissa. Todavia, temos de nos perguntar: dar
a outra face  um sinal de fraqueza ou de fora? Dar a outra face incomoda pouco ou muito uma pessoa agressiva e injusta? Se analisarmos a construo da inteligncia,
constataremos que dar a outra face no  um sinal de fraqueza, mas de fora e segurana. S uma pessoa forte  capaz de dar a outra face. S uma pessoa segura dos
seus prprios valores  capaz de elogiar o seu agressor. Quem d a outra face no se esconde, no se intimida, mas enfrenta o outro com tranqilidade e segurana.

#Quem d a outra face no tem medo do agressor, pois no se sente agredido por ele, e nem tem medo de sua prpria emoo, pois no  escravo dela. Alm disso, nada
perturba tanto uma pessoa agressiva do que dar a outra face, do que no revidar sua agressividade com agressividade. Dar a outra face incomoda tanto que  capaz
de gerar insnia nela. Nada incomoda tanto uma pessoa agressiva do que ter atitudes complacentes com ela. Dar a outra face  respeitar o outro,  procurar compreender
os fundamentos da sua agressividade,  no usar a violncia contra a violncia,  no se sentir agredido diante das ofensas que lhe desferem. Somente uma pessoa
que  livre, segura e que no gravita em torno do que os outros pensam e falam de si  capaz de agir com tanta serenidade. A psicologia do "dar a outra face" protege
emocionalmente a pessoa agredida e, ao mesmo tempo, provoca a inteligncia das pessoas violentas, estimulando-as a pensar e reciclar a prpria violncia. Cristo
era uma pessoa audaciosa, corajosa, que enfrentava sem medo as maiores dificuldades da vida. Era totalmente contra qualquer tipo de violncia. Todavia, ele no discursava
sobre a prtica da passividade. A humildade que proclamava no era fruto do medo, da submisso passiva, mas da maturidade da personalidade, confeccionada por intermdio
de uma emoo segura e serena. Cristo, atravs do discurso de dar a outra face, queria proteger a pessoa agredida, faz-la transcender a agressividade imposta pelo
outro e, ao mesmo tempo, educar o agressor, lev-lo a perceber que a sua agressividade  um sinal de fragilidade. Nunca o agressor foi combatido de maneira to intensa
e to elegante! Na proposta de Cristo, o agressor passa a revisar a sua histria e a compreender que ele se esconde atrs de sua violncia. Com essas palavras, Cristo
implodiu os paradigmas que at hoje se arraigam na sociedade, que expressam que a violncia deve ser combatida com a violncia. O mestre da escola da existncia
demonstrou que a fora est na tolerncia, na complacncia e na capacidade de conduzir o outro a se interiorizar. Lembro-me de um paciente que foi agredido verbalmente
por um de seus parentes. Este paciente no ofereceu motivos importantes para ser agredido. Seu agressor foi injusto e muito spero com ele. Porm, ele foi at este
parente e pediu desculpas por t-lo ferido em alguma coisa. A sua reao de humildade caiu como uma bomba no interior do agressor, que emudeceu e ficou perturbado.
Neste momento, caiu em si, se interiorizou e enxergou sua prpria agressividade. Assim, disse que era ele que estava errado e que deveria ser desculpado. Com isso,
ambos reataram um relacionamento que demoraria anos para ser reatado e que, talvez, nunca mais fosse o mesmo. O relacionamento que voltaram a ter se tornou mais
aberto e rico do que antes. Muitas pessoas tm medo de se reconciliar, de estender as mos para os outros, de pedir desculpas, de passar por tolos, por isso defendem
suas atitudes e seus pontos de vistas com unhas e dentes. Esse procedimento no  aliviador, mas angustiante e desgastante. Os pais que aprendem a pedir desculpas
para os filhos no perdem a sua autoridade, mas se tornam pessoas admiradas e respeitadas por eles. Somos timos para detectar as falhas dos outros, mas mopes para
enxergar as nossas. Jesus combatia a violncia com a antiviolncia. Ele apagava a ira com a tolerncia, reatava as relaes com a humildade. Atravs de seus gestos,
ele marcou para sempre a histria de seus discpulos e fez com que o mundo, apesar de no vivenciar seus ensinamentos, o admirasse profundamente. Infelizmente, em
detrimento de haver leis, batalhes de soldados e sistema de punio, a violncia fsica e psicolgica faz parte da rotina das sociedades modernas.

#O mundo moderno  violento. A televiso transmite programas violentos. A competio profissional  violenta. Em muitas escolas clssicas, onde deveria reinar o
saber e a tolerncia, a violncia tem sido cultivada. Violncia gera violncia. Spinoza, um dos pais da filosofia moderna, que era judeu, expressou que Jesus Cristo
era sinnimo de sabedoria e que as sociedades envolvidas por guerras de espadas e guerras de palavras poderiam encontrar nele uma possibilidade de fraternidade*.

Um poeta da inteligncia que utilizava com grande habilidade o fenmeno RAM
Um quadro  mais eloqente do que mil palavras. Vimos que a memria sofre um registro automtico por meio do fenmeno RAM (registro automtico da memria). Vimos
tambm que o registro  mais privilegiado quando as experincias contm mais emoo, mais tenso, seja ela positiva ou negativa. Cristo utilizava com destreza o
fenmeno RAM. Seus gestos marcaram para sempre a memria dos discpulos e atravessaram geraes. Ele usava a arte de pensar com uma habilidade incrvel. Preferia
utilizar gestos surpreendentes para educar, transformar, ampliar a viso dos seus discpulos. Seus gestos produziam impactos inesquecveis na memria dos seus ntimos
e eram mais eficientes do que milhares de palavras. Suas biografias retratam um homem que falava pouco, mas que dizia muito. Quando desejava demonstrar que no queria
o poder poltico, que se importava mais com o interior do homem do que com a esttica social, optava por no fazer grandes reunies, conferncias e debates para
discutir o assunto. Como comentei, usava simplesmente um gesto surpreendente, que era muito mais representativo e eficiente do que as palavras. Quando estava no
auge da sua popularidade, montou num pequeno animal e subiu at Jerusalm. Ningum mais esqueceu aquele gesto audacioso, intrpido, incomum e a complexa mensagem
que ele trouxe. O fenmeno RAM o registrou de maneira privilegiada, marcando a trajetria existencial dos seus discpulos.

Economizando palavras e discursando com gestos
Os pais, os professores, os executivos raramente conseguem surpreender as pessoas que o circundam e abrir as janelas das suas mentes. Um pai cujo filho passa por
problemas, como uso de drogas ou agressividade, fica perdido sem saber como penetrar no interior dele e contribuir para reorganizar a sua vida. A melhor maneira
de conquistar algum  romper a rotina e surpreend-lo continuamente com gestos inesperados. Se um pai for comum, racional, crtico e explicativo com um filho, ele
entedia a relao interpessoal e se torna pouco eficiente como educador. Porm, se o surpreender continuamente com gestos inesperados, com momentos de silncio,
com dilogos incomuns, com elogios agradveis, certamente ao longo dos meses ele conquistar esse filho e o ajudar a reconstruir sua histria. Muitos pais nunca
entraram no mundo dos seus filhos e muitos filhos nunca tiveram o prazer de conhecer seus pais intimamente. Sair do relacionamento superficial e previsvel e construir
um relacionamento que tenha razes  uma tarefa brilhante. Conquistar o outro  uma arte, principalmente se o outro for uma pessoa difcil.

#Os comportamentos de Cristo produziam razes profundas no ntimo das pessoas. Eram mais eloqentes do que dezenas de palestras sobre a necessidade de se doar mutuamente,
de busca de ajuda mtua, cooperao social, solidariedade. Quando ele agia, a memria delas era profundamente impregnada com suas atitudes. Quando queria demonstrar
que era contra qualquer tipo de discriminao, economizava o discurso e tinha atitudes inesperadas. Se queria demonstrar que era contra a discriminao por esttica
e por doenas contagiosas, ia fazer suas refeies na casa de Simo, o leproso. Quando queria demonstrar que era contra a discriminao das mulheres, tinha complacncia
e gestos amorosos com elas diante das pessoas mais rgidas. Se era contra a discriminao social, ia jantar na casa de coletores de impostos, que eram a "raa" mais
odiada pela cpula judaica. Cristo era um poeta da inteligncia. Sabia utilizar o fenmeno RAM com extrema habilidade. Sabia que a memria humana no funcionava
como um depsito de informaes, mas como um suporte para que o homem se tornasse um pensador criativo. Suas atitudes surpreendentes produziam quadros psicolgicos
que eram registrados de maneira privilegiada na memria dos discpulos. Esse registro era resgatado e retroalimentado continuamente por eles, enriquecendo o espetculo
da construo de pensamentos e direcionando suas trajetrias de vida. Muito se escreveu sobre Cristo, bem como foram feitos diversos filmes e peas teatrais sobre
ele. Vrias obras retrataram o mestre da escola da existncia de maneira muito superficial, pois no levaram em considerao a sua extraordinria inteligncia. Ele
 o personagem mais comentado do mundo. Todavia, muitos no compreenderam que ele transmitiu ricas mensagens no apenas pelo que falou, mas pelo que no falou, pela
eloqncia dos seus gestos e dos seus momentos de silncio.

#A solido social e a solido intrapsquica
Nestes tempos de intensa crise social e educacional,  bom rompermos nossa velha maneira de pensar e nos abrirmos para outras possibilidades. Estudar a inteligncia
de Cristo pode fornecer princpios sociolgicos, psicolgicos e psicopedaggicos muito teis. O que diremos sobre o paradoxo do florescimento da solido nas sociedades
intensamente adensadas? A solido, como comentei,  um fenmeno oculto, insidioso, mas muito presente. Vivemos em sociedade, mas a solido cultiva-se de forma frtil.
Esbarramos diariamente em muitas pessoas, todavia permanecemos ilhados dentro de ns mesmos. Participamos de eventos sociais, brincamos, sorrimos, mas freqentemente
estamos ss. Falamos muito do mundo em que estamos, discorremos sobre poltica, economia e at sobre a vida de muitos personagens sociais, mas no falamos de ns
mesmos, no trocamos experincias existenciais. O homem moderno  um ser solitrio, isolado dentro da sua prpria sociedade, um homem que sabe que tem fragilidades,
inseguranas, temores, momentos de hesitao e apreenso, mas tem medo de reconhec-los, de assumi-los e de falar sobre eles. Tem conscincia da necessidade de falar
de si mesmo, contudo opta pelo silncio e faz dele seu melhor companheiro. Como disse, muitos vo ao psiquiatra e psicoterapeuta no porque esto doentes, ou pelo
menos seriamente doentes, mas porque no tm ningum para conversar abertamente sobre suas crises existenciais. Realmente  difcil falar de ns mesmos. O medo de
falar de si mesmo no est ligado apenas aos bloqueios ntimos que as pessoas tm em comentar suas histrias, mas tambm s dificuldades de encontrar algum que
desenvolveu a arte de ouvir. Algum que ouve sem prejulgar e que sabe se colocar em nosso lugar e no dar conselhos superficiais.  mais fcil desenvolver a arte
de falar do que a de ouvir. Aprender a ouvir implica aprender a compreender o outro dentro do contexto histrico, a respeitar suas fragilidades, a perceber seus
sentimentos mais profundos, a captar os pensamentos que as palavras no expressam. A arte de ouvir  uma das mais ricas funes da inteligncia. Muitos no apenas
desenvolvem a solido social, a solido de estar prximo fisicamente e, ao mesmo tempo, distante interiormente das pessoas que o cercam, mas tambm a solido intrapsquica,
de abandonar-se a si mesmo, de no dialogar consigo mesmo, de no discutir os prprios problemas, dificuldades, reaes. Quem no se interioriza e aprende a discutir
com liberdade e honestidade as suas prprias dificuldades, conflitos, metas, projetos, abandona-se a si mesmo na trajetria existencial. Vivemos numa sociedade to
estranha que no achamos tempo nem para ns mesmos. Uma pessoa que no se repensa e no dialoga consigo mesma perde os parmetros de vida e, conseqentemente, pode
se tornar rgida e implacvel com seus prprios erros e propor para si mesma metas inatingveis que a imergem numa esfera de sentimento de culpa, ou, ao contrrio,
pode se alienar e no possuir qualquer meta ou projeto social e profissional. O homem tem uma necessidade intrnseca de superar a solido em seus amplos aspectos;
todavia, ele no  muito eficiente em super-la. Cristo tinha momentos preciosos em que se interiorizava. Suas meditaes contnuas indicavam que ele atribua uma
importncia significativa ao caminhar nas trajetrias do seu prprio ser. Sempre encontrava tempo para ficar a ss consigo mesmo76. Entretanto,  difcil investigar
o que se passava dentro dele nesses momentos. Se temos dificuldades de compreender esse aspecto de sua vida, podemos, contudo, ter mais facilidade de compreender
o seu pensamento sobre a solido social. Mas, antes de comentar esse assunto, gostaria de fazer uma abordagem sobre a sua misteriosa origem. Estudar parcialmente
sua origem pode nos levar a compreender melhor o seu pensamento sobre o complexo fenmeno da solido.

#A misteriosa origem de Cristo
A origem de Cristo  muito complexa. Alguns assuntos concernentes a esse respeito extrapolam a investigao cientfica. De acordo com sua biografia, sua origem biolgica
foi gerada apenas a partir do material gentico de Maria. A cincia no pode comprovar ou confirmar este fato, pois no tem como estudar o material gentico de Cristo
e de Maria. Crer neste fato entra na esfera da f e, portanto, extrapola o campo da cincia. Se, por um lado, a cincia no pode estudar o processo de gerao biolgica
de Cristo a partir da carga gentica de sua me, por outro no pode dizer que isto  impossvel de ser realizado. Por qu? Porque a cincia est comeando agora
a compreender algumas possibilidades da clonagem, bem como seus riscos e benefcios. De acordo com os evangelhos, a origem biolgica de Cristo foi misteriosa. Todavia,
ele expressava que tinha uma outra origem, que no era deste mundo77. Dizia que vinha do cu. Dizia at mesmo que era o po que tinha descido do cu para alimentar
o homem com outro elemento, com outra natureza78. Que cu  esse a que se referia? No universo, h bilhes de galxias. A que ponto do universo ele se referia? Ser
que se referia a uma outra dimenso? No sabemos, apenas supomos que provavelmente se referia a outra dimenso. Porm, o fato  que Cristo proclamava claramente
no ser deste mundo, mas pertencer a outro mundo, reino ou esfera. Novamente digo que a cincia no tem como discutir este assunto com preciso, a no ser no campo
da especulao. Crer em sua origem celestial  uma questo pessoal. Quanto  sua origem terrena, ou seja,  sua humanidade, Cristo dizia ser o filho do homem. Quanto
 sua origem celestial, dizia ser o filho de Deus. Se estamos cientificamente limitados para discorrer sobre essa dupla origem, podemos ao menos fazer algumas anlises
implicativas. Permitam-me usar a origem de Cristo para fazer uma crtica contra a necessidade paranica do homem pelo poder. O ser humano ama o poder. Se fosse possvel,
ele gostaria de ser supra-humano, um semideus. Se tomarmos como verdade a palavra de Cristo de que ele no era deste mundo, podemos observar que se por um lado ele
reivindicava uma origem extra-humana, por outro lado valorizava intensamente sua condio humana. O que esperamos de uma pessoa com a origem distinta da nossa? No
mnimo esperamos comportamentos diferentes do nosso, que extrapolem os padres de nossa inteligncia. Cristo tinha tais comportamentos. Porm precisamos compreender
a outra face de Cristo, a humana, pois, embora reivindicasse ser o filho de Deus, era extremamente humano. Ele amava se relacionar intimamente com as pessoas e penetrar
na histria e at na dor particular daquelas com as quais convivia. Ele tinha um lado mais humano do que a grande maioria dos homens. Muitos terrqueos querem ser
extraterrestres, semideuses, mas Cristo queria ser um homem, queria se misturar com o homem, conviver com ele e ter amigos ntimos. Podemos afirmar que se por um
lado seus comportamentos fogem aos padres de nossa inteligncia, por outro, ele tinha comportamentos que eram mais humanos e mais singelos do que os nossos.

Tendo prazer em sua humanidade
O ser humano se envolve numa escalada paranica pelo poder. Muitos homens querem ser polticos poderosos. Muitos polticos querem ser reis. Muitos reis querem ou
quiseram ser deuses ao longo da histria. Contudo, este Cristo que reivindicava ser Deus e ter o segredo da vida eterna queria ser um homem, amava a condio humana.
Que contraste!

#O leitor j apreciou a espcie humana, j teve uma paixo potica pelo ser humano, independente de quem ele seja? Cristo tinha tal paixo pela humanidade. Ele gostava
tanto de ser um humano, apreciava tanto sua origem humana, que usava uma expresso romntica e incomum para exaltar essa origem. Ele dizia ser o "filho do homem"79.
 estranho, mas um ser humano no usa a expresso "filho do homem" para exaltar a sua origem. Esta expresso est de acordo com o pensamento dele sobre sua dupla
natureza. Apreciava ser reconhecido pela sua natureza humana, e no apenas como filho de Deus. Observem quantas vezes nos quatros evangelhos Cristo disse ser o "filho
do homem". Ele respirou, dormiu, comeu, se angustiou, sofreu, chorou e se alegrou como um homem. Muitos declaram o time esportivo para o qual torcem, a ideologia
poltica  qual aderem, a corrente psicoteraputica ou educacional que seguem, pois gostam de exalt-la. Cristo gostava de exaltar sua origem humana, pois ele a
apreciava.  muito raro ouvirmos algum dizer que est alegre por ser humano, mas ele proclamava isso com satisfao: ser o "filho do homem". Devido ao estudo das
origens das violaes dos direitos humanos, cheguei a questionar a viabilidade psicossocial da espcie humana em alguns textos que publiquei. Contudo, Cristo, apesar
de ser to crtico do superficialismo, da hipocrisia e da intolerncia humana, era um apreciador do ser humano, da humanidade e, alm disso, sua histria revela
que tinha esperana de transform-la. Ele no era um estranho na multido. No se comportava como um "extraterrestre", pelo contrrio, ele gostava de se misturar
e de se envolver com todos os tipos de pessoas. Queria tanto ter amigos que preparou um plano complexo para isso. Construiu pouco a pouco uma atmosfera interpessoal
objetivando que seus discpulos se tornassem mais do que meros alunos ou servos, mas seus amigos. No bastava que o admirassem, ele queria ser amigo deles. Os discpulos
o colocavam num pedestal inatingvel, mas Cristo queria cruzar sua histria com a deles. Ele ambicionava que os galileus, que eram rudes e sem cultura, se tornassem
parceiros de uma relao interpessoal sem distncia. O que representava ser um amigo para Cristo? Ele expressou que os amigos possuam intimidade, conheciam os segredos
ocultos do corao, trocavam experincias existenciais80.

Crise nas relaes sociais: os amigos esto morrendo
Nas sociedades modernas, fazer amigos est virando artigo de luxo. O ser humano perdeu o apreo por uma relao horizontal eqidistante. Ele gosta de anular o outro
e de que o mundo fique aos seus ps. Mas Cristo, nos ltimos dias da sua trajetria nesta terra, expressou que queria muito mais do que admiradores, queria amigos.
No h relao mais nobre do que ser e ter amigos. Os amigos se mesclam, confiam mutuamente, desfrutam do prazer juntos, segredam coisas ntimas, torcem uns pelos
outros. Os amigos no anulam um ao outro, mas se completam. Quem vive sem amigos pode ter poder e palcios, mas vive s e triste. Quem tem amigos, ainda que no
tenha status e viva num casebre, no se sentir s. A falta de amigos deixa uma lacuna que dinheiro, poder, cultura, sucesso, no podem preencher. Todos precisamos
de amigos, os quais no compramos, mas conquistamos, cultivamos. Muitos querem t-los, mas no sabem como conquist-los. Os amigos no so aqueles que gravitam em
torno de ns, que nos rodeiam pelo que temos. No, so aqueles que nos valorizam pelo que somos. No mundo biolgico, os animais se agrupam pela necessidade instintiva
de sobrevivncia. Na nossa espcie, as amizades surgem por necessidades mais ntimas, como tentativa de superar a solido.

#A comunicao interpessoal realizada atravs dos sons (palavras) e das imagens (gestos, expresses faciais) so deficientes e limitadas. Se no construirmos um
relacionamento aberto, despreconceituoso e despretensioso, as pessoas no compreendero nossos sentimentos e pensamentos mais ntimos, que ficaro seqestrados dentro
de ns mesmos e nos imergiro numa solido social. Por estarmos ilhados dentro de ns mesmos, precisamos de amigos, precisamos superar uma das caractersticas mais
marcantes da nossa espcie: a solido. Os pais que no tm como meta transformar seus filhos em amigos possuem um projeto educacional superficial. Aqueles que objetivam
tornar seus filhos seus amigos, que trocam experincias, mesclam suas histrias, reconhecem erros, pedem desculpas e procuram viver uma vida alegre e aberta com
eles atingem um sucesso existencial nobilssimo. Os pais que apenas propiciam boas escolas para os filhos e regras de comportamentos no conseguem estabelecer as
diretrizes de um relacionamento mais profundo com eles. Por sua vez, os filhos que no procuram ter seus pais como amigos perdem uma das mais ricas experincias
existenciais. Os filhos que aprendem a se abrir com seus pais, bem como a explor-los, desarm-los e conhecer a histria deles, seus prazeres, fracassos, sucessos,
temores, acabam se tornando arquitetos de uma relao doce e prazerosa. Os professores tambm deveriam ter um relacionamento mais prximo com seus alunos. O tempo
pode no permitir tal proximidade e a estrutura educacional pode no facilit-la, mas, na medida do possvel, os professores deveriam ter como meta ser amigos dos
seus alunos, participando da histria deles. Os professores procuram o silncio e a ateno dos alunos. Contudo, como um estranho pode fazer exigncias to grandes?
Aqueles que investem tempo em ser amigos dos alunos, mesmo dos mais agressivos e rebeldes, os conquistam, arrebatam o respeito deles. O silncio e a ateno deles
tm outro prazer. Respeitar os alunos como seres humanos e procurar conhecer, ainda que com limites, algumas angstias e sonhos do mundo deles torna-se um blsamo
intelectual, um perfume emocional que satura a relao. As escolas deveriam se tornar albergues no apenas de sabedoria, mas tambm de amigos. Porm, infelizmente,
s vezes impera a agressividade e a rigidez. Um dia, uma professora me disse que no suportava mais seus alunos e que tinha perdido o prazer de dar aulas. Estimulei-a
a penetrar no mundo deles e perceber que mesmo os mais rebeldes tm uma personalidade complexa, um mundo a ser descoberto. Disse-lhe que logo se tornariam adultos
e que ela no poderia perder a oportunidade de contribuir para enriquecer-lhes a histria. Encorajada, comeou a entrar no mundo dos seus alunos e conseguiu conquist-los.
Mesmo no ambiente da psicoterapia, a relao terapeuta-paciente deveria ser construda numa atmosfera do mais alto nvel de respeito, de empatia e de confiabilidade.
Se um psicoterapeuta constri uma relao distante e impessoal com seu paciente, a terapia tem grandes possibilidades de se tornar artificial e pouco eficiente.
Lembro-me de que uma cliente me contou uma histria vivenciada por ela, antes de se tratar comigo, que a feriu muito. Disse-me que se tratava com uma psicoterapeuta
muito rgida, cujo consultrio ficava num edifcio alto. Algumas vezes elas se encontravam no elevador. Quando isso ocorria, ela cumprimentava a terapeuta, mas esta
nunca respondia, pois no queria criar qualquer vnculo com ela ou com os outros pacientes. A paciente era caixa de um banco no qual a terapeuta tinha conta, mas
a terapeuta nunca a cumprimentava, mesmo quando era atendida pela paciente. Angustiada com a frieza e a impessoalidade da terapeuta, a paciente resolveu test-la:
contou em dois dias distintos e simultneos histrias totalmente diferentes que tinham ocorrido em sua infncia. Disse que seu pai tinha sido agressivo, distante,
frio, enfim, um verdadeiro carrasco com ela. No outro dia, contou que seu pai sempre tinha sido amvel e tolerante com ela. A terapeuta, que estava distrada e tinha
uma relao impessoal com a paciente, no percebeu os paradoxos da histria contada e interpretou o comportamento dela como se fosse de duas pessoas distintas.

#Indignada, a paciente interrompeu a sesso de psicoterapia e nunca mais voltou quele consultrio. Dias depois, a terapeuta apareceu no banco e, tentando se aproximar,
gentilmente perguntou como ela estava. A paciente deu-lhe o troco e respondeu da mesma forma que a terapeuta: disse que no a conhecia. A resposta no foi adequada,
entretanto ela prestou um favor  sua terapeuta, pois a levou a reciclar seu procedimento profissional frio e sem empatia. Como pode algum ajudar uma pessoa a se
interiorizar, a se repensar e a gerenciar seus pensamentos nos focos de tenso se a relao que mantm com ela  distante, sem empatia e sem confiabilidade? O mestre
da escola da existncia era diferente. Tinha uma relao estreita com seus discpulos, era agradvel e confivel. Conseguia, como exmio terapeuta, perceber os conflitos
mais ocultos e estimullos a se repensarem. Ele, mais do que qualquer terapeuta, poderia exigir distncia e at reverncia por parte dos seus discpulos, pois eles
o consideravam o filho do Deus altssimo. Entretanto, fazia questo de quebrar todas as barreiras e todas as distncias entre eles. Cristo queria que as relaes
com seus discpulos fossem regadas a empatia, confiabilidade e proximidade.

Procurando amigos, e no servos
Tanto o mais desprezado sdito como o mais poderoso rei podem padecer de solido. O primeiro porque  rejeitado por todos, o segundo porque  supervalorizado por
todos e, conseqentemente, ningum se aproxima dele com naturalidade e espontaneidade. Cristo era tanto drasticamente rejeitado como profundamente admirado. Todavia,
as duas posies no o agradavam. Muitos amam o trono, amam o ribombar dos aplausos, mas Cristo era diferente. No fim de sua vida, no pice do seu relacionamento
com os discpulos, ele os retirou da condio de servos e os colocou na posio de amigos. Parecia que estava querendo vacin-los contra um relacionamento impessoal,
distante, que permeava a relao do povo de Israel com Deus, expressa nos livros de Moiss e dos profetas. Certa vez, Cristo disse que muitos o honravam com a boca,
mas tinham o corao longe dele81. Parecia dizer que toda aquela forma distante de honr-lo, ador-lo e supervaloriz-lo no o agradava, pois no era ntima e aberta.
Cristo se preocupava com que as relaes entre seus discpulos fossem prximas fisicamente e, ao mesmo tempo, distantes interiormente. Sua preocupao era legtima
e fundamentada. Sabia que seria facilmente superadmirado e, desse modo, as pessoas se tornariam distantes dele, perderiam o contato direto, aberto, simples e prazeroso
com ele. De fato, isto ocorreu bastante ao longo histria. Julgando tributo a Cristo, at fizeram guerra em seu nome. Isto ocorreu em muitas geraes e ainda ocorre
hoje. Na Irlanda do Norte, catlicos e protestantes viveram por muitos anos numa praa de guerra, travando conflitos sangrentos. Como  possvel fazer guerra em
nome daquele que dava a outra face, que era o exemplo mais vivo da antiviolncia e da tolerncia? Muitos discursaram sobre ele e o admiraram como um grande personagem,
mas se afastaram das suas caractersticas fundamentais. Joo, o discpulo, foi um amigo ntimo de Cristo. Ele teve o prazer e o aconchego da sua amizade. O desejo
do mestre em ter amigos o marcou tanto que, mesmo quando velho, ele no se esqueceu de registrar em seu evangelho os trs momentos em que Cristo chama seus discpulos
de amigos82. Muitos dos que o seguiram ao longo das geraes no enxergaram essa caracterstica. Eles no compreenderam que Cristo procurava mais do que servos,
mais do que admiradores, mais do que homens prostrados aos seus ps, mas amigos que amassem a vida e se relacionassem intimamente com ele.

Vivendo com prazer: jantares, festas e convvio social
Engana-se quem acha que Cristo tinha uma vida enclausurada, fechada, tmida e triste. Ele era totalmente socivel. Contudo, em alguns momentos, sentia necessidade
de se isolar socialmente. Mas isto s ocorria quando tinha necessidade ntima de meditar.

#Quem no tem estes momentos aprisiona a sua emoo e no supera a solido intrapsquica. Uma das mais belas aventuras que homem pode empreender  velejar dentro
de si mesmo e explorar seus territrios mais ocultos. Cristo era um caminhante nas trajetrias do seu prprio ser. Tinha prolongados momentos de reflexo, meditao
e orao83.  difcil a psicologia emitir opinio sobre o que ocorria com ele nesse momento, mas, provavelmente, havia um reencontro consigo mesmo, com o Pai que
ele expressava estar em seu interior, com sua histria, com seu propsito transcendental. Nesse momento ele restabelecia suas foras e refazia suas energias para
enfrentar as enormes turbulncias da vida84. Afora seus momentos de interiorizao e meditao, ele estava sempre procurando convvio social. J analisei muitas
pessoas sociveis e posso garantir que Cristo foi uma das mais sociveis que j estudei. Tinha prazer de conviver com as pessoas. Estava sempre mudando de ambiente
a fim de estabelecer novos contatos85. Freqentemente tomava a iniciativa de dialogar com as pessoas. Deixavaas curiosas e prendia a ateno delas. Gostava de dialogar
com todas as pessoas, at as menos recomendadas, as mais imorais. Fazia questo de procur-las e estabelecer um relacionamento com elas86. Por isso, escandalizava
os religiosos da sua poca, o que comprometia sua reputao diante do centro religioso de Jerusalm. Porm o prazer que sentia ao se relacionar com o ser humano
era superior s conseqncias da sua atitude, da m fama que adquiria, para a qual ele, alis, no dava importncia; o que importava era ser fiel  sua prpria conscincia.
Ele no rejeitava nenhum convite para jantar. Fazia suas refeies at na casa de leprosos. Havia uma pessoa chamada Simo que tinha lepra, conhecida hoje como hansenase.
O portador dessa doena naquela poca era muito discriminado, pois muitos deles ficavam com os corpos mutilados e eram obrigados a viver fora da sociedade. Simo
era to rejeitado em sua poca que era identificado por um nome pejorativo, "Simo, o Leproso". Porm, como Cristo abolia qualquer tipo de preconceito, fez amizade
com Simo. Nos ltimos dias de sua vida, ele estava em sua casa, junto  mesa, provavelmente fazendo uma refeio87. Se Cristo tivesse vivido nos dias de hoje, no
tenham dvida de que seria amigo dos portadores do vrus da AIDS. Sua delicadeza para incluir e cuidar das pessoas excludas socialmente representava um belo retrato
de sua elevada humanidade. Embora os fariseus tivessem preconceito contra Cristo, o mesmo no ocorria por parte de Cristo. Ele, se convidado, jantava na casa dos
fariseus, mesmo que fossem seus crticos88. Cristo tinha uma caracterstica que se destaca claramente em todas as suas biografias, mas que muitos no conseguem enxergar.
Era to socivel que participava continuamente de festas. Participou da festa em Can da Galilia, da festa da Pscoa, do tabernculo e muitas outras. Cristo se
regalava quando estava  mesa. Estendia seus braos folgadamente sobre ela, o que indica que no tinha muitas formalidades, procurando sempre a espontaneidade89.
Naquela poca, no havia restaurantes, mas se ele tivesse vivido nos dias de hoje, certamente teria visitado muitos deles com seus amigos, e aproveitaria os ambientes
descontrados que as refeies propiciam para proferir algumas das suas mais importantes palavras. De fato, ele proferiu alguns dos seus mais importantes pensamentos
e teve alguns dos seus mais relevantes gestos, no nas sinagogas judias, mas junto a uma mesa. Cristo se misturava tanto com as pessoas e apreciava tanto jantar
e conviver com elas que recebeu uma fama inusitada de "gluto" e bebedor de vinho90. Ele at mesmo comentou sobre essa fama que tinha recebido. Disse que seu precursor,
Joo Batista, comera mel silvestre e gafanhotos e recebera a fama de ser estranho, um louco, algum que vive fora do convvio social. Agora, tinha vindo o "filho
do homem", que sentia prazer em comer e conviver com as pessoas, e, devido a esse comportamento to socivel e singelo, acabou recebendo a fama de gluto. Uma fama
injusta, mas que era reflexo da sua exmia capacidade de se relacionar socialmente. Cristo era um excelente apreciador de comida. Gostava inclusive de prepar-las91.

#Embora injusta, fico particularmente contente com a sua fama de gluto. No me alegraria se ele tivesse recebido a fama de ser uma pessoa socialmente estranha,
fechada, enclausurada. Ele no seria to acessvel e atraente se as pessoas tivessem de fazer sinais de reverncia, mudar seu tom de voz e modificar seus comportamentos
para se achegar a ele. Cristo era simples e sem formalidades, por isso envolvia qualquer tipo de pessoa em qualquer de ambiente. Muitos no conseguem nem sabem como
fazer amigos, mas o mestre de Nazar era um especialista em construir relaes sociais saudveis. Ele atraa os homens para si e os transformava em seus amigos ntimos
pelas ricas caractersticas de sua personalidade, principalmente sua amabilidade, sociabilidade e inteligncia instigante. As relaes sociais tm sido pautadas
pela frieza e pela impessoalidade. Todos temos necessidade de construir relacionamentos sem maquiagens, abertos e desprovidos de interesses ocultos. Temos uma necessidade
vital de superar a solido. Todavia, o prazer pelo dilogo est morrendo. A indstria do entretenimento nos aprisionou dentro de nossas prprias casas, dentro dos
nossos escritrios. Estamos ilhados no videocassete, na TV e nos computadores. Nunca houve uma gerao como a nossa, que teve tanto acesso a diversas formas de entretenimento,
todavia conhece como nenhuma outra a solido, a ansiedade e a insatisfao.

#Preservando a unidade
Uma das caractersticas mais marcantes do ensinamento de Cristo era a meta da unidade entre seus discpulos. Antes da sua morte, num momento em que estava emocionalmente
triste por deix-los, fez um ardente pedido. Uma pessoa, quando est se despedindo da vida, revela os segredos do seu corao. Nesse momento, nada mais h para ocultar,
tudo o que est represado clandestinamente nos pensamentos vem  tona. O que estava represado dentro de Cristo e veio  tona logo antes de ele morrer? Vieram pelo
menos quatro desejos extremamente sofisticados: a) A criao de um relacionamento interpessoal aberto e ntimo capaz de produzir amigos genunos e de superar as
razes da solido; b) A preservao da unidade entre os discpulos; c) A criao de uma esfera sublime de amor; d) A produo de um relacionamento sem competio
predatria e individualismo. Como j abordei o primeiro tpico, comentarei a seguir os demais. Cristo no queria que seus discpulos estivessem sempre juntos no
mesmo espao fsico, mas no mesmo sentimento, na mesma disposio intelectual, na mesma meta. Ambicionava uma unidade que todas as ideologias polticas sonharam
e jamais conseguiram. Uma unidade que toda empresa, equipe esportiva, universidade e sociedade almejam, mas nunca conseguiram. Almejava que fossem unidos na essncia
intrnseca do ser deles. A unidade que Cristo proclamava eloqentemente no anulava a identidade, a personalidade. As pessoas apenas sofreriam um processo de transformao
interior que subsidiaria uma unidade to elevada que estancaria o individualismo e sobreviveria a todas as suas diferenas. Juntas, unidas, elas desenvolveriam as
funes nobres da inteligncia. Cada pessoa continuaria sendo um ser complexo, com caractersticas particulares, mas na essncia intrnseca elas seriam uma. Nesta
unidade cooperariam mutuamente, serviriam umas s outras, se tornariam sbias e levariam a cabo o cumprimento do propsito do seu mestre. Para preservar a unidade
proposta por Cristo, as disputas e as discriminaes deveriam ser abortadas. Alm disso, para preserv-la seria necessrio aprender a sofrer perdas em prol dela.
Nenhuma unidade sobrevive sem que as pessoas que a procuram estejam dispostas a sofrer determinadas perdas para sustent-la. At porque no  possvel haver relaes
humanas sem haver tambm decepes. Portanto, para que a unidade tivesse razes, era necessrio trabalhar as perdas e as frustraes e apreciar as metas coletivas
acima das individuais Excluir, discriminar, dividir, romper so habilidades intelectuais fceis de se aprender. Uma criana de cinco anos de idade j tem todas essas
habilidades em sua personalidade. Porm incluir, cooperar, considerar as necessidades do outro e preservar a unidade exige maturidade da inteligncia, exige compreender
que o mundo no deve girar em torno de si mesmo, exige desenvolver um paladar emocional refinado, no qual se tenha prazer em se doar para o outro. O individualismo
 um fenmeno intelectual espontneo e no exige esforo para alcan-lo. Alm disso, ele no gera um prazer to rico como o prazer coletivo, quando se est entre
amigos, quando a unidade  cristalizada. Quem preserva a unidade se torna especial por dentro e comum por fora. Quem ama o individualismo se torna especial por fora,
mas superficial por dentro. Na unidade proposta por Cristo os discpulos conquistam uma esfera afetiva to sofisticada que recebem o nome de irmos.  muito estranho
aplicar essa palavra "irmos" a pessoas que no participam dos mesmos laos genticos ou da mesma histria familiar desde a mais tenra infncia. Pois bem, o clima
produzido entre os discpulos de Cristo era irrigado com um amor to elevado e difcil de ser explicado que os tornavam membros de uma famlia. Uma famlia que est
alm dos limites dos laos genticos, que  no um mero grupo social reunido, mas que possui a mesma histria interior, na qual cada membro torce pelo outro e contribui
para promover seu crescimento interior.

#Aqueles homens que nunca pensaram em se doar pelos estranhos e que eram to individualistas passaram a se chamar carinhosamente de irmos. Pedro, que era inicialmente
to rude em sua personalidade, chamou a Paulo de amado irmo em sua segunda epstola. Eles aprenderam pouco a pouco a superar as dificuldades e preservar a unidade,
que  como um canteiro cultivado pela prtica do amor transcendental, que comentarei nos prximos textos. Uma das maiores falhas dos milhes de pessoas que seguiram
Cristo ao longo dos sculos foi no caminhar nas avenidas da unidade que ele desejava, deixando-se ser subjugadas pelas diferenas, pelos problemas, pelas disputas.
Cristo, enquanto estava com seus discpulos, ensinou-lhes a superar o medo, as dores, a investir em sabedoria, a desenvolver a arte de pensar e muitas outras funes
ricas da inteligncia. Agora eles tinham subsdios para caminhar pelas avenidas da unidade, bastaria que trafegassem por elas.

As necessidades universais do homem e a arte de amar
De todas as caractersticas da escola de Cristo, a do amor  a mais elevada e a mais nobre e, ao contrrio do que possamos pensar,  uma das mais difceis de se
compreender, pois ultrapassa os limites da razo lgica. Amar uns aos outros era um princpio fundamental. Estamos acostumados com a cultura crist e por isso no
ficamos intrigados com essas palavras. Do ponto de vista psicolgico, amar uns aos outros  uma exigncia potica e bela, mas, ao mesmo tempo, altssima e dificlima
de ser alcanada. Freud, na teoria da psicanlise*, deu nfase  sexualidade. O instinto sexual e os conflitos gerados por ele esto no cerne de muitos textos psicanalticos.
No h dvida de que determinados conflitos sexuais esto na base de algumas doenas psquicas. Contudo, a tese freudiana de que todos os fenmenos inconscientes
se explicam por experincias infantis ligadas  libido (energia sexual)  limitada e inaceitvel. Temos que considerar o ser humano alm dos limites da sexualidade,
alm dos limites dualistas da relao homem-mulher, e o compreendermos na sua totalidade, de forma a podermos ir ao encontro de suas necessidades universais. O que
mais somos em grande parte do nosso tempo? Homens ou mulheres, machos ou fmeas? Se estudarmos a construo da inteligncia e as necessidades psquicas fundamentais,
constataremos que na maior parte de nosso tempo (pro-vavelmente noventa por cento) no somos nem machos nem fmeas, homens ou mulheres, mas apenas seres humanos,
que possuem necessidades universais. Quais so essas necessidades universais? Necessidades de prazer, de entretenimento, de sonhar, de ter sentido existencial, de
superar as angstias existenciais, de transcender os estresses psicossociais, de superar a solido, de desenvolver a criatividade, de trabalhar, de atingir objetivos,
de alimentar-se, de repor as energias durante o sono, de amar e tambm de satisfao sexual. Quando procuramos evidenciar excessivamente nossa masculinidade ou feminilidade,
provavelmente est havendo comprometimento da sanidade psquica. Amar  provavelmente a necessidade universal mais sublime e mais difcil de ser atendida. Os romancistas
discursaram sobre o amor, os poetas o proclamaram, mas na prtica no  fcil conquist-lo. Cristo discursava sobre um amor estonteante, um amor que gera uma fonte
de prazer e de sentido existencial. Aquele simples homem de Nazar, que teve tantas dificuldades na vida, que sofreu desde a infncia e, quando adulto, no tinha
onde reclinar a sua cabea, no apenas destilou sabedoria da sua dor e extraiu poesia da sua misria, mas ainda achou flego para falar de um amor arrebatador: "Amai-vos
uns aos outros como eu vos amei.."92.

#Na sua ltima ida a Jerusalm, logo antes da crucificao, ele sofreu intensa perseguio por parte dos herodianos, dos fariseus e dos saduceus, que faziam parte
de partidos religiosos. Todos procuravam test-lo para faz-lo cair em alguma contradio. Esperavam que Cristo dissesse alguma heresia contra as tradies judaicas
ou que dissesse algo que fosse contra o regime de Roma. Todavia, ele silenciava a todos com sua inteligncia. Apesar de silenci-los e de provocar grande admirao
nesses opositores, tinha conscincia de que logo iria morrer. Era s uma questo de tempo e ele seria apanhado longe da multido, por isso ele discorria sem rodeios
sobre seu julgamento e sobre as dores que iria padecer. O clima era ameaador, capaz de tirar o sono de qualquer um. A cpula judaica j havia armado diversos esquemas
para prend-lo e mat-lo. Do ponto de vista lgico, no havia espao para Cristo se preocupar com outra coisa a no ser com a sua prpria segurana. Entretanto,
apesar da tenso exterior, ele no se deixava perturbar. O mundo  sua volta estava agitado, mas ele se mostrava tranqilo e ainda tinha tempo para discorrer com
seus ntimos sobre um amor transcendental, um amor que lana fora todo medo. Como  possvel algum que est rodeado de dio discursar sobre o amor? Cristo estava
para ser eliminado da terra dos viventes, todavia ainda cuidava carinhosamente daqueles galileus que tantas vezes o decepcionaram. Preparava-os para serem fortes
e unidos, em detrimento do drama que ele atravessaria. Equipava-os para que aprendessem a arte de amar. Ele discursava sobre um amor difcil de ser investigado,
que est muito alm dos limites da sexualidade, dos interesses particulares. Um amor que se doa e que se preocupa mais com os outros do que consigo mesmo.

O mais alto patamar de amor, tolerncia e respeito humanos
Coloque dez alunos numa universidade. Durante trs anos e meio, que foi o tempo que Cristo esteve com seus discpulos, tente ensin-los a se amarem uns aos outros.
D palestras, promova debates e conduza esses alunos a lerem todo tipo de literatura sobre o amor. Veja o resultado. Provavelmente, no final desse perodo, eles
no estaro se amando, mas guerreando uns com os outros, discutindo quem tem mais conhecimento sobre o amor, quem discorre melhor sobre ele. Sero mestres no discurso
sobre o tema "amor", mas dificilmente aprendero a mais difcil de todas as artes, a de amar. Aprend-la exige mais do que cultura e eloqncia. Cristo tinha uma
meta to elevada sobre o amor, que tanto seu discurso como suas atitudes ultrapassavam os limites da lgica psicolgica. Certa vez, disse: "Ouvistes o que foi dito:
Amars o teu prximo e odiars o teu inimigo. Eu, porm, Vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem... Se amardes os que vos amam, que recompensa
tendes?" 93. Com essas palavras, Cristo atingiu os limites mais altos e, ao mesmo tempo, mais impensveis do amor, da tolerncia e do respeito humano. Como  possvel
amar os inimigos? Quem tem estrutura emocional para isso? Como  possvel amar algum que nos frustrou, nos decepcionou, falou injustamente contra ns? Algumas pessoas
nem conseguem amar a si mesmas, pois no tm o mnimo de auto-estima, vivem se destruindo com sentimento de culpa e inferioridade. Outras amam seus amigos, mas com
uma emoo frgil e sem razes, pois, ao mnimo sinal de frustrao, elas os excluem de suas vidas. Outras ainda tm uma emoo mais rica e estvel e constroem amizades
duradouras que suportam os invernos existenciais. Todavia, so incapazes de amar algum alm do seu crculo de amigos, por isso so exclusivistas, no aceitam intrusos
em seu grupo social.

#Se no poucas vezes nosso amor  condicional, instvel e exclusivista, como  possvel amar os inimigos? Nenhum humanista chegou a tal ambio. Provavelmente ningum
que proclamou a necessidade de preservar os direitos humanos foi to longe como Cristo, estabeleceu um padro de relacionamento to alto como o que ele props. Devido
ao adensamento populacional na atualidade, bem como  competitividade, ao individualismo e ao superficialismo nas relaes socioprofissionais,  mais fcil fazer
"inimigos" do que amigos. No inimigos que querem nos destruir, mas que nos decepcionam, que nos frustram, que nos criticam justa ou injustamente, que falam por
detrs, que no correspondem s nossas expectativas. Somente uma pessoa que  apaixonada pela vida e pelo ser humano e, alm disso,  tranqila e segura, supera
com dignidade as frustraes sociais e gerencia com exmia habilidade seus pensamentos nos focos de tenso. Somente ela pode viver o padro proposto por Cristo,
pode ser livre em sua emoo, pode ter possibilidades de amar as pessoas que a aborrecem. Nem a psiquiatria moderna sonhou com um ser humano com um padro to alto
em sua personalidade. Se tivssemos a capacidade de amar as pessoas que nos frustram, prestaramos um grande favor a ns mesmos. Deixaramos de ficar angustiados
por elas e as veramos sob outra perspectiva, no mais como inimigas. Diminuiramos os nveis de estresses e evitaramos alguns sintomas psicossomticos. O dilogo,
o respeito, a afetividade e a solidariedade floresceriam como num jardim. A compreenso do comportamento do outro seria mais nobre. Que tcnicas de psicologia poderiam
nos arrebatar para tal qualidade de vida se, freqentemente, queremos que o mundo gravite primeiro em torno de nossas necessidades, para depois considerarmos a necessidade
dos outros?

As limitaes da emoo humana
Muitos pais passam a vida inteira ensinando seus filhos a seguir as trajetrias do amor, a cultivar uma rica afetividade entre eles, e o resultado no poucas vezes
 o desamor, a disputa e a agressividade. No  fcil ensinar o caminho do amor, pois ele est alm da mera aquisio de ensinamentos ticos e de regras comportamentais.
Os discpulos de Cristo, quando ele os chamou, comportavam-se como qualquer ser humano: discutiam, se irritavam e viviam apenas para satisfazer suas necessidades.
Todavia, o mestre queria que eles reescrevessem paulatinamente suas histrias, uma histria sem disputas, sem discriminao, sem agressividade, uma histria de amor.
Cristo tinha metas ousadssimas, mas ele s propunha aquilo que vivenciava. Ele amou o ser humano incondicionalmente. Foi dcil, gentil e tolerante com seus mais
ardentes opositores. Amou quem no o amava e se doou para quem o aborrecia. O amor era a base da sua motivao para aliviar a dor do outro. Quem possui uma emoo
to desprendida? As grandes empresas de todo o mundo tm respeitveis equipes de recursos humanos que procuram treinar continuamente seus funcionrios para que possam
aprender a ter melhor desempenho intelectual, criatividade e esprito de equipe. Os resultados nem sempre so os desejados. Porm o propsito de Cristo, alm de
incluir o esprito de equipe e o desenvolvimento da arte de pensar, requeria a criao de uma esfera de amor mtuo. Ningum consegue preservar qualquer forma de
prazer nos mesmos nveis por muito tempo. Ao longo dos anos, devido ao processo de psicoadaptao, o amor diminui invariavelmente de intensidade e, se houver sucesso,
ser possvel substitu-lo paulatinamente pela amizade e pelo companheirismo.

#A psicoadaptao  um fenmeno inconsciente que faz diminuir a intensidade da dor ou do prazer ao longo da exposio de um mesmo estmulo. Uma pessoa, ao colocar
um quadro de pintura na parede, o observa e o contempla por alguns dias, todavia, com o decorrer do tempo, ela se psicoadapta  sua imagem e pouco a pouco se sente
menos atrada por ele. Uma pessoa, ao comprar um veculo, depois de alguns meses entra dentro dele como entra no banheiro de sua casa, ou seja, no tem mais o mesmo
prazer que tinha quando o adquiriu, pois se psicoadaptou a ele. Quando sofremos uma ofensa, no comeo ela nos perturba, mas com o decorrer do tempo nos psicoadaptamos
e pouco sofremos com ela. O mesmo pode ocorrer com a afetividade nas relaes humanas. Com o passar do tempo, se o amor no for cultivado, nos adaptamos uns aos
outros e deixamos de amar. A energia emocional no  esttica, mas dinmica. Ela se organiza, se desorganiza e se reorganiza num fluxo vital contnuo e ininterrupto.
Nossa capacidade de amar  limitada. Amamos com um amor condicional e sem estabilidade. As frustraes, as dores da existncia, as preocupaes cotidianas sufocam
os lampejos de amor que possumos. Portanto, o segredo do limitado amor humano nem sempre est em conquist-lo, mas em cultiv-lo. Apesar de todas as limitaes
da emoo em criar, viver e cultivar uma esfera de amor, amar  uma das necessidades vitais da existncia. Quem ama vive a vida intensamente. Quem ama extrai sabedoria
do caos. Quem ama tem prazer em se doar. Quem ama aprecia a tolerncia. Quem ama no conhece a solido. Quem ama supera as dores da existncia. Quem ama produz um
osis no deserto. Quem ama no envelhece, ainda que o tempo sulque o rosto. O amor transforma miserveis em ricos. A ausncia do amor transforma ricos em miserveis.
O amor  uma fonte de sade psquica. O amor  a expresso mxima do prazer e do sentido [existencial. O amor  a experincia mais bela, potica e ilgica da vida.
Cristo discursava sobre a revoluo do amor...

Um lugar de destaque para as mulheres na escola da existncia
No projeto de Cristo no havia lugares s para os homens, os apstolos e lderes masculinos, embora a sociedade da poca supervalorizasse o homem. Nele, as mulheres
tiveram um destaque fundamental. Elas sempre aprenderam com mais facilidade a linguagem do amor do que os homens. Alis, os gestos mais sublimes para com Cristo
foram produzidos pelas mulheres, das quais destacarei duas. Uma delas foi Maria, irm de Lzaro, um dos amigos de Cristo. Ela tinha um frasco de alabastro contendo
um precioso perfume94. Aquele perfume era carssimo, talvez a maior preciosidade que ela possusse. Maria amava muito o seu mestre. Foi to cativada por ele e por
suas palavras incomuns que no sabia como expressar sua gratido. Alm disso, estava muito entristecida porque, diferente dos discpulos, tinha entendido que Cristo
estava prximo de sua morte. Diante de tanto amor e de tanta dor, ela teve um gesto inusitado: deu-lhe o que tinha de mais caro. Quebrou o vaso de alabastro e derramou
seu perfume sobre a cabea de Cristo, preparando-o para sua morte, pois os antigos perfumavam os cadveres.

#Alguns discpulos consideraram sua atitude um desperdcio. Entretanto, para ela, aquilo no era um desperdcio, era muito pouco perto do amor que sentia por ele,
perto da dor da sua partida. Cristo entendeu a dimenso do seu gesto e ficou to comovido que expressou que onde as suas palavras fossem propagadas, o seu gesto
seria divulgado para a memria dela95. O gesto daquela mulher foi um memorial de amor, que chegou at os dias de hoje. Uma outra mulher fez um gesto sublime para
com Cristo. Ela no tinha recursos financeiros nem tinha um perfume to caro para aspergir sobre ele. Todavia, possua um outro lquido no menos precioso: suas
lgrimas. Essa mulher era desprezada socialmente e reprovada moralmente, porm Cristo havia passado por ela e transformado a sua vida. Vejamos essa histria. Cristo
foi convidado para participar da refeio na casa de um fariseu. De repente, entrou uma mulher chorando e derramando lgrimas sobre os ps de Cristo. E como no
dispunha de toalha, ela, constrangida, os enxugou com seus prprios cabelos96. Cristo nunca exigiu que as pessoas se dobrassem aos seus ps, entretanto, muitos o
fizeram. Os ditadores sempre usaram a fora para conseguir tal reverncia. Porm as que se dobravam aos ps de Cristo no o faziam por medo ou presso, mas por amor.
Elas se sentiam to compreendidas, amadas, perdoadas e includas que eram atradas por ele. Aquela mulher era famosa por sua imoralidade. O fariseu, anfitrio, conhecia
a histria dela. Quando ela chorou aos ps de Cristo, ele comeou a criticar os dois em seus pensamentos. Para aquele fariseu moralista e rgido, o gesto dela era
um escndalo e a atitude complacente de Cristo era inadmissvel. No concebia que algum que tivesse dignidade se misturasse com aquele tipo de gente. O fariseu
era timo para julgar, mas seu julgamento era superficial, pois no conseguia perceber os sentimentos mais profundos do ser humano, no conseguia compreender que
as lgrimas daquela mulher no expressavam um choro comum, mas eram resultado de uma profunda reflexo de vida. As palavras de Cristo tinham mudado o seu viver.
Ela aprendeu a am-lo profundamente e havia encontrado um novo sentido para a sua vida, por isso, sem pedir licena, invadiu a casa daquele fariseu e debruou-se
sobre os ps do seu mestre. No se importou com o julgamento que fariam dela. Cristo ficou to comovido com o gesto daquela mulher que ele, mesmo estando em situao
delicada por ter tantos opositores, tambm no se importou em desgastar mais uma vez a sua imagem social. Aquela cena era comprometedora, poderia gerar ms interpretaes.
Qualquer um que se preocupasse com a sua imagem social ficaria incomodado pela maneira como aquela mulher entrou e pelos gestos que fez. Todavia, para aquele mestre
afetivo, os sentimentos dela eram mais importantes do que o que outros pudessem pensar e falar dele. Cristo no lhe fez perguntas, no indagou sobre seus erros,
no questionou sua histria, apenas compreendeu e a tratou gentilmente. Aps esse tratamento, o mestre da escola da existncia se virou para o fariseu, provocou
a sua inteligncia e abalou os alicerces do seu juzo e de sua moralidade superficial com uma histria. Ele discorreu sobre duas pessoas que possuam dvidas. Uma
era aquela mulher e a outra era o prprio fariseu. As duas tiveram suas dvidas perdoadas. Cristo o levou a concluir que aquela mulher, por ter conscincia de que
sua dvida era maior, tinha valorizado mais o perdo, ficado mais aliviada e amado mais aquele que a perdoara. Com essa histria, Cristo levou aquele crtico fariseu
a compreender que, pelo fato de aquela mulher ter feito uma profunda reviso de sua histria, ela havia aprendido a amar mais do que ele que se considerava justo.
Por meio dessa histria, tambm levou-o a pensar que ele, embora conhecesse toda a lei judaica e se gabasse da sua justia e moralidade, era infeliz, vazio e tinha
uma vida teatral, pois no conseguia amar. Assim, ele demonstrou que onde a auto-suficincia e a arrogncia imperam, o amor no consegue ser cultivado. E, por outro
lado, onde impera a humildade e uma reviso sem medo e sem preconceito da histria de vida, o amor floresce como num jardim. O orgulho e o amor nunca florescem no
mesmo territrio.

#As duas mulheres, com seus gestos delicados, surpreenderam aquele mestre que vivia surpreendendo todas as pessoas. Esses gestos evidenciam que, quando as mulheres
entram em cena, conseguem ser mais sublimes do que os homens. Elas sempre foram mais rpidas para compreender e incorporar a linguagem sofisticada do amor do mestre
dos mestres. O amor sempre gerou gestos mais nobres e mais profundos do que o poder e a justia moralista masculina...

O amor e o perdo
Cristo propunha que seus discpulos perdoassem uns aos outros, que se libertassem dos seus sentimentos de culpa e que tivessem uma vida emocional suave, tranqila,
que s uma pessoa que perdoa tanto aos outros como a si mesma pode ter. A psicologia de Cristo era profunda, o amor e o perdo se entrelaavam. Era de fato uma psicologia
transformadora, e no reformadora e moralista. Ele dizia que tinha vindo para perdoar, para aliviar o peso da existncia e tornar a vida mais complacente, tolerante
e emocionalmente serena. Encorajava os seus discpulos a observarem a vida dele e a tom-la como modelo existencial. Por isso, dizia: "Aprendei de mim, pois sou
manso e humilde de corao"97. Cristo desejava aliviar a emoo do peso das mgoas, dos rancores, dos complexos de inferioridade, dos sentimentos de culpa e da autopunio.
Apesar de ter todos os motivos para ser rgido e at julgar as pessoas, nele s havia espao para o perdo, que no  um sinal de fraqueza, mas de grandeza emocional.
Perdoar  expressar a arte de amar. Na escola da existncia de Cristo, perdoar uns aos outros  um princpio fundamental. Perdoar alivia tanto os sentimentos de
culpa como as mgoas. O sentimento de culpa fere a emoo. A mgoa corri a tranqilidade. A proposta de Cristo do perdo  libertadora. A maior vingana contra
um inimigo  perdo-lo. Ao perdo-lo, nos livramos dele, pois ele deixa de ser nosso inimigo. O maior favor que fazemos a um inimigo  odi-lo ou nos sentirmos magoados
com ele. O dio e a mgoa cultivam os inimigos dentro de ns. Cristo viveu a arte do perdo. Perdoou quando rejeitado, quando ofendido, quando incompreendido, quando
ferido, quando zombado, quando injustiado, perdoou at quando estava morrendo na cruz. No pice da sua dor disse: "Pai, perdoa-os, pois eles no sabem o que fazem..."98.
Esse procedimento tornou a trajetria de Cristo livre e suave.  muito difcil viver com tranqilidade nas relaes sociais, pois facilmente nos frustramos com os
outros.  mais fcil conviver com mil animais do que com dois seres humanos. s vezes, nossas mais amargas frustraes provm no dos estranhos, mas das pessoas
mais ntimas. Apesar de rodeado de inimigos e de ter discpulos que freqentemente o decepcionavam, o mestre da escola da existncia conseguia viver tranqilo. A
arte do perdo era um dos seus segredos. O exerccio dessa arte o fazia no gravitar em torno dos outros, no esperar o retorno deles quando ele se doava. No que
no esperasse nada dos seus discpulos, pelo contrrio, propunha metas elevadssimas para eles. Todavia, tinha plena conscincia de que elas no poderiam ser conquistadas
por presso, cobranas e nem em pouco tempo. Ele esperava que, paulatinamente, seus discpulos fossem transformados interiormente de maneira livre e espontnea.
Por amar o ser humano e exercitar continuamente a arte do perdo, Cristo preparava terreno para transcender, superar qualquer tipo de frustrao com qualquer tipo
de pessoa. Nem a vexatria negao de Pedro o fez desanimar. Pedro andou muito tempo com seu mestre, presenciou gestos e ouviu palavras incomuns. Todavia, ele o
negou por trs vezes e diante de pessoas humildes, diante dos servos dos sacerdotes. Enquanto Pedro o negava pela terceira vez, Cristo, apesar de estar sendo espancado
e injuriado, se virou para ele e o alcanou com um olhar... Um olhar acolhedor, no julgador.

#Cristo estava preso e sendo ferido, enquanto Pedro estava livre no ptio, vendo de longe seu mestre ser agredido. O Cristo preso e ferido teve tempo para acolher
o Pedro livre no ptio. Quem estava preso, Cristo ou Pedro? Pedro estava preso e Cristo estava livre. Pedro estava livre exteriormente, mas preso interiormente,
pelo medo e pela insegurana. Cristo estava preso exteriormente, mas livre interiormente, em seus pensamentos e emoes, em seu esprito. Pedro no pediu perdo
ao seu mestre, mas o olhar acolhedor e consolador dele j o estava perdoando no momento em que ele o negava pela terceira vez. Cristo, com o seu olhar penetrante
parecia dizer eloqentemente a ele: "Pedro, voc pode desistir de mim, pode negar tudo o que viveu comigo, mas no tem problema, eu ainda te amo, no desisto de
voc...". Diante disso, Pedro caiu em si e se retirou para chorar. Aquele homem forte e rude, que dificilmente derramava lgrimas, comeou a aprender a chorar e
a ser sensvel. Chorou intensa e amargamente. Enquanto chorava, ele provavelmente repensava seu comportamento e a sua histria, meditava sobre o olhar profundo de
Cristo, refletia sobre os pensamentos dele e, talvez, comparava sua pobre e limitada emoo, subjugada pelo medo e pela insegurana, com o amor incondicional do
seu mestre. Todos ns gostamos de criticar, julgar e condenar as pessoas que nos cercam e at aquelas que esto longe do nosso convvio. Cristo tinha todos os motivos
para julgar, mas no o fazia nem condenava; ele acolhia, inclua, valorizava, consolava e encorajava. Pedro disse que, ainda que todos negassem a Cristo, ele no
o negaria e, se necessrio, at morreria com ele. Foi muito grave o erro de Pedro que negou, ainda que por momentos, a Cristo e a histria que teve com ele. Alm
disso, por neg-lo, foi infiel  sua prpria conscincia. Contudo, Cristo no o condenou, no o questionou, no o criticou, no o reprovou, apenas o acolheu. Cristo
o conhecia mais do que o prprio Pedro. Ele previu seu comportamento. Sua previso no era uma condenao, mas um acolhimento, um sinal de que no desistiria de
Pedro em qualquer situao, um indcio de que o amor que sentia por ele estava acima do retorno que poderia receber, acima dos seus gestos e atitudes. Certa vez,
Cristo disse que toda pessoa que viesse at ele no seria lanado fora, no importasse a sua histria nem seus erros 99. Ele via os erros no como objeto de punio,
mas como uma possibilidade de transformao interior. A prtica do perdo de Cristo era fruto da sua capacidade incontida de amar. Atravs dessa prtica, todos tinham
contnuas oportunidades de revisar a sua histria e crescer diante dos seus erros. O amor de Cristo  singular, ningum jamais pode explic-lo...

#O beijo de Judas Iscariotes e a amabilidade como Cristo trata seu traidor
Antes de Cristo ser julgado, vrias tentativas tinham sido feitas para prend-lo, todas sem sucesso. Numa delas, os sacerdotes e os fariseus ficaram indignados com
os soldados que voltaram de mos vazias. Dessa vez, a frustrada tentativa no recaiu sobre o medo da reao da multido, que no aceitaria a priso de Cristo, mas
porque os soldados ficaram atnitos com as suas palavras. Eles disseram aos sacerdotes que "nunca algum falou como este homem"100. Os sacerdotes, indignados com
os soldados, os repreenderam e disseram que ningum da cpula judaica havia acreditado nele, apenas a "ral" inculta. O que no era verdade, pois vrios sacerdotes
e fariseus admiravam e acreditavam em Cristo, mas tinham medo de declarar isso em pblico. Apesar de vrias tentativas frustradas, chegou o momento de ele ser trado,
preso e julgado. Ele impressionou os soldados que o prenderam por se entregar espontaneamente, sem qualquer resistncia. Alm disso, intercedeu pelos trs discpulos
que o acompanhavam, pedindo aos guardas que no os prendessem. Assim, no momento em que foi preso, continuou a ter atitudes incomuns; ainda havia disposio nele
para cuidar fraternalmente do bem-estar dos seus amigos. Quando sofremos, s temos disposio para aliviar nossa dor, mas quando ele sofria ainda havia disposio
nele para cuidar dos outros. E no apenas isso, na noite em que foi trado, sua amabilidade e gentileza eram to elevadas que teve reaes impensveis com seu prprio
traidor. Vejamos. Cristo foi trado e preso no jardim do Getsmani. Era uma noite densa e ele estava orando e esperando esse momento. Ento, Judas Iscariotes apareceu
com um grande nmero de guardas. Cristo tinha todos os motivos para repreender, criticar e julgar Judas. Todavia, o registro de Mateus diz que, mesmo nesse momento
de profunda frustrao, ele foi amvel com seu traidor chamando-o de amigo, dando-lhe, assim, mais uma oportunidade para que ele se interiorizasse e repensasse em
seu ato. Judas, nesse momento, fez um falso elogio: "Salve, `Mestre'!", e o beijou. Jesus, porm, lhe disse: "Amigo, para que vieste?". Aqui h algumas importantes
consideraes a serem feitas. O beijo de Judas indica que Cristo era amvel demais. Judas, embora estivesse traindo seu mestre, embora o conhecesse pouco, conhecia
o suficiente para saber que ele era amvel, dcil e tranqilo. Sabia que no seria necessrio o uso de nenhuma agressividade, nenhuma emboscada ou armadilha para
prend-lo. Um beijo seria suficiente para que Cristo fosse reconhecido e preso naquela densa noite escura no jardim do Getsmani. Qualquer pessoa trada tem reaes
de dio e de agressividade. Por isso, para tra-la e prend-la so necessrios mtodos agressivos de segurana e conteno. Entretanto, Cristo era diferente. Judas
sabia que ele no reagiria, que no usaria qualquer violncia e muito menos fugiria daquela situao, portanto bastava um beijo. Em toda histria da humanidade,
nunca algum, por ser to amvel, foi trado de maneira to suave! Cristo sabia que Judas o trairia e estava aguardando por ele. Quando ele chegou, Cristo, por incrvel
que parea, no o criticou nem se irritou com ele. Teve uma reao totalmente diferente do nosso padro de inteligncia. O normal seria ofender o agressor com palavras
e gestos ou emudecer diante do medo de ser preso. Porm Cristo no teve essas reaes. Ele teve a coragem e o desprendimento de chamar o seu traidor de amigo e a
gentileza de lev-lo a se interiorizar e a repensar sua atitude. Perdemos com facilidade a pacincia com as pessoas, mesmo com aquelas que mais amamos. Dificilmente
agimos com gentileza e tranqilidade quando algum nos aborrece e nos irrita, ainda que esse seja nosso filho, aluno, amigo ou colega de trabalho. Desistimos fcil
daqueles que nos frustram, decepcionam.

#Judas desistiu de Cristo, mas Cristo no desistiu de Judas. Ele deu-lhe at no ltimo minuto uma preciosa oportunidade para que ele reescrevesse sua histria. Que
amor  esse que irrigava a emoo de Cristo com mananciais de tranqilidade num ambiente desesperador? Que amor  esse que o conduzia, mesmo no pice da sua frustrao,
a chamar seu traidor de amigo e a estimul-lo a revisar a sua vida? Nunca, na histria, um traidor foi tratado de maneira to amvel e elegante! Nunca o amor chegou
a patamares to elevados e sublimes.

Metas to ousadas para uma humanidade to limitada
Cristo falava de um amor estonteante. Um amor que irriga o sentido de vida e o prazer da existncia. Um amor que se doa, que vence o medo, que supera as perdas,
que transcende as dores, que perdoa. Ele vivenciou esta histria de amor. O amor aplainava suas veredas, fazia-o sentir-se satisfeito, sereno, tranqilo, seguro,
estvel, em detrimento dos longos e dramticos invernos existenciais que vivia. A uns ele dizia "no chores", a outros "no temas" e ainda a outros "tendes bom nimo".
Estava sempre animando, consolando, compreendendo e envolvendo as pessoas e encorajando-as a superar seus temores, desesperos, fragilidades, ansiedades. Cristo demonstrou
uma disposio impensvel de amar, mesmo no pice da dor. Suas palavras e atitudes so como um sonho para as sociedades modernas que mal conseguem escalar alguns
degraus da cidadania e do humanismo. Se transportarmos o pensamento de Cristo para a atualidade, podemos inferir que ele queria construir na humanidade uma esfera
to rica afetivamente que o ser humano deixaria de ser um mero nome, "conta bancria", "ttulo acadmico", "nmero de identidade", e passaria a ser uma pessoa insubstituvel,
singular e verdadeiramente amada. Somente o amor torna as pessoas insubstituveis, especiais, ainda que no tenham status social ou cometam erros e experimentem
fracassos ao longo da vida. Qualquer mestre deseja que seus discpulos se tornem sbios, tolerantes, criativos e inteligentes. A bela Academia de Plato tinha no
mximo essas exigncias. As teorias educacionais e psicopedaggicas de hoje tm uma exigncia menor ainda, pois no incluem a conquista da tolerncia e da sabedoria
na sua pauta. Nem o inteligente Piaget colocou tais metas em sua pauta intelectual. Contudo, Cristo foi muito mais longe que a Academia de Plato e que as metas
educacionais da modernidade. Os que seguiam o mestre dos mestres tinham que aprender a no apenas destilar sabedoria nos invernos da vida, percorrer as avenidas
da tolerncia, e expandir a arte de pensar, mas tambm aprender a mais nobre de todas as artes, a arte de amar. Ningum teve metas to elevadas para uma humanidade
to limitada...

#Reciclando a competio predatria
As metas de Cristo no poderiam ser cumpridas se houvesse um clima de competio predatria e individualismo entre seus discpulos. A presena desse clima destruiria
completamente a construo da histria de amor, da unidade, da sabedoria, da solidariedade que ele propunha. Como Cristo poderia transformar intrinsecamente o homem,
se a tendncia natural dele  se colocar acima dos outros e querer que o mundo gire primeiramente em torno das suas prprias necessidades? Reverter esse quadro era
um dos maiores e mais difceis desafios de Cristo, que muitos tentaram vencer, mas foram derrotados. O pensamento de Cristo vira de cabea para baixo os paradigmas
do mundo moderno. Nele no h espao para a competio predatria. No seu projeto, o individualismo  uma atitude desinteligente. Ele estabelece avenidas de um modelo
inovador de relacionamento. Entre seus princpios fundamentais esto aprender a cooperar mutuamente e aprender a se doar sem esperar a contrapartida do retorno.
O capitalismo sobrevive da competio. Sem esse processo, o capitalismo estaria morto. A competio estimula o desempenho intelectual e melhora a qualidade de produtos
e servios. Todavia, quando  predatria, ou seja, quando considera as metas a serem atingidas mais importantes do que o processo utilizado para atingi-las, torna-se
desumana e destrutiva. A competio predatria anula os valores altrustas da inteligncia, anula a humanidade dos competidores. Na escola de Cristo no se admite
qualquer tipo de competio destrutiva, que anule ou prejudique o outro. Existe uma competio totalmente diferente da que estamos acostumados, uma competio saudvel
e sublime, ou seja, uma competio para servir os outros, para promover o bem-estar deles, para honr-los, para cooperar mutuamente, para ser solidrio. Podemos
dizer que a escola da existncia de Cristo  to admirvel que seus princpios so os de uma anticompetio, onde imperam a preservao da unidade e a promoo do
crescimento mtuo. Cristo no eliminava a busca de metas pessoais, a conquista de uma recompensa mais elevada. Ele evidenciava que havia uma recompensa superior
para aqueles que atingissem a maturidade interior. As metas continuam existindo, porm os processos para atingi-las so contrrios ao que aprendemos. Aquele que
quer ser o maior tem que se fazer menor. Aquele que quer ser grande deve ser o que mais serve. Aquele que quer ter posio privilegiada deve ser o que mais valoriza
e honra as pessoas desprezadas. Onde vemos um modelo social como esse? Nem os socialistas, no pice de seus pensamentos, sonharam com uma sociedade to solidria.
O ser humano ama ser servido e reconhecido pelos outros. Ama estar acima dos seus pares, aprecia o brilho social. Alguns usam at a prtica do "coitadismo" para
ter privilgios. Usam a humildade como pretexto, ainda que inconsciente, para que as pessoas gravitem em torno deles pela misria ou d que inspiram. A prtica do
"coitadismo" engessa a inteligncia. E quando presente nos pacientes com transtornos psquicos, dificulta at a resoluo de doenas totalmente tratveis. Por isso,
costumo dizer que o grande problema no  a doena do doente, mas o doente da doena, ou seja, a atitude frgil do "eu" diante das doenas psquicas. Cristo era
contra a prtica do "coitadismo". Rejeitava at mesmo qualquer tipo de sentimento de d que as pessoas tivessem em relao a ele101. Sua humildade e simplicidade
eram conscientes. Ele no queria formar homens dignos de d, mas homens lcidos, seguros e coerentes102.

O mestre alarma seus discpulos com procedimentos impensveis
Cristo agia como um arquiteto de novas relaes sociais. No apenas a solidariedade, a capacidade de se doar, de cooperar mutuamente, de considerar as necessidades
do outro deveriam regular as relaes humanas, mas tambm os sentimentos mais nobres da tolerncia deveriam regul-las e at embriag-las. A tolerncia  uma das
caractersticas mais sofisticadas e difceis de ser incorporada na personalidade.

# mais fcil adquirir cultura do que aprender a ser tolerante. Uma pessoa tolerante  compreensiva, aberta e paciente. J a intolerante  rgida, implacvel, tanto
com os outros como consigo mesma.  prazeroso conviver com uma pessoa tolerante, mas  angustiante conviver com uma pessoa rgida, excessivamente crtica. No projeto
de Cristo, as funes sociais so mantidas. Os polticos, os empresrios, os intelectuais, os trabalhadores continuam desenvolvendo suas atividades profissionais.
Apesar da preservao das atividades sociais, todos deveriam aprender a despojar-se da necessidade de estar uns acima dos outros, todos deveriam aprender a exercer
a cidadania e a solidariedade em seus amplos aspectos. As mudanas que ele prope so de dentro para fora e no o contrrio. Cristo indicava claramente que qualquer
mudana exterior sem uma reorganizao interior era mera maquiagem social103. O objetivo dele no era reformar a religio judaica. Seu projeto era muito mais ambicioso.
Cristo desejava causar uma profunda transformao no cerne da alma humana, uma profunda mudana na maneira de o homem pensar o mundo e a si mesmo. Como Cristo poderia
ensinar lies to refinadas quele grupo rude, inculto e intempestivo de jovens galileus? Como poderia ter xito nessa empreitada se, passados tantos sculos, ns
que vivemos em sociedades to aculturadas, saturadas de universidades e informaes, no escalamos os primeiros degraus dessa jornada?  possvel falar por anos
a fio sobre solidariedade, cidadania, amor ao prximo, capacidade de se doar, e, ainda assim, gerar um grupo de pessoas individualistas, que so incapazes de se
colocar no lugar do outro. Vejamos como esse mestre sofisticado agiu. Certa vez, todos os seus discpulos estavam reunidos conversando. O ambiente parecia comum.
Nada de estranho pairava no ar. Ento, de repente, Cristo teve mais uma atitude que deixou todos os seus discpulos perplexos. Convm dizer que o fato que relatarei
ocorreu no final da sua vida e que ele tinha conscincia de que sua morte se aproximava. Ento, precisava treinar os seus discpulos para aprender as mais profundas
lies da existncia. quela altura, Cristo era profundamente exaltado e admirado pelos discpulos. Toda pessoa superadmirada fica muito distante daqueles que a
exaltam. Ele tinha grande popularidade, as multides o seguiam atnitas. Os discpulos, por sua vez, estavam extasiados por seguir um homem to poderoso, que acreditavam
ter nada menos que status de Deus. Os imperadores romanos queriam desesperadamente um pouco desse status e, para tanto, usavam a violncia. Cristo adquiriu esse
status espontaneamente. Seus discpulos o consideravam to grande que para eles Cristo estava nos "cus" e eles estavam aqui na terra como simples aprendizes, servos.
Diante disso, chegou o momento de esse mestre intrigante dar-lhes uma lio inesquecvel. Quando todos o colocavam nas alturas, inatingvel, subitamente se inclinou
em silncio, chegando ao nvel dos ps dos seus discpulos. Tomou calmamente uma toalha, colocou-a sobre seus ombros, pegou uma bacia de gua e, sem dizer palavra
alguma, comeou a lavar os ps deles104. Que cena impressionante! Que coragem e despojamento! Nunca ningum que foi considerado to grande se fez a si mesmo to
pequeno! Nunca ningum com o indescritvel status de Deus fez um gesto to humilde e singelo! Nunca o silncio foi to eloqente... Todos os discpulos ficaram perplexos
com sua atitude. Em Roma, os imperadores queriam que os homens se prostrassem aos seus ps e os considerassem divinos. Em Jerusalm, havia algum que foi reconhecido
como "Deus", mas, ao invs de exigir que os homens se prostrassem aos seus ps, ele se prostrou aos ps deles. Que contraste! No so apenas as palavras de Cristo
que no tm precedente histrico, mas tambm os gestos. Na sua poca, os calados no eram fechados, a higiene era pouca e o p era intenso, pois no havia calamento
nas ruas. A grossa camada de sujeira dos ps daqueles pescadores no era um problema para algum que conhecia a arte da humildade no seu patamar mais sublime. Ele
tinha tanto uma coragem incomum para vencer o medo e a dor como para ser humilde e envolver as pessoas.

#Imagine um grande empresrio tendo uma atitude dessa diante dos seus empregados. Imagine um juiz lavando os ps de um ru ou um reitor de uma universidade cingindo
os lombos com uma toalha e procurando os calouros da sua escola, to inibidos com o novo ambiente, para lavar seus ps.  difcil imaginar. Os gestos de Cristo so
impensveis, surpreendentes. Pedro ficou to perplexo que quis impedir-lhe o gesto. Ele no compreendeu nem suportou a humildade do mestre. H pouco tempo o prprio
Pedro o havia reconhecido como o filho do Deus vivo que era "um com o Pai." Ele poderia indagar: como pode algum que considerei como Deus infinito lavar os ps
de um pequeno homem finito? Cristo abalou os alicerces da sua mente. E, sem dizer nada, fez Pedro e seus amigos repensarem profundamente suas histrias de vida.
Pedro estava to atnito que disse que era ele quem deveria lavar os ps de Cristo. Todavia, Cristo foi incisivo, dizendo que se no lavasse os ps de Pedro, esse
no teria parte com ele. Os discpulos de Cristo no tinham prestgio social. Eram o que havia de pior em termos de cultura e educao na poca. Apesar da desqualificao
sociocultural, honrou e cuidou intensamente desses galileus. Cristo teve o desprendimento de lavar os ps dos seus discpulos. S uma me  capaz de ter um gesto
to amvel e espontneo como o dele. Com essa atitude eloqente, economizou milhes de palavras e se notabilizou no apenas como um mestre inteligente e sofisticado,
mas como "mestre dos mestres" da bela e imprevisvel existncia humana. Silenciosamente, vacinou os seus discpulos contra a ditadura do preconceito, contra qualquer
forma de discriminao, bem como contra a competio predatria, o individualismo e a parania compulsiva de ser o nmero um, que  um dos fenmenos psicossociais
mais comuns e doentios da sociedade moderna. Tal parania, em vez de contribuir com a eficincia intelectual, pode tanto abortar a criatividade como gerar uma contrao
do prazer pela existncia.  possvel ser o nmero dois, cinco ou dez com dignidade em qualquer atividade social e profissional.  possvel at se despreocupar com
qualquer tipo de classificao e exercer com naturalidade as atividades humanas dentro das prprias limitaes que cada um possui.  possvel, em algumas esferas,
ir ainda mais longe, ou seja, colocar as metas coletivas acima das individuais. Esse era o ardente desejo de Cristo.

Abrindo as janelas da mente dos seus discpulos
Os discpulos tambm viviam debaixo da parania de ser o nmero um. No muito tempo antes de Cristo dar-lhes essa profunda lio, eles disputavam para ver quem seria
o maior entre eles105. Tiago e Joo, por intermdio da sua me, chegaram at a fazer um pedido ousado ao mestre: para que um assentasse  direita e outro  esquerda
quando ele estivesse em seu reino, que inicialmente pensavam se tratar de um reino poltico106. Agora, com seu gesto chocante, o mestre penetrou nas entranhas dos
seus seres e os vacinou com exmia inteligncia contra as razes mais ntimas da competio predatria. Ao descer ao nvel dos ps dos seus seguidores, ele golpeou
profundamente o orgulho e a arrogncia de cada um deles. Os ps so condutores da trajetria existencial. Cristo queria expressar que nessa sinuosa e turbulenta
trajetria de vida o ser humano deveria lavar os ps uns dos outros, ou seja, deveria cooperar, ser tolerante, perdoar, suportar, cuidar, proteger e servir uns aos
outros. So lies profundas e dificlimas de serem aprendidas. Aps lavar os ps dos discpulos, Cristo rompeu seu silncio e comeou a exteriorizar suas intenes.
No precisava falar muito, pois com seu gesto surpreendente j havia falado quase tudo. Ele fez crticas contundentes ao superficialismo das relaes sociais e polticas
e declarou que, ao contrrio do que pensavam, aquele que desejasse ser o maior entre eles, teria de se fazer menor do que os outros, teria de aprender a servir107.
Se ele como mestre se despojava da sua posio e os servia, eles, que eram seus discpulos, deveriam fazer o mesmo uns aos outros.

#A hierarquia proposta por Cristo era, na realidade, uma anti-hierarquia, uma apologia  tolerncia,  solidariedade, a metas coletivas,  cooperao e  integrao
social. O maior  aquele que mais serve, que mais honra, que mais se preocupa com os outros. Em qualquer ambiente social, o maior recebe mais honra, mais privilgios,
mais ateno do que o menor. Todos focalizam as pessoas proeminentes. A esttica vale mais do que o contedo. O "espirro" intelectual de um grande poltico, de um
empresrio, de um artista famoso, de um chefe de departamento de uma universidade causa mais impacto do que os brilhantes pensamentos de uma pessoa sem expresso
social. Porm as caractersticas da escola de Cristo so to mpares que chocam o mundo moderno. Chocam tanto o capitalismo como o socialismo. Qualquer pessoa, inclusive
os cientistas, que tentar estudar a inteligncia de Cristo ficar intrigada e ao mesmo tempo encantada com os paradoxos que a cercam. Como  possvel algum que
teve uma simples profisso de carpinteiro, que precisava entalhar madeira para poder sobreviver, ser colocado como autor da existncia, como arquiteto do universo!
O registro de Joo 1 diz que "tudo foi feito nele e para ele e sem ele nada do que foi feito se fez..."108 Como pode algum dizer que tem o segredo da eternidade
e se humilhar a ponto de lavar os ps de simples pescadores galileus que no tinham qualquer qualificao social ou intelectual? Como pode algum que superava todo
tipo de medo, que era to corajoso e inteligente, ter se permitido passar pelo caos indescritvel da cruz, pela lenta desidratao, dor e exausto fsica e psicolgica
gerada por ela? A histria de Cristo  admirvel.

O audacioso projeto transcendental
No devemos pensar que Cristo estava produzindo um grupo de pessoas frgeis e despersonalizadas. Pelo contrrio, ele, por meio dos seus princpios inteligentes e
incomuns, estava transformando aquele grupo de incultos galileus na mais fina estirpe de lderes. Lderes que no tivessem a necessidade de que o mundo gravitasse
em torno deles, que se vacinassem contra a competio predatria e contra as razes do individualismo. Lderes que tivessem mais prazer em servir do que em ser servidos,
que aprendessem a se doar sem esperar a contrapartida do retorno, que estimulassem a inteligncia uns dos outros e abrissem as janelas do esprito humano. Lderes
que no fossem controlados pela ditadura do preconceito, que fossem abertos e inclusivos. Lderes que soubessem se esvaziar, que se colocassem como aprendizes diante
da vida e que se prevenissem contra a auto-suficincia. Lderes que assumissem suas limitaes, que enfrentassem seus medos, que encarassem seus problemas como desafio.
Lderes que fossem fiis  sua conscincia, que aprendessem a ser tolerantes e solidrios. Lderes que fossem engenheiros de idias, que soubessem trabalhar em equipe,
que expandissem a arte de pensar e fossem coerentes. Lderes que trabalhassem com dignidade seus invernos existenciais e destilassem a sabedoria do caos, que vissem
suas dores e dificuldades como uma oportunidade de serem transformados interiormente. Lderes que, acima de tudo, se amassem mutuamente, que tivessem uma emoo
saturada de prazer e vivessem a vida com grande significado existencial. As palavras so pobres para retratar a complexidade e a ousadia sem precedentes tanto da
inteligncia como do propsito transcendental de Cristo. Os textos das suas biografias so claros: ele no queria melhorar ou reformar o homem, mas produzir um novo
homem... No h uma equipe de recursos humanos, uma teoria educacional, uma teoria psicolgica, uma escola de pensamento filosfico e uma universidade que tenha
uma abrangncia e complexidade tal como a escola da existncia de Cristo. Ele tinha uma paixo indescritvel pela espcie humana.

#Os professores desistem com facilidade dos seus alunos rebeldes. Os pais se desanimam dos seus filhos problemticos. Os executivos excluem seus funcionrios que
no se enquadram em sua filosofia de trabalho. Enfim, nos afastamos das pessoas que frustram nossas expectativas, que nos causam sofrimentos. Porm, o comportamento
de Cristo era diferente. As pessoas podiam neg-lo, como Pedro, tra-lo por trinta moedas de prata, como Judas, rejeit-lo, feri-lo, desistir dele e s se preocupar
com suas necessidades materiais e com sua imagem social, porm ele nunca desistia, desprezava ou exclua ningum... Seu amor era incondicional. Sua motivao para
abrir as janelas da mente e do esprito humano era forte e slida e ia muito alm da motivao discursada pelos conferencistas da rea de recursos humanos da atualidade.
Sua esperana na transformao do outro, independente de quem seja, era arrebatadora e rompia com a lgica... Ele desejava colocar todo ser humano numa academia
de inteligncia, numa escola de sbios e de lderes. As complexas caractersticas da personalidade de Cristo evidenciam claramente que ela no poderia ser construda
pela criatividade intelectual humana. Sua inteligncia ultrapassa os limites de nossa imaginao. O mundo pra para comemorar o seu nascimento no final de dezembro,
mas a maioria das pessoas no tem conscincia de como ele foi uma pessoa magnfica e surpreendente... Mesmo que Cristo no tivesse feito nenhum milagre, os seus
gestos e seus pensamentos foram to eloqentes e surpreendentes que, ainda assim, ele teria dividido a histria... Depois que ele passou por esta sinuosa e turbulenta
existncia, a humanidade nunca mais foi a mesma. Se o mundo poltico, social e educacional tivesse vivido minimamente o que Cristo viveu e ensinou, nossas misrias
teriam sido extirpadas, teramos sido uma espcie mais feliz... Neste primeiro livro da srie "Anlise da Inteligncia de Cristo (subttulo: o Mestre dos Mestres)",
estudamos a sua sofisticada inteligncia at a noite em que foi trado no Getsmani. No segundo livro da srie (subttulo: O Clice), que ser publicado no segundo
semestre de 2000, investigaremos toda a escalada de sofrimento que ele passou do Getsmani at a sua morte clnica. Cristo, durante toda sua trajetria de vida,
teve todos os motivos para adquirir depresso, mas no a teve, pelo contrrio, era emocionalmente alegre. Teve tambm todos os motivos para adquirir ansiedade, mas
no a teve, pelo contrrio, era tranqilo, lcido e sereno. Todavia no Getsmani expressou que sua alma estava profundamente triste. O que ele vivenciou neste momento:
depresso ou uma reao depressiva momentnea? Qual a diferena entre esses dois estados? Que procedimentos Cristo tomou para administrar seus pensamentos e sair
da sua dramtica tristeza? O mestre de Nazar disse: "Pai, se possvel, afaste de mim esse clice, mas no faa como eu quero, mas como tu queres!" Ele hesitou diante
da sua dor? Alguns vem aqui recuo e hesitao. Todavia se estudarmos profundamente suas reaes e pensamentos compreenderemos que ele expressou naquela noite densa
e fria a mais bela poesia de liberdade, resignao e honestidade. Tinha plena conscincia do clice que beberia. Seria espancado, aoitado, zombado, cuspido, uma
coroa de espinho seria cravada em sua cabea e por fim passaria por seis longas horas na cruz. Viveria cerca de trinta tipos de sofrimentos at as ltimas batidas
do seu corao, at morrer esgotado pela desidratao, hemorragia e falncia cardaca. Jesus Cristo tinha conscincia de que teria que suportar o insuportvel e,
o que  pior, tinha que suport-lo com a mais alta serenidade e tolerncia, e sem qualquer tipo de "anestesia", por isso recusou o vinho e o fel. O que nenhum psiquatra
ou psiclogo conseguiria suportar, ele suportou com a mais sublime dignidade. Suportou o caos no como filho de Deus, mas como um homem... Expressou sabedoria numa
situao que deveria imperar apenas o medo e a irracionalidade, mostrou tolerncia numa esfera onde s havia espao para sentir o dio, revelou amabilidade num territrio
onde deveria apenas florescer a ansiedade e o desespero. Os mais eloqentes filsofos, pensadores e cientistas se tivessem estudado a personalidade de Cristo teriam
compreendido que ele atingiu o apogeu da sade emocional e intelectual.

#A psicologia e a psiquiatria tm muito o que aprender com os pensamentos e reaes que Cristo expressou nos momentos finais da sua histria. Na minha anlise, esses
momentos revelam a mais bela passagem da literatura mundial. Estudar a escalada de sofrimentos que Cristo atravessou contribuir para prevenirmos as mais insidiosas
doenas psquicas das sociedades modernas: a depresso, a ansiedade e o stress. Tambm contribuir para expandirmos a arte de pensar, refinarmos a sabedoria e enriquecermos
o sentido de vida, mesmo diante das dores da existncia...

#001 - Lucas 5:23; 6:9; 7:42 002 - Marcos 12:35-37 003 - I Pedro 5:13 004 - Joo 19:26 005 - Joo 18:8 006 - Marcos 11:10 007 - Marcos 10:35-37 008 - Lucas 22:61
009 - Lucas 1:1-2 010 - Lucas 18:31, Joo 14:31 011 - Joo 1:37-51 012 - Mateus 8:20 013 - Marcos 7:17-23, Joo 8:36 014 - Joo 8:57 015 - Mateus 16:13-17 016 -
Joo 6:13-52; 8:12-13; 8:58-59 017 - Lucas 7:39-40; 11:17 018 - Joo 8:48-51; 53-54 019 - Joo 6:35 020 - Lucas 2:45-51 021 - Lucas 2:39-44 022 - Mateus 22:22 023
- Mateus 27:13-14 024 - Mateus 27:19 025 - Mateus 6:25-34 026 - Mateus 6:28 027 - Mateus 5:1 a 7:29 028 - Lucas 4:18; Joo 8:32 029 - Joo 4:4-11 030 - Joo 4:17-18
031 - Joo 4:28-30 032 - Joo 7:37-39 033 - Mateus 6:25-34 034 - Mateus 23:5-7 035 - Marcos 15:9 036 - Marcos 15:4 037 - Mateus 14:13-21; Marcos 6:30-44 038 - Mateus
26:59-61 039 - Joo 6:38 040 - Joo 5:31-32 041 - Joo 11:25 042 - Joo 6:51 043 - Joo 14:6 044 - Joo 11:25 045 - Joo 6:53-54 046 - Lucas 7:11-15 047 - Joo 8:25
048 - Lucas 21:33 049 - Joo 7:3-4 050 - Joo 15:15 051 - Mateus 23:26-27 052 - Mateus 9:12 053 - Joo 6:35 054 - Mateus 5:1-11 055 - Mateus 23:8 056 - Joo 14:27;
16:4-6 057 - Mateus 21:31

#058 - Mateus 6:2,5; 7:15-23 059 - Mateus 6:30-44 060 - Mateus 14:15; 15:32, Marcos 8:1-9 061 - Lucas 21:38 062 - Lucas 6:67 063 - Joo 7:37 064 - Lucas 23:48 065
- Joo 2:23-25 066 - Marcos 10:15 067 - Marcos 7:20-23 068 - Lucas 8:22-25 069 - Joo 14:28; 16:20-22 070 - Mateus 13:45-46 071 - Provrbios 3:13-14 072 - Lucas
20:2-3 073 - Lucas 8:4-15; 20:9-18 074 - Lucas 15:1-32 075 - Lucas 10:25-37 076 - Lucas 6:12 077 - Joo 8:23 078 - Joo 6:51 079 - Mateus 8:20; 9:6; 12:8 080 - Joo
15:15 081 - Mateus 15:8 082 - Joo 15:13; 15:14; 15:15 083 - Lucas 6:12 084 - Lucas 11:11 085 - Marcos 6:6 086 - Lucas 5:27-32 087 - Mateus 26:67 088 - Lucas 7:39
089 - Lucas 5:29 090 - Mateus 11:19 091 - Joo 21:9-10 092 - Joo 13:34 093 - Mateus 5:44 094 - Mateus 26:7 095 - Mateus 26:13 096 - Lucas 7:38 097 - Mateus 11:29
098 - Lucas 23:34 099 - Joo 6:37 100 - Joo 7:45-49 101 - Joo 18:11 102 - Lucas 21:15 103 - Mateus 23:26-27 104 - Joo 13:4-5 105 - Marcos 9:34 106 - Marcos 10:35-38
107 - Joo 13:1-17 108 - Joo 1:3

#voc quiser fazer um comentrio sobre este livro ou quiser divulg-lo em sua escola, empresa ou grupo social, por favor entre em contato com Editora Academia de
Inteligncia. Telefax (0XX17) 3342-4844 E-mail: academiaint@mdbrasil.com.br E-mail do autor: jcury@mdbrasil.com.br

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